•09/02/2010 • Deixe um comentário
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Bola Perdida
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“O que nós fazemos nunca é realmente compreendido, apenas louvado ou condenado.”
(Nietszche)
“Procurei a felicidade por este mundo sem fim, sem saber que ela estava dentro de mim.”
(Nabuto Almada)
” Acredite nos que buscam a verdade, não nos que acham que já a encontraram.”
(André Gide)
Meus cepticíssimos leitores, muita vez me pego a pensar com meus botões de futebol de mesa. São longas, controversas e intrincadas elocubrações e, confesso, adoro dedicar parte do meu tempo a essas meditações que me levam a novas conclusões e mudanças de atitude. Ontem, o ar fresco da noite levou-me à varanda, onde fiquei, creio, durante umas boas duas horas. Eu pensava e em que pensava não me perguntem, eu digo e até repito, em milagres, em milagres. E milagres, vocês sabem, não acontecem todos os dias. Ou melhor, acho que milagre mesmo é sobreviver com esse salariozinho que recebo mensalmente. Eu não sei se já disse a vocês que sofro as mais cavas e profundas humilhações, por ser um aleijado emocional e economicamente, desde que me conheço por gente. Lembro que tudo começou na inocência de meus sete anos quando comprei fiado minha primeira paçoquinha na Bodega do seo Nicanor e não pude pagar. Na tenra ternura da idade, isso foi um marco em minha vida. Minto e já me corrijo. Não foi aos sete, mas aos seis e não era uma paçoquinha, e, sim, uma esplêndida, sensual e corcoveante maria-mole. Assim como também, a bem da verdade, não era a Bodega do seo Nicanor, mas, sim o lendário e inesquecível Armazém do seo Boleslau. De lá pra cá, com a mais cínica e deslavada impostura, virei um criador de frases postergativas para dívidas, que de tão criativas acabaram por me transformar em escritor. Hoje meus maiores fãs são meus credores. Então, sou obrigado a admitir: “Sim, eu acredito em milagres.”
OS FALACIANOS ODEIAM QUANDO EU BRINCO EM SERVIÇO.
- Ah, não! Nem vem com essa, tarado! Milagre agora, pra cima de nós?! Essa não vai ter perdão, é tiro na boca. Aahahahahahah… Chilreia o pardalzinho pousado à minha direita, o Geraldo, que por não ter o que fazer, vive fazendo aqui ao meu lado. Não sei se já disse a vocês que o Geraldo é um ser difuso, volátil, difícil de ser retratado, mas, em rápidas pinceladas, tenho tentado aqui, aos poucos, dar-lhes uma idéia mais clara de sua insignificância. Seu porte físico é disforme, semi-símio, seus braços longos e desajeitados vivem esbarrando em xícaras de café, copos, garrafas. Apesar da banha abundante e conclusiva, é frágil como um passarinho na chuva e tem a estranha mania de ficar vigiando tudo que faço aqui na redação e, o que mais detesto, de plagiar minhas melhores frases. De quando em quando, vem comer alpiste na minha mão piedosa e cheia de dedos, mas na maior parte do tempo, toda sua alma pênsil se dedica ao chiste, à bazófia e à pilhéria de mau gosto. Não lhe quero mal e nem bem também. Ele e Ribamar, o office-old aqui da redação, são esse tipo de gente a que o Charles Bukowski se referiu em seu poema O Gênio das Multidões: “o que existe de falsidade, ódio, violência e absurdo na pessoa mediana é suficiente para abastecer qualquer exército.” Mas isso não tem importância.
- Como assim? Como assim? Que pobreza de estilo, é sempre a mesma lenga-lenga, mas isso não tem importância, meus idiotíssimos leitores, mas não é isso que eu queria dizer. Porra meu, se flagre! Escreva algo diferente, invente, ô boca de burro. Ahahahahahah… Zurra o quadrúpede, esse mamífero perissodáctilo de tamanho médio com focinho e orelhas compridas e uma espinha enorme ocupando o lugar do rosto. Ribamar, entrou no Guiness, recentemente, por ser o mais idoso office-boy do mundo. Quando não está me perturbando, é porque está espremendo alguma, que ele cultiva, apara e aduba com as mais inverossímeis técnicas para o desenvolvimento e mudança genética das espinhas. Junto com o Geraldo, eles formam um par ímpar, capaz mesmo de fazer com que eu perca qualquer resto de esperança na salvação da raça humana. Mas não era isso o que eu queria lhes dizer.
- Então não diga, cavalo de teta! Ahahahahaha… Em uníssono a dupla despeja em meus ouvidos seus divertimentos e sai, de braços dados, para fumar.
TUDO É MUITO RELATIVO.
Que coisa, né, meus impressionadíssimos leitores? Mas façam como eu, apenas os observem e verão que, apesar de tudo, Geraldo e Ribamar não são tão extravagantes e nem tão diferentes dos muitos seres humanos que alimentam a hipocrisia, a inveja e a maledicência. Mas volto ao que eu queria lhes dizer. Existem apenas dois modos de viver a vida: um é como se nada fosse milagre; o outro é como se tudo fosse um milagre. Eu, como Albert Einstein, acredito que tudo é milagre. Sim, milagre. Nada mais do que um cínico e deslavado grande milagre. Dias desses, encontrei uma bela mulher, de origem ucraniana, na fila do ônibus que, segurando meu braço, me dizia, para todos ouvirem: “Um dos maiores milagres de Deus é permitir que pessoas comuns façam coisas incomuns.” E, não satisfeita: “Não devemos permitir que o relógio e o calendário nos ceguem para o fato de que cada momento da vida é um milagre e um mistério.” Pra ser sincero, nem sei como foi que começou a nossa conversa, mas toda aquela verdade enciclopédica, dita assim em via pública, me humilhou a tal ponto que tomei o ônibus errado e o certo dela, que permaneceu atada a mim por um de seus fortes tentáculos. “O senhor veja bem, se não usarmos o milagre que Deus nos deu hoje, ele se perderá – porque não pode ser guardado ou utilizado amanhã. Estar viva, ser capaz de ver, andar, ter casa, ouvir música, admirar pinturas, tudo é um milagre. Adotei a técnica de viver a vida milagre a milagre.” Falou com tão admirável tom que saí correndo do ônibus e quase fui atropelado por uma Kombi carregada de frutas e dirigida por um chinês que me fulminou: “Qué molê?”
“O senhor escapou por milagre!” Alguém gritou do outro lado da rua. Mais humilhado ainda, juntei o que sobrou de mim e, com passos galgos, saí dali o mais rápido que pude. Fui a pé, mas, a caminho de casa, não pude deixar de pensar na beleza que tem a fé, que nos leva a acreditar em milagres. Mas isso não tem importância.
SÓ NO NOSSO?
O que eu queria mesmo lhes dizer é que em países riquíssimos como Áustria, Dinamarca, Finlândia, Suíça, Holanda entre outros, vereadores, deputados e senadores ou não recebem nada para exercer o cargo ou recebem apenas uma pequena ajuda econômica para fazer frente às despesas inerentes ao cargo. São políticos que querem o melhor para o seu país e para a sua gente, governam para o bem de todos. “Mas deve haver corrupção também!”, diriam alguns mais apressados. Creio que sim, mas há uma distância enorme do que se faz em nosso país. Vejam vocês, o CSS vem aí para substituir o CPMF. O governo quer arrancar do nosso bolso até o que ele já não tem. E nós, milagrosamente, iremos pagar, é claro. Já são 74 tributos, mas para pagar os salários de nossos políticos e suas verbas de representação, gabinete, assessores e funcionários é preciso muito mais. Muito mais. Maracutaias, desvios, achaques, comissões, já fazem parte do contracheque até do vereador do bairro Puta Que Pariu, em Bela Vista, cidade do interior de Minas Gerais, mas não chega. Vejam vocês a que ponto chegamos, não podemos nem mandar essa canalhada pra PQP, porque vai todo mundo pra Minas. E Minas não há mais, diria Drummond. Mas isso não tem importância. Esses dias, um ex-vereador pedófilo foi preso por cometer vários crimes sexuais contra crianças. O meliante tem 56 anos e é aposentado pela câmara de vereadores de sua cidade com a bagatela de R$ 19.952,73 mensais. Transido de espanto, digo a vocês que os 73 centavos me humilharam mais que os 19.952. Mais, muito mais. Aqueles 73 centavos me jogaram na cara toda a falência do nosso sistema. Todo o dinheiro desviado da saúde, da educação, da infra-estrutura, estavam ali, diante dos meus olhos esbugalhados. Nada mais profano, criminoso, vil que aqueles 73 centavos. Toda a miséria brasileira exposta como uma fratura na imoralidade daqueles 73 centavos. Mas isso não tem importância.
SANTO DE CASA NÃO FAZ MILAGRE, SENHOR?
O que eu quero mesmo lhes dizer é que o campeonato paranaense vai que vai. Só não me perguntem para onde? As torcidas não estão nem aí e, também, não estão nos estádios. Onde estarão? A torcida que nunca abandona, foi uma grande ilusão alviverde. A verdade é que os coxas ainda não assimilaram a queda para a segundona. Mas 2010, o ano de seu centenário, tem sido generoso. Mais que isso, tem sido 100%. Jogou 7 vezes e papou as 7. Na quarta, o Operário. No sábado, o Irati. 1×0 e 3×1. Nas duas partidas, Edson Bastos e Marco Aurélio jogaram muito, muito mesmo. O goleirão pegou até pensamento, impressionante! O Marcos Aurélio estava devendo e pagou tudo, marcou 3 e ainda deu o passe para o Pereira marcar o seu. Outro que se destaca cada vez mais é o Leandro Donizete, joga demais. É onipresente, é o único no mundo que consegue estar em dois ou mais lugares ao mesmo tempo. Aonde a bola vai, ele vai atrás. No sábado, o Rafinha foi a nota destoante. Não se pode elogiar. Expulso na comemoração do terceiro gol, pode? Uma boa multa vai fazer ele pensar duas vezes antes de fazer caca.
O primeiro clássico da temporada, Paraná x Atlético, foi uma total decepção. Jogo caro, um futebolzinho pobrinho e sem nenhuma inspiração e público digno de um Trieste x Combate da Barreirinha e não do segundo maior clássico do Paraná. Melhor para o Atlético que ganhou 3 últimos jogos e assumiu definitivamente a segunda colocação. Se não jogou bem o clássico, pelo menos, voltou para a baixada com os 3 pontos no bolso, deixando a crise para o adversário. O Paraná, independente da fúria de sua torcida, vai precisar de vários milagres para levar este campeonato. Reza braba, despacho, patuás, ferraduras, não resolvem mais. Nem o pênalti na trave serve como desculpa para a derrota em casa. Mas isso não tem importância.
TREVISAN – UM VAMPIRO QUE VIVE MORCEGANDO LÁ EM CASA.
O que eu queria mesmo lhes dizer é que o Trevisan chegou à tardinha na quinta-feira e, babando secreção salivaria, despejou sua fúria dental sobre minhas broinhas de fubá mimoso e, no tremor parkinsonista de seu delirium tremens, mandou, lépido, garganta abaixo, um litro inteiro de licor de ovos, em rápidas e certeiras talagadas, só então descascou:
- Dalton, teu tio só não virou merda seca de micróbio porque foi atendido na hora. Foi um infarto fulminante, daqueles que normalmente o cara cai duro, seco, arreganhado e sem volta.
- Estou sabendo.
- O Torcedor vai ter que ficar 30 dias em repouso absoluto, visitas só na semana que vem.
- Bom, pelo menos, ele vai descansar na marra. Vai ser bom.
- É, proibiram televisão, rádio e jornal. É soro e sono. Falei com os médicos que o atenderam. O troço foi foda. O Torcedor ficou 48 horas discutindo filosofia, em altos brados, com o espelho. Me disseram que a questão principal era sobre a imagem que fazemos de nós mesmos.
- Ahahahahahahahahaha! Que loucura!
- Imagine o cara berrando pro espelho: “Quem você pensa que é, para me falar nesses modos?
- Ahahahahahahahahah!
- Daí, deu uma porrada no espelho e quebrou em mil pedaços. E quando viu sua imagem refletida neles, gritou: “Arrã, foi buscar ajuda, canalha?!” Foi nessa hora que teve o infarto.
- Bom… Ainda bem que o velho está bem. Vamos ao que interessa. Pegou a mensagem do Machado de Assis no terreiro do Pai Véio Chico Fantasma?
- Não deu. Tua mãe me trancou no quarto com uma chave de buça.
- Puta que pariu, você não cresce mesmo, né, Trevisan?
- É que você só faz pergunta idiota. Claro que peguei. Está aqui, ó! O Chico Fantasma disse que é para você abrir depois da meia-noite, à primeira lufada de vento.
- Sei não, Trevisan, mas às vezes acho que todo esse misticismo é uma grande…Sai e me deixa falando sozinho. O desgracido não diz nem tchau. Saio a passear pelo jardim e ponho-me a pensar. No céu, as primeiras estrelas tremelicam, pipocam aqui e ali inventando ritmos, para delírio dos meus olhos que nem piscam. É tão grande o universo e tão frágeis os signos, diante do mistério da vida, que percebo emocionado minha infinita miséria. A verdade, alma gêmea do belo, é enlevo, que se perde na treda ilusão da matéria. Ah! Os espíritos elevados, os santos, os poetas, os amantes do saber, artistas, estão aí espalhados pelos quatro cantos, se equilibrando, como os malabaristas se equilibram, no fino fio da esperança de que tudo um belo dia será bem melhor. Uma estrela cadente, riscando, avança e faz eu lembrar de uma canção do Belchior. Ninguém na Terra está tão só como eu agora. A abóboda celeste, de um azul profundo, já acendeu todas as suas luzes lá de fora e eu vejo então toda a beleza desse mundo. Meu olhar vai de constelação a constelação e de constelação em constelação vou, como vai a emoção, de coração a coração, perguntando de onde vim, onde estou, quem sou. Uma lágrima cai do meu rosto e orvalha uma pequena folha que, distraidamente, quase esmago. Mas meu peito todo se cala diante do milagre que está à minha frente. Pra que saber? Por quê? Os séculos futuros terão o mesmo véu de mistério, o mesmo enigma devorando o indecifrável medo do homem, que, por pura ambição, vive em apuros. A hipótese bestial do apocalipse é triste, transforma nosso destino e nos acomoda, não nos dando a opção de agir sobre o que existe e o meu vizinho fosse só alguém que incomoda. É o mundo dos solitários, dos lunáticos; estes vivem à parte, aqueles, a chorar por si mesmos. E eu vejo a dor desses fanáticos, como um aviso aos navegantes de outro mar, outra vida, onde o amor e a compaixão andam de mãos dadas, como eu e Zenóbia, minha doce esposa, há pouco andávamos. Sento-me na velha poltrona e me deixo levar pelas imagens amorosas de nossa vida juntos e o tempo segue, inexorável, o seu caminho. Mas, de repente, não mais que de repente, as doze badaladas soam e um leve vento desgrenha meus cabelos. Pego o envelope com a mensagem mediúnica de Machado de Assis e faço um sobrolho pensativo. Mas isso não tem importância.
Dizem as más línguas que o Roberto Prado não é bem certo.
O telefone toca às 4h37 da madruga. Como um gato pula, pulei da cama e atendi antes que Dona Zenóbia acordasse.
- Fala, Becão!
- Como você sabia que era eu?
- Sou um adivinhão.
- Compre um bilhete de loteria, então.
- Assim que você desligar o telefone, vou fazer isso.
- Que bom. Ainda bem que vocês não estavam dormindo.
- Imagine, Beco. Eu e Dona Zenóbia estamos ensaiando com a nossa banda punk. Tá a maior sonzeira aqui em casa. É só vizinho ligando pra polícia.
- Que bom! Não parem, não parem. A arte vem sempre em primeiro lugar.
- Mas o que é que manda, Beco?
- Os primeiros quarenta anos de vida nos dão o texto, os trinta
seguintes são só comentários. Certo, Dalton?
Sem saber para onde essa conversa me levaria, tento ser o mais equilibrado possível.
“Realmente, Beco. A reflexão é um dos dons divinos da alma humana e com a idade a gente vai aperfeiçoando esse dom.”
- Experiência não é o que acontece com você; mas, sim, o que você faz com o que lhe acontece. Não é mesmo?
Suando frio e com esgares tremelicando na face, sinto um peso comprimindo o estômago em demasia. Mas vou fundo: “Sim, na verdade a gente deve tirar sempre algo positivo de algo que nos aconteceu, mesmo que seja de uma desgraceira.”
- Lógico, com o rosto voltado para o sol, as sombras ficam para trás. Estou certíssimo, não acha?
Uma gota de suor frio escorre pela minha espinha me provocando arrepios. A boca seca, arenosa, parece não dominar mais a língua pátria. Mas arrisco: “ Benne, Breco, la vita erzum zamacofichez…”
Desliga e não me deseja nem bom dia. Mas aliviado, digo pra mim mesmo: “Isso não tem importância.”
“REAÇA! O NELSON RODRIGUES É UM REAÇA!”
( diminutivo de reacionário, nas décadas de 60 e 70)
Ontem choveu a noite toda e gosto do barulho e do cheiro da chuva. A chuva é mais um desses milagres da vida, e vida, vocês sabem, é essa coisa que acontece enquanto estamos preocupados com o nosso próprio umbigo, planejando coisas para viver melhor. Mas não era isso o que eu ia lhes dizer. O maestro Octávio Camargo me mandou um email cedinho, cujo teor reproduzo agora para vocês, meus curiosíossimos leitores: “Dalton, o Chaplin disse certa vez que o bom mesmo é ir à luta com determinação , abraçar a vida e viver com paixão, perder com classe e viver com ousadia, pois o triunfo pertence a quem se atreve. A vida é bela demais para ser insignificante. Isso pra mim, Dalton, diz tudo. É só a gente acreditar que os milagres vão pipocando à nossa frente.”
Fico tão feliz com a claridade do que leio que, mais uma vez, volto a pensar com os meus botões de futebol de mesa. Me vem à lembrança uma noite em São Paulo. Eu tinha ido assistir a um bate-papo com alunos da USP e o Nelson Rodrigues e acabei me perdendo e perdendo a hora. Quando cheguei, ele já encerrava sua palestra sob vaias e gritos de “reaça!, reaça!” de muitos presentes e aplausos de poucos. Lembro que me aproximei dele, segurei-o pelo braço e pouco minutos depois estávamos num táxi a caminho do Bar Brahma, que fica ali na esquina da Ipiranga com a avenida São João, desde 1945. Não. Minto. Desde 1948. Nelson estava furibundo e soltava fogo pelas ventas: “São idiotas, idiotas da objetividade e eu sou um ex-covarde, Dalton. Hoje, (era dia 18 de outubro de 1968, meus informadíssimos leitores) é muito difícil não ser canalha. Por toda parte, só vemos pulhas. E nem se diga que são pobres seres anônimos, obscuros, perdidos na massa. Não, não mesmo. Reitores, professores, sociólogos, intelectuais de todos os tipos, jovens e velhos, mocinhas e senhoras. E também os jornais e as revistas, o rádio e a TV. Quase tudo e quase todos exalam abjeção.”
- Você não está radicalizando demais, Nelson? Me encorajo a perguntar.
- Nem todos , claro. Há sempre uma meia dúzia que se salva e só Deus sabe como. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo. O que existe por trás de tamanha degradação é o medo. Por medo, os reitores, professores, intelectuais são montados pelos jovens. O medo começa nos lares, e dos lares passa para a igreja, e da igreja para as universidades, e destas paras as redações, e daí para o romance, para o teatro, para o cinema. Sim, os pais têm medo dos filhos; os mestres, dos alunos. E sobre esse medo, Dalton, cai todo o silêncio da nossa pusilaminidade. Repito, sou um ex-covarde. É maravilhoso poder dizer tudo. Para mim, é de um ridículo abjeto ter medo das Esquerdas, ou do Poder Jovem , ou do Poder Velho. Não trapaceio comigo, nem com os outros. Para ter coragem, precisei sofrer muito. Mas a tenho. E se há rapazes que, nas passeatas, carregam cartazes com a palavra “muerte”, já traindo a própria língua; e se outros seguem as instruções de Cuba; e se outros mais querem odiar, matar ou morrer em espanhol – posso chamá-los, sem nenhum medo, de “jovens canalhas.” Foi só então que eu entendi o que deve ter acontecido durante a sua palestra. Depois, Nelson falou pouco, muito pouco. Seus olhos estavam frios e distantes. Mas isso não tem importância.
O VERDADEIRO MILAGRE É JAMAIS PERDER A FÉ!
A memória faz milagres às vezes. Por exemplo, acaba de me ocorrer que hoje é dia mais importante de nossas vidas. Porque estamos vivos e não há nada mais precioso do que a vida. Ontem, após as doze badaladas e a forte lufada de vento, tomei nas mãos o envelope e abri. A pequena folha, através da sua textura magnífica, encheu de carinho as minhas mãos. A letra clássica, elegante e sem muitos adereços, ia direto ao assunto: “Dalton, daqui pra frente o fogo é irmão da dinamite!” E assinava “do amigo Machado de Assis.” Confesso, meus atentíssimos leitores, a clarividência oportuna dessa mensagem acabou com as minhas últimas ilusões. Tomei um choque de realidade. Nada nesta vida me acertou tão em cheio e de forma tão avassaladora. Instantaneamente me veio à lembrança os versos de Gonçalves Dias: “A vida é combate/ que aos fracos abate/ e aos bravos e aos fortes/ só faz exaltar.” Mas não era bem isso o que eu queria lhes dizer. A verdade é que mais uma semana se foi, e mais uma segunda-feira estou aqui com vocês, meus queridíssimos leitores, e este é o verdadeiro milagre.
Do resto, poupem-me, pelo amor de Deus!
Dalton Machado Rodrigues
daltonmrodrigues@gmail.com
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•01/02/2010 • 2 Comentários
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Bola Perdida
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” Época triste a nossa… mais fácil desintegrar um átomo do que o preconceito!”
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“Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos.”
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“Uma pessoa inteligente sempre estará em desvantagem se discutir com um bando de idiotas, eles se unem na ignorância e na hipocrisia.”
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Meus universalíssimos leitores, minha clara, sintética e figadal filosofia de vida foi, é e será sempre “tudo ao mesmo tempo agora já neste momento inclusive antes e depois!”. Ou seja: escreveu não leu é analfabeto. Ou ainda: creio piamente, na prática, na verdade da teoria da relatividade. Eu, vocês sabem, sou um tipo inútil e profundamente sobressaltado com a hipocrisia, o preconceito,a ignorância e a desfaçatez da maioria das pessoas que habitam este cisco de universo que é o planeta Terra. Explico. É tão mais fácil ser sincero e verdadeiro que, muita vez, me pego a pensar com meus botões de futebol de mesa sobre essa inversão de valores que campeia esse mundinho de Deus. Mas não vamos deixar que nada nos desanime, pois até um pé-na-bunda nos empurra pra frente. O que eu queria mesmo lhes dizer é que a gente pode descobrir mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira do que em um ano de muita conversa. O verdadeiro ser aparece rapidinho, pois brincando brincando, o monstrinho toma forma a olhos vistos. Isso porque a quantidade de preconceito que cada um de nós tem dentro de si é inversamente proporcional à de inteligência. E, sendo assim, podemos concluir que a ignorância não fica tão distante da verdade quanto ficam o preconceito e a hipocrisia. Mas, se já vivemos muitas dessas desilusões com esse tipo de gente, é sempre bom lembrar que pra frente tem mais. E não devemos nunca nos esquecer de que chorar sobre as desgraças passadas é a maneira mais eficiente de atrair outras. Mas isso não tem importância.
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OS FALACIANOS BAZOFIAM O TEMPO TODO, MAS, SEM ESTILO, ATÉ A TROÇA MAIS SIMPLÓRIA PERDE A GRAÇA.
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- Como assim? Como assim? Mas meu deus do céu, será que esse imundície não se flagra? Se não tem importância então pra que todo esse blá-blá-blá, ô esperma de satanás? Vai gastar essa conversa fiada com tua mãe, escriba do demo. Aqui ninguém te agüenta mais, vai pra puta que te pariu!
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- Já reparou, Geraldo, o velho louco está cada vez pior. Agora, começou com essa de moralismo pra cima de seus burríssimos leitores. Não consigo imaginar alguém perdendo tempo com essas asneiras…mas, enfim, tem louco pra tudo neste mundo. Por mim, eu dava um tiro na boca desse filho da puta.
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- Ahahahahaha…Riba, além de dar tiro, vamos ter que amarrar as mãos do idiota, pregar a língua, salgar e deixar no sol. Por que se não o cara é capaz de continuar atormentando a gente.
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- Ahahahahaha… O cara vivo já é uma alma penada, imagine morto. Ahahahah…o terninho, a gravatinha e o sapatinho finalmente iriam descansar em paz.
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- Ahahahahahah…. Ia mais gente ao enterro se despedir deles do que do Dalton. Ahahahaha…
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Abraçados, saem para fumar. Eu, meus confidentíssimos leitores, vocês sabem muito bem, não reajo como uma pessoa normal diante da bazófia, do chiste e da pilhéria. Creio mesmo que depois de ler o Saboro Nossuco passei a um outro patamar de entendimento e compreensão. Vejam bem, quem são afinal Geraldo e Ribamar? Pra começar, não lhes quero mal nem bem também. O Geraldo, vocês sabem melhor do que eu, é um ser essencialmente contraditório. Desde que cheguei aqui no jornal, ele está sentado à minha direita e tem sido capcioso até quando me cumprimenta. Sim, meus incredulíssimos leitores, até quando me cumprimenta. Nossa relação é puramente social, enfadonha, uma gastura só. E, como conseqüência da minha ausência em seu abraço, ele se amasiou com Ribamar e tem como ocupação principal, aqui na redação, espiar sobre meus ombros enquanto escrevo. Rouba-me idéias, copia minhas frases e usa-as com a maior naturalidade como se de sua lavra fosse. É um ser difuso, usa rabo de cavalo e tem já seus cinquenta e tantos anos, mas se veste como um jovem, vive na moda e isso faz dele apenas mais uma entre tantas marionetes que o sistema manipula. Mas disse amasiou e já não digo, porque o termo não corresponde à verdade. O correto é dizer que essas duas múmias se uniram contra mim, de corpo e alma, com dois abjetos intuitos: rir de minha pobre pessoa e invejar minha espartana capacidade de escrever. O Ribamar, já cansei de dizer aqui, não é um ser humano, é uma espinha. Mas não uma espinha adolescente, não. Não é uma espinhazinha classe média. Não mesmo. É um criadouro inesgotável de pus e sebo. São centenas e centenas de protuberâncias deformando, moldando, transformando, engordando, entortando, enfim, estigmatizando a sua cara, como uma caricatura maldosa. Ribamar, é o nosso office-old, está sentado à minha esquerda, desde o dilúvio e tem muitas ocupações. A principal delas é espremer a cara de sua espinha. Não, não escrevi errado, meus atenciosíssimos leitores. Na verdade, espremer a cara de sua espinha, é um eufemismo. Porque cara já não há. Minto e já me corrijo, às vezes, sou possuído por uma tenra ternura, quase infantil, quando vislumbro traços de seu antigo rosto. Mas, sendo sincero, não é o pus, o sebo, o sangue, que me dão nojo, quando ele começa a se espremer todo. Não, não são. É a baba, essa excreção viscosa, caprina, incrivelmente plástica, que escorre do queixo até a mesa e mela papéis, canetas, clips, para só então cair no abismo que se revela entre o tampo da mesa e o chão, para cumprir seu destino final no orbe oval, que me enoja. Sim, é essa baba. Mas isso não tem importância.
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DEVO NÃO NEGO, PAGO QUANDO PUDER.
MAS O QUE FAZER QUANDO NUNCA SE PODE?
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Não sei se já disse isso a vocês, mas se não disse, digo-o agora, sou um inadimplente até na hora de pagar pelos meus pecados. Minhas promessas devem estar todas protestados em algum cartório no céu. Sim, se Deus me apresentasse a conta, eu teria imensas dificuldades para zerar meu débito e, provavelmente, Ele me partiria dessa pra pior. E com um saldo muito mais negativo, é claro. Mas não pensem, por favor, que este é um fato recente ou que estou me fazendo de vítima. O que eu quero mesmo lhes dizer é que sofro as mais cavas e profundas humilhações desde que, aos 9 anos, comprei fiado o meu primeiro Sonho de Valsa no empório do seo Nicanor e não consegui pagar. Isso me marcou para sempre. Desde então sou um aleijado emocional e economicamente. Minto e já me corrijo. Eu não tinha 9, mas 6 anos e não era um Sonho de Valsa e, sim, uma mirabolante, invertebrada e auspiciosa Maria-Mole. E também não era nenhum empório, mas um simples e humilde armazém de bairro, cujo dono era o seo Boleslau. De lá pra cá, não pago integralmente nem flexões. Pois, como já lhes disse, o mês é grande demais para esse salariozinho de merda que me aguarda ao fim de cada 30 dias. Mas isso não tem importância.
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PÉ EM DEUS E FÉ NA TÁBUA?
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O que eu queria mesmo lhes dizer é que não sou nem um pouco modesto quando me refiro à minha extraordinária capacidade de escrever. “Nem tanto. Nem tanto.” Alguns mais apressadinhos já devem estar me contrariando em alto e bom tom e com razão. Muita vez me pego de ego inchado e sou acometido por eufóricos delírios. Mas me explico melhor e, espero, assim não daremos vez à maledicência e ao mal entendido. O certo é que saber escrever é saber pensar. E saber pensar é saber ler, estudar, ouvir, ver, comparar, analisar, enfim, ter consciência de que tudo está intimamente ligado e caminha para o mesmo fim. Isso é vida? Ler até o olho fazer bico e, cego, continuar às apalpadelas buscando sentidos que até o braile passa por cima? Querer tirar de cada palavra, vírgula, ponto, letra, a essência da beleza, espremendo, rasgando, dilacerando, moendo a própria carne? Ora, vamos e venhamos, isso não pode ser. Ou pode? Então isso não vai ficar assim. Ou vai? E vai que você começa e dá certo. Aí você vai querer me agradecer, mas eu não estou nem aí. Não quero chamar ninguém de burro, só porque o mundo está cheio de ignorantes. Mas isso não tem importância, meus sapientíssimos leitores.
O VAMPIRO É O INCRÍVEL CHUPA-CABRAS EM CARNE E OSSO.
O que eu queria mesmo lhes dizer é que o Trevisan chegou à noitinha lá em casa na terça-feira e, cão faminto, esparramou-se sobre a tigela de broinhas de fubá mimoso e, gambá sedento, mergulhou no litro de licor de ovos e, porco satisfeito, arrotou e, então, descascou:
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- Vai à puta que te pariu, Dalton. O Torcedor está louco. Cheguei ontem lá no hospital e, sem mais nem menos, ele voltou a falar.
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- O quê? O tio falou de novo? Mas desta vez com você…
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- Nada. Ele dialogou novamente consigo mesmo e na minha presença. Aliás nem sei se ele percebeu que eu estava lá.
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- Ahahahah… Essa é boa. Me conte os detalhes.
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- Bom, eu cheguei, cumprimentei e ele nada. Mas, súbito, ergueu-se da cama, foi até o espelho, esticou o braço como se fosse dar a mão a alguém e apresentou-se a si mesmo: – “Muito prazer, sou o Torcedor. Torço pelo futebol arte. Estou realmente encantado em conhecê-lo. Sinto que sua nobre presença alegra e beatifica este ambiente hostil onde estou reservado.” Imagine minha cara de espanto, Dalton.
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- Então o velho pirou de vez.
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- Você conhece teu tio melhor do que eu, mas a verdade é que fiquei ouvindo tudo aquilo durante 6 horas sem…
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- 6 horas?
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- E 42 minutos. Ele não parava nem para respirar. Parecia que estava tentando impressionar sua imagem no espelho.
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- Ahahahaha…
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- De repente, deu um grito: “Não me fale no Dunga!” E quedou mudo. Deitou na cama, cobriu a cabeça e, sob os cobertores, ainda disse com a voz cansada: -. ” E faça-me o favor de não aparecer nunca mais na minha frente!”
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- Que coisa! Você falou com o médico?
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- Falei, mas ele apenas me disse que é normal, pois também faz isso todos os dias desde que saiu do Bom Retiro, onde esteve internado.
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- Ah ótimo, ótimo. Mas mudando de assunto, pegou a mensagem do Machado de Assis no terreiro do Pai Véio Chico Fantasma?
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- Não. Eu estava trepando com tua mãe e no meio do rala-rala, chupa-chupa, tira-enfia- enfia-tira, ela disse que ia buscar pra mim. Porra, Dalton, você me conhece há quantos anos? E ainda faz esse tipo de pergunta? Está aqui, idiota. Mas lembre-se, o Véio disse que é para você abrir o envelope somente às 3h33 da madrugada, hora em que os demônios estão divididos ao meio.
- Porra, que conversa! Você não acha que todo esse misticismo é…
O Trevisan sai e não diz nem tchau. Me atraco com o resto das broinhas e dou umas belas talagadas no novo litro de licor, antes que Dona Zenóbia, minha doce esposa, o faça. A broinha e o licor me amolecem as pernas e me estendo largadamente sobre a rede. É tão bom olhar para o céu em noite de lua cheia… De repente a Lua é todos os pensamentos e todos os pensamentos têm luz, silêncio e gravidade. Lembro do Torcedor e rio de mim mesmo. Mas isso não tem importância.
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O NELSON RODRIGUES É UM ESPELHO.
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O que eu queria mesmo lhes dizer é que há muito tempo, acho que era 1972, isso 1972. Não, não era. Era 1970. Lembro-me bem, a noite estava calma, o ar, adocicado, e todas as flores do Rio de Janeiro cantavam “Primavera” junto com o Tim Maia. Eu e Nelson caminhávamos à procura de um bar em Copacabana. No caminho, ele vazado de luz como um santo de vitral, me dizia:
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- Dalton, posso não ter outras virtudes, e realmente não as tenho. Mas sei escutar. Direi com a maior e mais deslavada imodéstia, que sou um maravilhoso ouvinte. O homem precisa ouvir mais do que ver. Qualquer conversa me fascina e, repito, não há conversa intranscendente. E, se duas pessoas se falam, a minha vontade é parar e ficar escutando. Uma simples frase, ainda que pouco inteligente, tem sua melodia irresistível. Há uma semana, por exemplo. Eu ia passando e vi duas senhoras no ponto de ônibus. Conversavam. Estaquei e resolvi ouvi-las. Eram duas gordas e uma delas perguntava à outra: – “Sabe onde fica a Praça Serzedelo Correia?” A outra respondeu: – “É pertinho daqui. Ali.” E mostrava com o dedo: – “Está vendo? Ali.” A primeira olha e suspira: – “Então vou tomar o ônibus.” A distância que a separava da praça era uma quadra. Comecei a ver ali um mistério insuportável. Por que tomar um ônibus para ir de uma esquina à outra esquina? Foi mais ou menos o que disse a segunda senhora: – “Não precisa ônibus. Para que ônibus? Tão pertinho.” Novo suspiro da primeira: – “Estou tão machucada. Vou mesmo de ônibus.” Foi aí, e só aí, que eu e a outra percebemos a evidência total. Estava, sim, bem machucada. Na minha infância, dizia-se “amarrotada”. E ela estava amarrotada. O olho esquerdo, ou direito, tinha um halo negro, um halo que parecia feito de rolha queimada. Um das orelhas (não vi a outra) estava enorme como a de um boxeador. Enorme e vermelha ou roxa. A simples palavra repercutia, dolorosamente, lá por dentro. E, então, compadecida, a outra quis saber: – “Mas que foi isso? Desastre?” Parecia um bárbaro atropelamento. E havia, na conversa, um clima folhetinesco. Não perco uma palavra. Veio a resposta: – “Foi meu filho que me deu uma surra.” Dizia isso sem nenhum horror, em tom castamente informativo. Era como se não fosse ela a mãe, e fosse o filho da vizinha o espancador. A segunda senhora deixa passar um momento. Ainda espicha o pescoço para ver o ônibus. E pergunta, com relativo interesse: – “Bateu na senhora?” Geme: – “Bateu.” E havia no que uma perguntava, e a outra dizia, uma naturalidade hedionda. – “Bateu por quê?” Disse: – “Me pediu dinheiro. Eu não tinha. Já sabe . Meu filho tem um gênio que Deus te livre. Muito nervoso.” A segunda olha no fim da rua: – “E esse ônibus que não vem?” Espia o relógio e suspira: “Caso sério.” A primeira está dizendo: – “Quando respiro…” Respira fundo: – “Dói aqui.” E espeta o dedo: – “Bem aqui.” E, súbito, chega o ônibus. Uma subiu, fácil e lépida. Mas a mãe espancada foi uma dificuldade. Dizia baixinho, como se o motorista pudesse ouvi-la: – “Espera, espera.” O cobrador fica olhando e reclamando: – “Como é, minha tia?” Lá fui eu ajudá-la. Um outro apareceu. Foi empurrada, quase carregada. Gemia: “Ai, ai.” Finalmente, entrou. Arquejou para mim e para o outro: – “Deus te abençoe, Deus te abençoe!” O cobrador deu o sinal e o ônibus partiu. Começou, para ela, a longa viagem de uma esquina para outra esquina.”
Quando finalmente sentamos no Bar …( esqueci o nome), em Copacabana. Ah lembrei, Bar da Ponta. O Nelson, soltando fogo pelas ventas, me perguntou: – “Dalton, será que essa mãe não tem marido? Ou um outro filho? Ou vizinho? – Ela pode ser viúva, com um filho único. – Mas teria vizinhos. E, além disso, há a imprensa, o rádio, a televisão, o congresso, o senado, as forças armadas, etc…etc. Um filho espanca a mãe e fica por isso mesmo? Admito que não se faça nada. Mas o que não entendo é que ninguém se espanta. O brasileiro se espanta cada vez menos. A própria vítima não me pareceu espantada. Lembro-me de que ao contar a surra inflexionava como se tivesse pena, não ódio (ódio nenhum), pena do filho. Era uma espécie de ternura apiedada. Se a outra condenasse o rapaz, ela o teria defendido talvez. Talvez, não. Estou certo de que o teria defendido. E, se a apertassem muito, acabaria dando razão à surra. E iria para o espelho acusar a própria imagem: – “Bem feito, bem feito!” Essa mãe, Dalton, capaz de dar razão à surra, existe aos milhares, existe aos milhões, em todas as terras e em todos os idiomas. É o próprio mundo – não, não – , é a própria família que atira pela janela todos os seu valores.”
Nelson, respirou profundamente e espiou o fundo dos meus olhos e continuou:- “Dois dias depois, no mesmo ponto de ônibus, dou de cara com a gorda amarrotada, abraçada com o filho espancador. E sabe que ela estava feliz com aquele olho cor de gangrena?”
Rimos sem saber exatamente do quê. No entanto, a noitada foi admirável e bebemos até o sol sair e o bar se pôr. Mas isso não tem importância.
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UMA PORTA QUE NUNCA FECHA,
COMO SE ABRE?
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Ontem, às 4h45 o telefone toca e corro para atender, pois Dona Zenóbia já dormia, como um anjinho. E não gosto nem de pensar alto, para não acordá-la.
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- Alô?
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- Oi, Dalton! É o Beco.
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- Eu sei. Ninguém mais, neste ou no outro mundo, me ligaria neste horário.
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- Ah… que bom. Você já estava dormindo?
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- Imagine, de jeito nenhum. Dona Zenóbia está batendo o bumbo e eu, tocando tuba. Estamos ensaiando para tocar na Oktoberfest.
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- Parabéns. Espero que seja um sucesso. Vão se apresentar em mais algum lugar?
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- Sim, sim. No Circo Irmãos Queirolo, dia 30 de fevereiro.
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- Vou estar lá, vou estar lá!
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- Mas que que manda, Beco?
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- Dalton, nas pessoas de capacidade limitada, a modéstia não passa de mera honestidade, mas em quem possui grande talento, é hipocrisia. É ou não é?
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Tremo gelatinosamente e sinto um forte abalo dentro da alma. Muitas portas se abrem em meu cérebro. Mas arrisco:
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- Com certeza, Beco. Você foi na veia.
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- Então é por isso que é mais fácil separar a água do vinho do que a hipocrisia da verdade no julgamento das ações humanas?
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Suando frio, com uma cava inquietação no espírito e o coração batendo impiedosamente na goela, tento ser normal:
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- Onde realmente você quer chegar, Beco?
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- É que, às vezes, procura-se parecer melhor do que se é; outras vezes, pior. Hipocrisia é hipocrisia, assim como uma montanha é uma montanha desde o princípio dos tempos até o dia em que ela foi a Maomé. É ou não é?
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Com as entranhas queimando sob a ação de flamejantes ácidos encapsulados no meu estômago e a língua sofrendo arrancos fenomenais em outros dialetos, com a boca trêmula, escancaro:
- Benne, Bieco, mrzbruth capuxzeu azo ke… Desliga e não me deseja nem bom dia. Vou para a varanda e a lembrança das 3h33 da madrugada de anteontem me provoca um profundo arrepio. Abri o envelope na hora exata. Nem um segundo a mais, nem um segundo a menos. Retirei do envelope aveludado a folha branca como o pergaminho mais incorruptível. A sensação táctil ao tocá-la foi de total prazer, me pareceu estar tocando a pele rósea de um bebê sorridente. Mas foi ao lê-la que todo meu ser se crispou. E em letras magistralmente grafadas, ali estava a verdade, nada mais que a verdade: – ”Dalton, não levante a espada sobre a cabeça de quem te pediu perdão. Pense nisso com carinho. Assinado: Machado de Assis.” Confesso, meus superticiosíssimos leitores, que aquelas palavras, assim, jogadas na minha cara, quase me nocautearam. Não é todo dia que se lê uma verdade inapelável dessas, ainda mais quando ela vem de quem vem e, mais, quando vem do além. Mas isso não tem importância.
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FOI, É, SERÁ O QUE DEUS QUISER?
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O que eu queria mesmo lhes dizer é que o campeonato vai que vai. E o Coritiba foi à Vila Capanema duas vezes e trouxe 6 pontos para o Alto da Glória. Justo. O time, nos dois jogos, entrou em campo soltando fogo pelas ventas e fez o resultado praticamente nos primeiros tempos. Nos segundos, o Nei mexeu onde não devia e fez caca. Quase entrega a rapadura. O bom é que esse Rafinha joga muito e é o artilheiro do campeonato. O gol que marcou merece uma placa no Durival de Brito. O Marcos Paulo vem crescendo de produção. A zaga é ruim, bate cabeça e o Edson Bastos tem que se desdobrar para segurar a peteca. O Maringas está com calos nas mãos de tanto aplaudi-lo. Outro que me agrada é o Enrico, piá bom de bola e de visão. E como chuta! Dos laterais, só falo do Fabinho. Leva jeito, é arisco e agressivo. Lembra o nosso antigo Rafinha. No ataque de nervos, Ariel perdeu a cabeça com essa história de renovação de contrato. Se for pra acontecer o que aconteceu com Marcelinho Paraíba, melhor dispensar já. O Marcos Aurélio apesar do gol, está devendo. Muito individualista, não enxerga o óbvio e vai perdendo gols e perdendo bolas importantes. “A torcida que nunca abandona” não merece ser chamada assim. O time é líder, invicto e a torcida fica em casa assistindo Faustão. Deus me livre, crêndios padre!
O Atlético depois de sair mordido de Cascavel, com um extravagante 0X0 na bagagem, voltou a Baixada e fez o que quis com O Corinthians. O Alan mostrou o que é que o Bahia tem. Meteu dois, o primeiro um canhotaço lindo de ver. O goleiro corinthiano acha que foi um UFO que passou em sua vida. Mas verdade seja dita, se não fosse o Colombo, que nome hein?!, o Atlético tinha feito o mesmo que fez com Serrano domingo passado. O Delegado não sabe se prende ou se solta mais o time. O time alterna bons momentos com outros de pernapauzice pura. Mas os reforços estão entrando e o time deve ter uma sensível melhora. A torcida está desconfiada e apesar de ter a melhor média de público, não deixa de ser chocha. O Timãozinho que estava invicto, tomou de 2 mas saiu de quatro. Perdeu a invencibilidade e, de quebra, ficou 5 pontos atrás dos coxas. Bem feito.
´Nos jogos do Paraná entrou água. No primeiro contra o Irati, literalmente. O juiz, democraticamente, chamou os capitães, perguntou se eles aceitavam mudar o jogo para Pólo Aquático. Diante da recusa, dos enfaixados. O juiz mandou todo mundo tomar banho e não disse nem tchau. Hoje, jogo da TV, o Paraná pegou o Cianorte pela frente. Depois de um começo fulgurante, o Paraná perdeu-se e o Cianorte achou-se. Puta pressão com várias chances de gol. A que o Tico Mineiro perdeu até o Papa fazia. Mas é aquela coisa, quem não faz toma. E o Pará, grande nome do jogo, apesar de entrar nos últimos minutos, acertou um petardo. O goleiro nem pôs a mão porque sabia que a bola lhe arrancaria o braço. Um golaço. E já nos acréscimos. Mas alegria de pobre dura pouco e, de pênalti, aos 49, o Cianorte chega ao empate, gol de Tico Mineiro que bateu mal, mas levou sorte, pondo água no chopp do Paraná. Mas isso não tem importância.
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PRETO NO BRANCO.
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Mais uma semana se foi. E quanta coisa pode acontecer em 7 dias, meus semanalísticos leitores. Às vezes, os dias são mais rápidos que a conta de luz; em outras, parecem se arrastar interminavelmente. O que fazer? É a vida. E não tem outra. A verdade está aí, na nossa cara. Aquele que não a conhece não passa de um ignorante, mas aquele que a conhece e a ignora, este é o mais criminoso dos pecadores. Vamos abaixar as espadas e perdoar mais, afinal, a vida é de morte mesmo. E ninguém vai ficar pra semente. Pensem nisso, com carinho. E, se puderem, poupem-me, que de mim e do eu só me resta a dor e a delícia de ser o que sou: um escriba profundamente apaixonado por qualquer tipo de manifestação de vida. Até.
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Dalton Machado Rodrigues
•27/01/2010 • 2 Comentários
•27/01/2010 • Deixe um comentário
•27/01/2010 • Deixe um comentário
•25/01/2010 • 7 Comentários
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Bola Perdida
“A televisão é maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.”
Meus especialíssimos leitores, a vida é tão retumbante que, muita vez, sinto vontade de sair por aí tocando bumbo, só para não tocar o foda-se. Explico melhor. A realidade não é só aparência. Esta, vocês sabem, engana. E ilude. Nem lembro porque estou falando isso… Ah, lembrei. Não sei se já disse a vocês que a universidade é o local onde a ignorância é elevada a sua máxima potência e levada as suas últimas conseqüências. Bem, se não disse, está dito. E já completo. O que eu quero mesmo lhes dizer é que, atualmente, espalham-se, como vírus em computador, as faculdades por ensino à distância, via televisão ou internet. Ou seja: o que já era ruim virou o mais cínico e deslavado engodo educacional. Um crime. Uma farsa. Onde o aluno finge que aprende e o professor faz de conta que ensina. E ambos se locupletam, um pela aparência e outro pela grana. Mas isso não tem importância.
OS FALACIANOS NÃO SABEM QUE A BAZÓFIA
É UM ESTADO DE ESPÍRITO DE PORCO.
- Quanta merda, quanto disparate, quanto desvario, quanto desatino! Ó escriba farisaico, quantos “quantos” ainda haveremos de proferir até que em sua cabecinha entre a verdade, final e absoluta, que você é, apenas e simplesmente, um redator de uma coluna cujo assunto foi, é e será para sempre o futebol? Será, minha mula burra, que você não percebe que não dá pra continuar enganando seus equivocadíssimos leitores? Toda coluna é aquele mesmo blá-blá-blá: “mas isso não tem importância” “mas o que eu quero mesmo lhes dizer”. Uma pobreza de estilo sem precedentes na história universal. Você, Dalton, é pobre de dar dó. Pobre de espírito, pobre de idéias, pobre coitado. Olhe pra você, escriba do satanás, olhe pra esse terno ensebado, olhe pra essa gravata puída, olhe pra esse colarinho encardido, olhe pra esses sapatos caindo aos pedaços… E você aí, com essa pose de santo barroco franciscano. Vai cagar no mato, vai, ô mosca de cavalo!
- Essa eu gostei, Geraldo! Ahahahaha… A gente tá ficando fera em xingar esse porco lazarento. Qualquer dia você mata o cara com um desses discursos. Ahahahaha…
- Mas a intenção é essa mesma, Ribamar. Quero ver esse idiota letrado estrebuchar na minha frente. Ahahahahaha…
- A gente podia era esfaquear o cérebro desse cancro sifilítico.
- Tá louco, Riba! Ia vazar tanta merda, mas tanta merda…
- Ihhh… nem fale. Ahahahaha… Já tô sentindo a catinga.
- É a modorra do terninho, da camisinha, da gravatinha e dos sapatinhos que já estão em adiantado estado de putrefação… Ahahahahahaha….
- Ahahahahahaha… Vamos fumar e respirar ar puro, que aqui tá foda o troço.
Os dois, de braços dados, rindo de minha cara, saem para fumar. Confesso, meus solidaríssimos leitores, não sei o que fiz para merecer toda essa pusilaminidade. Mas, como já lhes disse, não os odeio e nem lhes tenho amor também. O Geraldo, vocês sabem, fornica com a própria alma. É um atentado permanente contra si mesmo. A manutenção de sua integridade física é um desses fenômenos paranormais que, de tão inexplicáveis, melhor nem comentar. Ele está à minha direita e sua maior obstinação é se apoderar de minhas rocambolescas frases e tiradas. Aliás, acho que toda a sua vida é um plágio, um grande, cínico e deslavado plágio. Mas isso não tem importância. O que eu quero mesmo lhes dizer é que o caso do Ribamar é bem mais sério do que pensei há 10 anos, quando ele foi contratado. Na verdade, tudo começou há 8 anos, quando observei os primeiros pêlos crescendo em suas mãos. Em seguida, mês a mês, espinhas em uma quantidade incalculável foram aparecendo na mesma medida que o seu rosto naufragava em meio a esse turbilhão inquestionável de pus e sebo. Hoje em dia, confesso, me dá uma alegria enorme, vez em quando, vislumbrar o seu rosto em meio a essa massa disforme e decrépita que habita o seu semblante. O Ribamar, não sei se já lhes contei, há dois meses completou 22 anos. E é apontado pelo Guiness como o mais velho office boy do planeta. É nosso office old. Esses dias, o nosso diretor, o Dr. Horácio Penaleve, deu-lhe uma placa por seus 10 anos de leva e traz e, em discurso inflamado, disse, em alto e bom tom, que contava com ele por mais 10 anos nesta função e foi aplaudido de pé por toda a redação. Mas isso não tem importância.
SE O OLHO É A JANELA DA ALMA,
A BOCA É A PORTA DO CORAÇÃO.
O que eu queria mesmo lhes dizer é que todo esse chiste, essa pilhéria, essa bazófia, não me perturbam o espírito. Sim, eu sei, sofro as mais cavas humilhações por ser pobre e, principalmente, por não ver a menor possibilidade de reverter essa condição de inadimplente até na hora de pagar promessas. Não sei se já lhes contei que sou perseguido por cobradores desde os 7 anos, quando comprei fiado meu primeiro sonho de nata na bodega do seu Nicanor. Sim, desde os 7 anos sofro as mais cavas e profundas humilhações… Minto e já me corrijo. Não foi aos sete anos e, sim, aos seis. E também não era um sonho e, sim, uma malemolente e sensual maria-mole. Assim como também não era a bodega do seu Nicanor, mas o insubstituível armazém do seu Boleslau. De lá para cá, não fosse a graninha do trabalho, como diarista, de Dona Zenóbia, minha doce esposa, provavelmente, eu estaria soterrado por uma avalanche de notas promissórias e cheques pré-datados. Mas não é isso o que eu queria lhes dizer e, sim, que a justiça brasileira é muito eficiente em dois momentos: na hora de chutar o cu dos pobres, mandando-os para a prisão, e no momento de absolver os ricos. Qualquer milionariozinho de bosta é capaz de, com alguns milhares de dólares, comprar as mais excêntricas sentenças, criando jurisprudências inomináveis. Eu, assim como vocês, meus injustiçadíssimos leitores, não quero ser dono da verdade e, sim, sócio, mas não uma sociedade anônima. E também não quero uma cota pequena, não. Quero, no mínimo, continuar a gerenciar minha loucura, orgulhosamente. A humildade, vocês estão carecas de saber, é tão efêmera e estranha que, no momento em que achamos que a temos, já, a perdemos. Muita vez, para sempre. Se bem que só o certo é para sempre. E o certo está escrito, com todas as provas, nos olhos e na voz daqueles amam de verdade. Mas isso não tem importância.
O VAMPIRO CHUPACABROU A LÓGICA.
O Trevisan chegou à noitinha lá em casa e, esganado, foi logo pulando sobre a travessa de broinhas de fubá mimoso e, voluptuoso, entornou o litro de licor de ovos. Fico assistindo, em silêncio, durante 20 minutos, dentes despedaçando broinhas e farelos espalhados por toda a varanda ou empurrados goela a dentro por sonoras talagadas. De bucho cheio até o gorgomilo, Trevisan descasca:
- Fui ao hospital hoje.
- Eu fui ontem.
- Então diga pra mim, primeiro, o que aconteceu.
- Nada. Cheguei lá e ele estava com a cabeça coberta. Falei, falei e ele não fez nem um muxoxo. Depois de duas horas, desisti.
- Comigo foi diferente. Escute só. Cheguei no hospital, entrei no quarto sem bater e dei de cara como uma cena que você não vai acreditar.
- Eu acredito até na minha sogra.
- Então, saca. Entro e a Gertrudes, aquela enfermeira boazuda, estava fazendo uma chupeta no Torcedor.
- Ahahahahahaha… Não acredito nisso!
- Bote fé. Quando os dois se dão conta, eu já estou no meio do quarto.
- Puta que o pariu. E daí?
- E daí, cara, ficamos os três se olhando, completamente imóveis, durante uma eternidade e meia. Entendi toda a teoria da relatividade neste lapso de tempo.
- O fato, Trevisan, por favor, só o fato.
- O fato é que o Torcedor levantou e, na maior cara de pau, falou: – “Bem, vamos dar uma mijadinha.” E foi para o banheiro. A Gertrudes, que estava com os peitões de fora, desfilou-os diante de minha boca sedenta, arrumou-os no sutiã e saiu, depressinha, se oferecendo toda.
- Ok. Mas o tio Torcedor?
- Voltou uns 10 minutos depois e disse que tinha passado a mão na cara.
- Como assim?
- Punheta, Dalton! Tocou uma bronha. Descabelou o palhaço. Como você é burro!
- Burro é você, animal. Se ele não estava falando, como você me explica?
- Então escute. Ele falou durante mais de três horas. Só que, na verdade, ele não falava comigo, pois não importava o que eu dissesse, ele continuava a falar consigo mesmo sobre a sua dupla personalidade. Súbito, mais sério que padre quando casa, levantou-se, foi até o espelho, cumprimentou-se e disse, afetuosamente: – “Até mais, meu velho! Foi um grande prazer dividir este espaço e esta prosa com tão magnânimo e beatífico ser. Sinto que seremos amigos para sempre.”
Falou, deitou na cama, cobriu a cabeça e desembestou a roncar, quase instantaneamente.
- Que loucura! Futebol, que é bom, nada?
- Nem uma sílaba.
- Estranho. Muito estranho. Mas vamos falar de coisas mais normais. Pegou a mensagem do Machado de Assis no terreiro do Pai Véio Chico Fantasma?
- Não deu. Eu bem que queria ir, mas tua mãe ameaçou morder meu bigolingo, caso eu tirasse de sua boca.
- Vai tomar bem no meio do olho do seu cu. Pegou ou não pegou?
- Claro, né, estúpido. Tá aqui, ó. O Véio disse que é pra você abrir, logo após a meia-noite, assim que piar a coruja. Fez sérias recomendações, disse que com o Além não se brinca.
- Sabe, Trevisan, eu acho que o Pai Véio.. . O desgracido sai e não diz nem tchau, deixando um silêncio ensurdecedor à minha volta. Fico a pensar com meus botões de futebol de mesa e, pensando, meus olhos se voltam para cima. O céu agora é de um azul profundo e imenso. Meteoros kamikazes passam e deixam em luz sua última mensagem. Tudo é tão infinitamente pequeno, vago, etéreo. Deixo minha mente vagar, e de vagar em vagar, devagar e sempre vou me misturando com as estrelas, quasares, pulsares e sinto o universo inteiro pulsar em meu pulso. E sinto tanto que nesse enlevo, como por encanto, de quando em quando, astros me pisam, distraídos. Mas, de repente, não mais do que de repente, soa a primeira das doze badaladas que vão acabar o dia e começar um outro. Abro os ouvidos e perscruto as redondezas. Foi-se a segunda, a terceira… as doze badaladas soam uma após outra, até o silêncio gritar madrugada a dentro. Pego o envelope nas mãos e, trêmulo, espero piar a autorização. A noite é enorme e densa e, no peito, meu coração é um potro xucro escoiceando a jaula.
Mas isso não tem importância.
O ROBERTO PRADO É UMA BESTA!
O que eu queria mesmo lhes dizer é que o Beco me ligou ontem às 4h47 da madruga e, na pressa de atender, quase esparramo pelo chão a Dona Zenóbia que, como eu, dormia profundamente.
- Alô, Roberto?
- Como você adivinhou que era eu?
- Palpite.
- Então jogue na loteria que você ganha.
- Menos, Beco. É que havia uma chance em 6 bilhões de que fosse outra pessoa.
- Ainda bem que você não estava dormindo.
- Imagine! Eu e Dona Zenóbia estamos dançando uma polca punk no último volume. Até tem uns caras com umas tochas acesas aí na frente de casa. É agora que o troço vai começar a esquentar.
- Ah que bom. Eu fico feliz por vocês. Mas me diga uma coisa, Dalton. Não é verdade que só os idiotas não se contradizem?
Quase caio duro, seco e arreganhado, mas com um esgar e a voz amarfanhada, arrisco:
- Sem dúvida, Beco.
- O povo é um débil mental. Digo isso sem nenhuma crueldade. Foi sempre assim e assim será, eternamente.
Fulminado e sofrendo arrancos fenomenais que mais parecem convulsões da alma, amenizo:
- Verdade, Beco, a grande maioria vive de certezas absolutamente incríveis, com base no comprar e no imitar. A materialidade do mundo se incorporou na humanidade de tal maneira que engessou a alma do povo diante de um aparelho de TV.
- O diabo pode até citar as Escrituras e pregar os 10 mandamentos quando isso lhe convém, não é verdade?
Engulo em seco 3 ou 4 recôncavos baianos, mas suando frio e com a língua quase presa, resmungo:
- Prode terr celteza, Beeco. Mmas bocê não acha que… A besta desliga, me deixa falando sozinho com meus botões e não me deseja nem bom-dia. Mas isso não tem importância.
UMA FLOR DE OBSESSÃO.
O que eu queria mesmo lhes dizer é que adoro ver o sol nascer. E começar bem o dia. Nada como um café bem quente e um cigarrinho logo depois para retemperar o espírito. É nesses momentos que deixo a imaginação voar e ir ao encontro de tudo que me faz feliz. Não sei bem o motivo, mas me ocorreu agora que, em 1978, minto, 1976, em uma noite de setembro – sim, o cheiro das flores no ar era todo primavera – eu e Nelson Rodrigues caminhávamos sem destino à beira da praia de Copacabana. A noite morna e a brisa fresca faziam uma combinação tão perfeita que milhares de pessoas, por toda orla, se sentiram convidados a sair de casa e passear. As ondas empurradas pela preguiça do vento chegavam à praia quase desmaiadas, quase sem espuma, quase sem som. Apenas conversas aqui e ali, risadas acolá, se espalhavam alegres pelo ar e nos davam a sensação de que o mundo é bom e viver a vida vale à pena. Nelson, a certa altura, tocou em meu ombro e, com o queixo, indicou-me a mesa vazia na calçada. Não lembro mais o nome do bar… Ah…lembrei! Bar da Ponta, isso mesmo, Bar da Ponta. Sentamos e um desfile interminável de belas garotas encheu nossos olhos. Vejam bem, meus voyeuríssimos leitores, uma mini-saia é o mesmo que uma cerca de arame farpado, pois cerca a propriedade, mas não tapa a visão. Mas isso não tem importância. O que vale é que eu e Nelson estávamos que estávamos. Ríamos de tudo e pra todos. Mas sem mais nem menos, súbito, Nelson fica taciturno e com os olhos turvados, desembesta:
- Há alguns dias, um amigo me parou na rua e, mais efusivo que capacho de patrão, entregou-me um exemplar de uma revista: -“Toma isso aqui e lê. É o Brasil.” Tentei dizer alguma coisa, mas, célere, ele já partia. Olho a revista e tomo um susto. Lá estava escrito Meu Bebê. Não entendi nada. Pensei: -“Que piada é essa?” Na capa, estava uma cara, em cores, de um bebê lindo. E eu continuava a não perceber que relação podia eu ter com uma revista chamada Meu Bebê. Fosse como fosse, levei aquilo pra casa. E, depois do jantar, fui apanhar a revista. Comecei com uma curiosidade muito rala e fui tomado, em seguida, de um interesse total. Sempre digo que a leitura é a arte da releitura. Depois de ler, fui reler. E o meu espanto era cada vez mais profundo. Antes, porém, de falar de Meu Bebê, Dalton, quero dizer duas palavras. Há pouco tempo, um colégio grã-finíssimo, de São Paulo, convocou os pais. Quase me esquecia de especificar que era um colégio dessas freiras “pra frente”. Simplesmente, a Madre queria comunicar que a Educação Sexual, naquele educandário, ia começar no jardim-de-infância. E dizia a religiosa: -“O sexo não tem mistério nenhum. Nenhum, nenhum.” E, portanto, meninos e meninas a partir de quatro anos iam ser esclarecidos sobre a atividade sexual. Não houve espanto, absolutamente. Os pais e mães ali presentes eram espíritos altamente compreensivos. A única dúvida era a seguinte: – como meninos e meninas, que não sabiam ler, nem escrever, nem assimilar, poderiam entender as aulas? E, então, risonhamente, a Madre explicou: – “Vão aprender com figurinhas.” Os presentes se entreolharam, maravilhados. Um senhor disse e repetiu: -“Interessante, muito interessante!” E, súbito, uma senhora ergueu-se. De pé, batia palmas. Logo outros, também de pé, aplaudiam, em delírio. A ninguém ocorreu que os garotinhos e garotinhas iam aprender com figurinhas o que a Polícia toma de certos jornaleiros e ainda os processa. Estavam ali pais, avós, tias, etc., etc. E todos ovacionando como na ópera. A Madre teve um sucesso de final de ato. Só faltou receber corbeilles, etc., etc. Umas das raras colunas da imprensa brasileira e internacional que ainda se espantam é a minha, Dalton. Todas as outras são divinamente compreensivas. Mas como ia dizendo, minha coluna pôs a boca no mundo. Não sei se você se lembra do que escrevi, mas eu lhe conto tudo. Dar “Educação Sexual” a menininhas de 4 anos já me parecia um escândalo. E, ainda mais, com figurinhas obscenas, dessas que alguns jornaleiros vendem, às escondidas, aos sátiros gagás. Disse eu, na ocasião, que a “Educação Sexual” é uma das mais deslavadas e cínicas imposturas do nosso tempo. Afirma o Raul Brandão, pintor de igrejas e de grã-finas: -“Sexo, e apenas sexo, é coisa para bezerros, bodes, preás e jumentos”. No homem, sexo é amor. Portanto, só se entenderia, não uma “Educação Sexual”, mas uma educação para o amor, etc., etc. Mas lendo Meu Bebê, verifico como foi ingênuo meu espanto. Afinal, o tal colégio grã-fino de São Paulo, embora usando figurinhas obscenas, lidava com meninos e meninas de 4 anos. Já a revista que ganhei de presente voa mais alto. Meu Bebê, como próprio título diz, trata de bebês. Você já imaginou, Dalton, a Educação Sexual começando no berçário? Visualize a cena – a criança que não provou ainda sua primeira chupeta aprendendo coisas que até a Paulina Bonaparte ignorava. Se a Messalina, aos 70 anos, lesse essa revista de bebês, havia de fazer esta autocrítica sucinta e lapidar: – “Eu sou uma analfabeta. Uma analfabeta sexual.”
Rimos de esticar as bochechas, logo depois nos despedíamos. Um abraço cheio de braços, forte, afetuoso e, sob a luz das estrelas, caminhamos um para cada lado. Mas isso não tem importância.
TORCER É UMA ARTE NOBRE,
NÃO UMA ARTE MARCIAL.
O que eu queria mesmo lhes dizer é que o campeonato paranaense vai que é um upa. Ontem, o Coritiba foi a Paranavaí e o Beltrão também. O motivo do encontro era um jogo de futebol, se não estou equivocado. Não estou. Foi 5×2 para os coxas, que honraram as calças que vestem. E o Beltrão voltou com as calças arriadas. Mas vamos ao jogo. Depois de um surto de personalidade, o Marcos Paulo, possesso como um Kaká dos melhores dias, sai driblando todo mundo e próximo a meia-lua dá um cacete na bola, mas um cacete, que não sobra a ela nenhuma alternativa além de entrar e confirmar o golaço do jovem volante. Tudo normal, coxa em vantagem. Mas caca é como craca em navio, como pega. Depois de perder um caminhão de gols, o alviverde se perdeu e o Beltrão, na base de botinadas, cartões amarelos e também graças às chuteiras número 46 do Ariel, de pênalti, empatou. 1×1, fim do primeiro tempo. Nem bem começou o segundo tempo, Jeci põe a cabeça no lugar e marca 2×1, ê festa. O gol do 3×1 poderia ter saído em seguida, mas o Renatinho ficou com pena do goleiro e humildemente chutou pra fora. Um amor de pessoa esse rapazinho, quanta bondade! Mas no minuto seguinte Enrico recebeu um bolão de Ariel, estufou a veia do pescoço e encheu o pé na coitada da bola, que novamente nada pode fazer além de ir até as redes de Gean. Jogo ganho? Uma ova! Aos 11, o Maringas quase teve uma síncope por causa do Alisson que entrou como quis no meio da zaga do verdão e, de cabeça, aos 11 minutos, puf 3×2. Daí entrou o Fabinho, cujo primeiro toque na bola, foi um cruzamento perfeito para Ariel, que de cabeça cumprimentou a bola com toda a classe de um verdadeiro cavalheiro. 4×2 e não se fala mais nisso, porque logo depois Rafinha recebe um passe mediúnico do Ariel e, parecia possuído o menino, desloca o goleiro e encerra o jogo 5×2. Coritiba 100%.
O Atlético no sábado não tinha o que fazer e foi até a Baixada, (no estádio Jofre Cabral, seus ingratos). Chegou lá, deu uma olhada, marcou 8 e foi embora. Os torcedores comemoraram até o sexto gol, aí bateu o tédio e saíram pra tomar umas cervejinhas e fumar no boteco da frente, que ninguém é de ferro. O Paraná fez 2×1 no ACP. Ganhou, mas ganhou com as calças na mão. O ACP fez um jogo equilibrado do começo ao fim e qualquer resultado seria justo. E justo o Paraná ganhou.
Assim caminha o campeonato. Vamos ver daqui pra frente. Os jogadores e os times ainda estão na fase do “muito prazer”. Devagar vão se conhecendo e se acertando. Mas a verdade, meus esclarecidíssimos leitores, é que qualquer partida no começo, no meio ou no final vale 3 pontos e a super vantagem do campeão desta fase é quase indemolível. As torcidas, pelo menos é o que parece, aprenderam a se divertir, isso é bom. A que nunca abandona já deveria estar de volta. Mas isso não tem importância.
DONA ZENÓBIA É UMA SANTA!
UMA SANTA!
O que eu queria mesmo lhes dizer é que Dona Zenóbia e eu não gostamos de televisão. Raramente, a ligamos para ver um noticiário ou um jogo de futebol. Gostamos muito é de ler e quase não nos sobra tempo para mais nada. Dona Zenóbia é de um ânimo realmente incrível, pois, apesar de trabalhar duramente o dia inteiro, após o jantar, ainda tem forças para sentar-se ao meu lado na varanda e ler um bom livro até chegar o sono. Faz isso sempre. E comentamos e lemos juntos alguns trechos. E, confesso, isso dá um toque todo especial para o nosso relacionamento. Às vezes me entristeço, por não ter podido custear seus estudos de Direito. Ela, com certeza, seria uma juíza (esse era o seu sonho) brilhante e, ponho minha mão no fogo, saberia fazer justiça. Seria incorruptível como o mais puro pergaminho. Mas isso não tem importância.
O que não posso deixar de lhes dizer é que anteontem, quando a coruja piou, abri o envelope que o Pai Véio Chico Fantasma me enviou, através do Trevisan. Ao retirar a mensagem de dentro do envelope, senti nas mãos a leve textura do papel e essa agradável sensação táctil contagiou-me todo o espírito. No papel branco e liso, a letra de Machado de Assis, simples e elegante, deu à mensagem a diagramação de um mestre na arte. Com toda a alma concentrada, leio: “Dalton, a primeira condição imposta a quem escreve é não aborrecer quem vai ler. Pense nisso com carinho. Assinado Machado de Assis.” Confesso a vocês, meus oportuníssimos leitores, a mensagem atingiu-me em cheio. E, na minha dispnéia emocional, já estou dizendo pra mim mesmo: -“Você abusa. Você abusa.” No mesmo instante desfilam diante de mim minhas metáforas, meu doce estilo novo, meus textos. E perguntei-me: -“Quem é o Dalton? Quem é o Machado? Quem é o Rodrigues?” Geralmente cada qual é um só. Cristo foi Cristo, exclusivamente Cristo e tão somente Cristo, do berço ao túmulo e dali para o Céu. E assim Nero, Maomé, Augusto dos Anjos, Leminski, Marcos Prado ou Guimarães Rosa. Mas no meu caso, será que eu sou eu mesmo? E se eu não for, o que será de mim? Escrever-se. Escrever a si mesmo. Qual será meu texto, afinal? Minha vida? Respondam-me ou calem-se para sempre, meus participativíssimos leitores. O certo é que mais uma semana se foi e janeiro está com os dias contados. O mês de Momo, pulando vem aí e já sinto vontades de estender a rede e separar alguns livros para ler. Mas isso não tem importância. Por enquanto, poupem-me, porque de mim cuida, e muito bem, a Dona Zenóbia, minha doce e deliciosa esposa. Mas isso não é da conta de vocês.
Dalton Machado Rodrigues
daltonmrodrigues@gmail.com
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•22/01/2010 • Deixe um comentário
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Quando eu penso no Haiti
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Quando eu penso no Haiti
Despencam casas morro acima
Como se ali fosse Hiroshima
Ou alguma coisa que eu já vi
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Quando eu penso no Haiti
A Terra treme de susto
Tirando o sono do justo
E do não, enterrados ali
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Quando eu penso no Haiti
Vem a imagem da serra pelada
A mata toda escalpelada
Toneladas de carvão a jour d’oui
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Quando eu penso no Haiti
Eu troco os pés pelas mãos
Onde estarão meus irmãos
Que eu jamais reconheci?
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Quando eu penso no Haiti
As bocas estão comendo dentes
E os demônios com seus tridentes
Gritam: “O inferno é aqui.”
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Quando eu penso no Haiti
Zilda Arns está entre os escombros
Com o peso do mundo nos ombros
Atlas da dor que nunca senti
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Antonio Thadeu Wojciechowski
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•21/01/2010 • 2 Comentários
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vote em mim!
Está muito boa a disputa para ver quem levará o título de melhor compositor de 2009. França, Leprevost, Carlos Careqa, Tatára, Sandman e eu estamos na parada.
Se quiser votar, em qualquer um dos concorrentes,
clic aqui.
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•20/01/2010 • 1 Comentário.
um ateu não atua à toa
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para Sérgio Viralobos
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esse deus único da bíblia,
soltando fogo pelas ventas,
acelera em marcha lenta
e baba ódio em cada sílaba
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reafirma que é um em três
que criou tudo em seis dias:
sambinhas, valsas, sinfonias,
ludo, canastra, truco, xadrez
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a porca e também a arruela
por ser todo em cada parte
diz que vive fazendo arte
e mostra a porta pela janela
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distorce o espaço e o tempo
lança galáxias sobre galáxias
e lá se vão mil vias lácteas
no piscar cego do momento
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não distingue a raça humana
do ácaro, da abelha ou baleia
pinta e borda na santa ceia
dá pra todo mundo uma banana
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tem a eternidade pela frente
e seu destino lhe é ignorado
sem presente, futuro, passado
amor e ódio na mesma semente
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que figura mais arrepiante,
credo em cruz, crêndios padre!
milagres do vinho pro vinagre?
serei mais ateu daqui por diante
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de dízimo não pago um centavo
a beleza alma gêmea da verdade
faz com que eu tenha a bondade
e, sendo bom, vou bem, obrigado!
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Comedor de Ranho
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•19/01/2010 • Deixe um comentário
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o eterno
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Apesar de fora de moda, o eterno nunca morre. E se manifesta através das pedreiras que, volta e meia, aparecem no meio do nosso caminho. São os São Franciscos, Leminskis, Van Goghs, Garrinchas, que vêm do Além pra nos revelar felizes perfis inéditos, que esquecemos, mas existem, ocultas dentro das coisas mais comuns dessa vida. E, assim, mesmo sem merecimento, somos regularmente abastecidos com bocados generosos da velha e boa eternidade. Hoje, pra facilidade geral do mundão, existem os disk-eternidade, onde, a R$ 4,95 o minuto, você garante uma eternidadezinha tranqüila em até 6 vezes pelo cartão. Mas o preço mais alto do mercado da eternidade é alcançado pelo amor. E o sonhado “amor eterno” não tem nada a ver com a tradicional blasfêmia “até que a morte nos separe”, um enxerto romano pra encher lingüiça nos casamentos sociais – já que para Jesus, a vida é eterna. Tem gente que ainda vai ter que reencarnar mais umas dez vezes pra entender que sua vaidade e seu egoísmo são grandes, enormes, gigantescos, descomunais, mas não eternos. Outros, deitados eternamente em berço esplêndido, vivem um polpudo carnaval, pulando na opulência e batucando no couro dos pobrinhos. Nossas dívidas, sim, são eternas. Mas só quem paga o patinho é o povão que, quanto mais estuda, mais cavalo fica. Pena de morte e prisão perpétua não existem. E a ignorância que não acaba mais ainda acha que o diabo castiga justamente os seus amiguinhos, os malvados da Terra, com suplícios eternos. Só esta prova de falta de fezinha já faz dos crédulos sérios candidatos a colocarem os dois pés no inferninho. A verdade mesmo é que a eternidade (irmã do infinito) é eterna em todas as direções. Tanto faz passado e futuro, ela é eterna para os dois lados. E o instante presente, também não acaba, já que o que chamamos “passar do tempo” é mera ficção. O Universo vai e volta. E, de vez em quando, nos permite 5 décimos de segundo de pura lucidez. Vemos tudo simples, claro, nos sentimos irmãos de todos e de todas as coisas. Um flash de tamanha felicidade que, se soubermos captá-lo, vale um passaporte para a eternidade – que não acaba nem quando termina. Portanto, querido leitor, guarde esta página para sempre.
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Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado
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Destróia
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pedra que sobre pedra quer restar
o que eu sou não é mole desmanchar
implosões, marretadas e de quebra
um novo shopping center no lugar
nasci assim. fico sem jeito de morrer
vai a alma, o corpo ainda quer ser
e debaixo de uma outra civilização
bate o coração, ruína dura de roer
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Roberto Prado
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Marcos eternos
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o que aprendi com os amigos
não reneguei nem esqueci
não me acho o melhor dos vivos
e até hoje, que eu saiba, não morri
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aprendi, sim, e com maestria
dos todos que até hoje encontrei
o amor pelo que chamam poesia
que é hoje tudo que tenho e sei
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imaginei-me ontem o pior de todos
porque almejo algo acima do solo
como se em meu cérebro eletrodos
me jogassem dos 34 anos para o colo
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hoje, porém, nascendo o dia azul
olhei pela janela e tudo amarelo –
havia em mim uma espécie de exul
tação aos amigos, à poesia, ao belo
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Marcos Prado
(1962-1997)
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Chama Eterna de Amor
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Oh! chama viva de amor que ternamente feres
minha alma no mais profundo centro!
Pois não és mais esquiva, acaba já, se queres,
ah!, rompe a tela deste doce encontro.
Oh! cautério suave, regalada chaga,
branda mão, oh!, toque delicado
que a vida eterna sabe e paga toda dívida!
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Oh! lâmpadas de fogo em cujos resplendores
as profundas cavernas do sentido
- que estava escuro e cego -
com estranhos primores
calor e luz dão junto a seu Querido!
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Oh! quão manso e amoroso despertas em meu seio
onde Tu só secretamente moras:
nesse aspirar gostoso, de bens e glória cheio,
quão delicadamente me enamoras!
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San Juan de la Cruz
(padroeiro dos poetas da Espanha, 1542-1591)
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O Viver Para Os Outros
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(Capítulo 7 do Livro de Tao)
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Positivo, negativo.
Onde estão as pilhas do Universo?
Ele dá a vida eterna
e nada guarda pra si mesmo.
Assim, não se gasta,
nunca está sozinho
e ainda lhe sobra vida eterna.
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Por estas e por outras o sábio sabe,
mesmo sendo meio desligado.
Engraçado ele ser o primeirão
apesar de estar após o último da fila.
Seu corpo não passa de cavalgadura
que ele não maltrata por ser lerda.
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É que ele nada quer para si mesmo.
E não será por isso
que ele não se gasta,
nunca está sozinho
e ainda lhe sobra vida eterna?
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Lao-Tsé
(China, 570 a.C., tradução de Alberto Centurião, Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado)
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Instantâneos de veloz eternidade
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(do livro Ah, é?)
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15
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Solta do pessegueiro a folha seca volteia sem cair no chão – um pardal.
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88
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O cão olha para o menino: o sol que move a lua, os planetas – e o seu rabinho.
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104
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Bolem na vidraça uns dedos tiritantes de frio – a chuva.
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Dalton Trevisan
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Faz eterno, por enquanto.
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Vi quando a rosa se abriu.
Como a eternidade
pode ser tão fugaz?
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Thiago de Mello
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Vida Eterna
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Em nosso tempo,
a vida eterna
perdeu sua função.
É tão inatual,
tão obsoleta,
tão fora de moda
como o primeiro espartilho
de Sarah Bernhard.
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Nelson Rodrigues
( 1912-1980)
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Eternidade
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Ele reviu-se:
não era mais
nem corpo
nem sombra
nem escombros.
Como foi isso?
Tudo irreal:
um barco
sem mar
a boiar.
Ele sentiu-se:
recomeçava.
Vivera
morrendo
numa estrela.
Ele despiu-se
de quê?
De tudo
que amara.
Surdo-mudo
cegara.
Agora vê.
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Jorge de Lima
(1895-1953)
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Natal
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Nasce um deus. Outros morrem. A verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.
Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra
Não procures nem creias: tudo é oculto.
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Fernando Pessoa
(1888-1935)
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Simples eternidades
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Grafite
Meu nome,
desenho a giz
no muro do tempo.
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Choveu, sumiu.
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Cronos
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Não é o tempo que voa.
Sou eu que vou devagar.
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Helena Kolody
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Camarada eternidade
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Anos, países, povos
fogem no tempo
como água correndo.
A natureza é espelho móvel,
estrelas – redes; nós – os peixes;
visões da treva – os deuses.
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Vielimir Khlébnikov
(Rússia, 1885-1922)
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Contrição
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Quero banhar-me nas águas límpidas
Quero banhar-me nas águas puras
Sou a mais baixa das criaturas
Me sinto sórdido
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Confiei às feras as minhas lágrimas
Rolei de borco pelas calçadas
Cobri meu rosto de bofetadas
Meu Deus valei-me
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Vozes da infância contai a história
Da vida boa que nunca veio
E eu caia ouvindo-a no calmo seio
Da eternidade.
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Manuel Bandeira
(1886 – 1968)
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A eternidade vai além
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Senti um féretro em meu cérebro
e carpideiras indo e vindo
a pisar, a pisar, até eu sonhar
meus sentidos fugindo
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E quando tudo se sentou,
o tambor de um ofício
bateu, bateu, até eu sentir
inerte o meu juízo
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E eu as ouvi, erguida a tampa,
rangerem por minha alma com
todo o chumbo dos pés, de novo,
e o espaço dobrou
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Como se os céus fossem um sino
e o ser apenas um ouvido
e eu e o silêncio estranha raça
só, naufragada, aqui
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Partiu-se a tábua em minha mente
e eu fui cair de chão em chão
e em cada chão achei um mundo
e terminei sabendo, então.
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Emily Dichinson
(EUA, 1830-1886)
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Debaixo do tamarindo
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No tempo do meu pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos.
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Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da flora brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!
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Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,
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Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!
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Augusto dos Anjos
(1884-1914)
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Que tudo passe
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passe a noite
passe a peste
passe o verão
passe o inverno
passe a guerra
e passe a paz
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passe o que nasce
passe o que nem
passe o que faz
passe o que faz-se
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que tudo passe
e passe muito bem
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Paulo Leminski
(1944 – 1989
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Uma dupla eternidades
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O eterno 1
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a vida não é bem assim
a vida não termina
no primeiro páreo
a vida
pertence ao usuário
inventa
quem passou pelo inventário
O eterno 2
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a vida passa assim:
na metade
já estamos no fim
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Luiz Antônio Solda
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A moda eterna
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Somente nunca sai da moda
quem está nu.
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Mário Quintana
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Poeminha do eterno retorno
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Então fica assim:
O in vira out
E o out, in
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Millôr Fernandes
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Tudo é para sempre
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assim vivia
de um galho
até o outro
com tantos frutos
quanto sonhar podia
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Antonio Thadeu Wojciechowski
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A vida é Terra
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Como é bom estar vivo
e participar dessa maravilhosa aventura
que é estar sobre o planeta Terra.
Dois terços de água
e ainda sobra espaço
pra tanta gente bela.
Oxigênio pra abrir os pulmões das algas
dos sete mares da Terra.
A terra manda no céu
e o céu é da cor azul do planeta Terra.
Às vezes fico basbaque com o show dos vulcões
expelindo magma pra fora dela.
Pela teoria espírita, os espíritos
adoram rodar a bolsinha em nossa esfera.
Ainda por cima a aurora boreal
que desgraçadamente não posso ver deste ponto da Terra.
E nela vamos girando e torcendo
pra que nos seja leve ela que nos leva.
Sagrado torrão do espaço,
todos, até os que em ti estão enterrados,
te desejam eterna, Terra.
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Antonio Thadeu Wojciechowski, Sérgio Viralobos e Walmor Góes
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•15/01/2010 • 4 Comentários.
é hoje!
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num dia como hoje
vocês poderiam me homenagear
depósitos na conta bancária
prêmio nobel da paz
uma pedreira nos fundos de casa
um churrascão com muita cerveja
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bom, a homenagem é de vocês
façam o que bem entenderem
só quero dizer que estou pronto
até já me sinto emocionado
um discurso de improviso na manga
e a humilde pose para a fotografia
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não vejo a hora de partir pro abraço
preparem-se para sentir o arrocho
olho no olho e o sorriso na face
meu santo é forte e fecha meu corpo
mas hoje não, hoje é só homenagens
festa do interior, o coração bailando
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hoje vai ficar na história
lembrança de jorrar lágrimas
coisa pra contar o resto da vida
hoje eu vou estar espirituoso
mais afiado do que nunca
é só começarem as homenagens
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Antonio Thadeu Wojciechowski
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•14/01/2010 • 5 Comentários
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Destino
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“O destino é o acaso atacado de mania de grandeza.”
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(Mário Quintana)
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A humanidade é uma piada onde a risada final é de morte. Você vai até a esquina e uma bala perdida te acha o cérebro. Babau. Fim? Destino? O que significa esta palavra que, segundo dizem, conduz a vida dos homens como se não passássemos de marionetes? Se o começo e o fim são determinados, é no meio que vale o nosso livre arbítrio? Antigamente se enfrentava o diabo para se conseguir uma consultazinha no Oráculo de Delphos. Hoje, disca-se para um 0900 qualquer e a R$ 4,95 por minuto, você tem todas as alternativas. O problema é que, no vestibular da vida, você é que tem de marcar um x na alternativa correta. Mas o certo mesmo é não ter pressa, porque o destino fatalmente baterá à sua porta. Nos anos sessenta, onde tudo era sonho, sonhava-se em ser “Sem Destino” ou mais tropicalisticamente falando “Sem lenço e sem documento”.
Exageros à parte, a ciência avançou tanto que alcançou o entendimento de Jesus quando disse que não nos preocupássemos com o futuro pois “cada dia traz sua pena” e que não cai uma folha de árvore sem a permissão do Criador. Só jerico para ter a idéia de que peru morre de véspera. Destino é lavra da alma, se colhe o que se plantou, no seio da nossa santa “ingnorância”. Ou como dizia Gonçalves Dias “a vida é combate que aos fracos abate e aos fortes, aos bravos só faz exaltar”. Não que o caminho da glória seja um mar de rosas, muito pelo contrário, para aquele que enfrenta, o destino é caminho; para o que foge, é tortura. Nietzsche falou e disse: “Destino, sigo-te! E mesmo que não o quisesse,/ deveria fazê-lo, ainda que gemendo!” A verdade é que não se pode tapar o sol do sofrimento com a peneira da felicidade, o resto é conversa fiada e a gente não pode se fiar. Mallarmé, no genial poema Um Lance de Dados Não Abolirá o Acaso, tenta equacionar o destino e o pior é que consegue, graças à mais bela e complexa sintaxe de toda a literatura universal. Para nós, que amamos a dúvida, fica uma certeza: a vida, inteira, está no final da dúvida.
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Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado
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Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso
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Fragmento final
……………………………………………………………………….
UMA CONSTELAÇÃO
fria de olvido e dessuetude
não tanto
que não enumere
sobre alguma superfície vacante e superior
o choque sucessivo
sideralmente
de um cálculo total em formação
vigiando
duvidando
rolando
brilhando e meditando
antes de se deter
em algum ponto último que o sagre
.
todo pensamento emite um lance de dados
.
( Mallarmé, tradução de Haroldo de Campos )
.
.
.
diário de bardo
.
o verso, livre, se lança
ao mar desconhecido
até onde a vista alcança
ao encontro do perigo
.
navegante de mim
ruma a outro destino
um dia há de assim
tornar-me clandestino
.
Antonio Thadeu Wojciechowski
.
.
.
Catarina
.
destino quis que eu te quisesse
e não importa o que fizesse
amanhecesse sol
ou chuva que molhasse
não tem um dia que passe
da aurora ao arrebol
sem que eu me lembre
quanto nos queremos pra sempre
.
ainda bem, estamos juntos
motivos pra brigar não são muitos
a porta já não tem trancas
e o infinito é grande mas não é dois
não deixamos o amor pra depois
nem o movimento das ancas
agora é um sentimento de liberdade
e o resto é só felicidade
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Antonio Thadeu Wojciechowski
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Desatino Cruel
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esse mal jeito de gênio
minha santa paciência
e esse excesso de oxigênio
me fazem o diabo em pessoa
exato qual morto de susto
acha justo crerem isso desatino?
apesar que não fico triste
mera letra a mais no destino
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Roberto Prado
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Destino
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não discuto
com o destino
o que pintar
Eu assino
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Paulo Leminski
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Poema de O Livro dos Contrários
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“sou o destino, muito prazer
você parece um pouco abatido”
“estava assim por você
mesmo sem nunca ter te conhecido”
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o destino, que não bateu à porta
fatalmente ficou comovido
o acaso, sem querer, foi embora
tomando rumo desconhecido
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o destino pensou: “é minha culpa
eu é que o faço inesperado
preciso deste cara como dupla”
e desviou do seu rumo por acaso
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Marcos Prado
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Trecho de Invenção de Orfeu
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Também há as naus que não chegam
mesmo sem ter naufragado.
não porque nunca tivessem
quem as guiasse no mar
ou não tivessem velame
ou leme ou âncora ou vento
ou porque se embebedassem
ou rotas se despregassem,
mas simplesmente porque
já estavam podres nos troncos
da árvore de que as tiraram.
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Jorge de Lima
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3 Destinos
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1.
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isso é coisa do destino:
o que seria do ébrio
sem o Vicente Celestino?
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2.
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sou assim genuíno
por obra e graça
do meu destino
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3.
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alguém já disse e hoje eu ensino:
cada um deve seguir
o seu próprio destino
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Solda
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E, então, o que você quer?
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Fiz tremer as colunas do jornal
abrindo olhos nas manchetes à mão cheia.
E logo, num piscar de cílios,
de cada fronteira, de cada local,
explodiu um barril de pólvora que ricocheteia
em meio à casa e seus utensílios.
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Neste último ano
nada de novo houve
no rugir do trovão
que está no ar.
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Não estou alegre, mas meu plano
pelo que eu soube
ninguém irá julgar…
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Mas também por que razão
eu haveria de estar triste?
O mar da história
é agitado.
A ameaça existe
e a guerra, a ilusão da vitória
são coisas do passado.
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Está lançada a minha sorte !
Perscruto outras sondas
mas é ainda minha quilha que aprofunda o corte
sobre as ondas.
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Vladimir Maiakóvski
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Livre adaptação de Comedor de Ranho
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O ALBATROZ
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Muita vez, por não ter o que fazer, marujos
Pegam um albatroz, nômade ave marinha,
Que traz um pouco de alegria aos ditos cujos
e ao navio que, sobre abismos, quebra a rotina.
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Nem bem o põem no chão, sobre as tábuas molhadas,
O rei do azul do céu, sem graça e desengonçado,
Deixa cair suas asas que, imobilizadas,
São arrastadas tal muletas ao seu lado.
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Que figura! Como um palhaço interagindo,
A ave divina fica muito cômica… Ei-la!
Um a aborrece pondo em seu bico um cachimbo;
Outro, por imitar um manco que coxeia!
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Sou poeta, sou como esse príncipe do ar,
Que enfrenta a tempestade e ri da flecha a voar,
Mas com os pés no chão, em meio à plebe rude,
Também quis abrir asas e voar, mas não pude!
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Charles Baudelaire
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Livre adaptação de Antonio Thadeu Wojciechowski
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FANTASIA
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E lá vou eu, de mão no bolso roto,
A linda blusa caindo aos pedaços.
Sob o céu, Musa! Ah…nossos amassos…
Uhlalá! Ao lembrar solto um arroto!
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Em minha única calça um perdigoto.
— Pequeno Polegar eu sonho espaços
Sob a Ursa Maior, rimas em meus braços,
Som do céu em rumor de estrela envolto.
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Sentado à beira do caminho ouvia
Nas noites de setembro a cotovia.
O orvalho no meu rosto como um vinho
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E eu compondo em meio a espectros esparsos.
As cordas da lira eram meus cadarços,
Um pé de sapato ao meu peito juntinho!
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Arthur Rimbaud
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Por Antonio Thadeu Wojciechowski
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destino de poeta
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eu sou uma pedra no meu caminho
me atiro no meu telhado de vidro
desde pequenininho
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Antonio Thadeu Wojciechowski
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EPÍSTOLA SOBRE A PISTOLA NAS MÃOS
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Matar-se… Pense nisso…
Qualquer um pode fazer isso.
Bata um papo com as lavadeiras sobre o assunto
Antes de se decidir por virar defunto.
Discuta com os amigos os prós e os contras,
Mas evite a vertigem, afinal de contas,
Cair no abismo não é bem ir fundo na questão.
Amanhã você pode ter uma outra opinião.
Que tal uma pequena mentira ?:
- Tô de saco cheio com essa merda de vida!
Ou essa:
- Minha mulher é infiel à beça!
Isso funciona com os que ficam surpresos com essas coisas.
Mas, convenhamos, o que são afinal essas coisas?
Por mim, você não devia deixar transparecer
Que dá tanta importância ao seu ser.
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Berthold Brecht
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por Antonio Thadeu Wojciechowski
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Olhos para a chuva
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Choveu a noite toda como nunca
E eu fiquei tão feliz. Gosto da chuva,
Intermitente, oblíqua. A tudo junta
E alimenta o alface, o lírio e a uva.
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Também os mortos levam uma ducha
E matam a imortal sede, que é muita,
Mesmo no frio da última espelunca.
Ainda bem, toda flor algum dia murcha,
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E o que era esplendor, beleza e luz,
Rapidamente some e se soma ao húmus,
Que vai alimentar milhões de bocas.
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Agora não são poucas essas gotas,
Que caem como dádivas da vida,
Com toda emoção da missão cumprida!
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Antonio Thadeu Wojciechowski
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•13/01/2010 • 1 Comentário
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Colaborem e ajudem a divulgar.
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O Júlio Almada sofreu um acidente retornando de um evento, há três dias, e passou por uma cirurgia no úmero, fraturado em três partes, :isso o impedirá de cumprir vários compromissos imediatos, causando-lhe dificuldades. Vamos todos comprar o seu livro Poemas Mal_Ditos.
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Para Contribuir – http://vakinha.uol.com.br/Vaquinha.aspx?e=4705 ou se preferir:
Caixa Econômica Federal – Agência: 0370 – Operação: 013 – Conta: 00338074-7
Em nome de Júlio Almada.
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e-mail:julioalmada@gmail.com
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”Há despesas (remédios, transporte e outras) e o fato de eu ficar em recuperação dependendo de cuidados de terceiros e amigos. Mas são os atrasos nos compromissos que estão me deixando mais quebrado ainda. Toda Colaboração é bem-vinda e realmente me ajudará a enfrentar essa situação!!
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Júlio Almada
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•13/01/2010 • 1 Comentário
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O terremoto de 7 graus na escala Richter que atingiu o Haiti nesta terça-feira (12) matou Zilda Arns, fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança. O gabinete do senador Flávio Arns (PSDB-PR), sobrinho de Zilda, e a Pastoral da Criança confirmaram a informação na manhã desta quarta-feira (13). Se todos tomássemos como verdade absoluta a frase de Mahatma Ghandi: “A vida não é feita de prazeres, mas de responsabilidades.”, Zilda Arns com certeza seria escolhida como estrela guia e pacificadora do planeta.
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Polaco da Barreirinha
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•10/01/2010 • Deixe um comentário
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DNA
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Sou um poeta! Escravo do que escrevo,
réu do que silencio; senhor, apenas,
de míseras quimeras, às quais devo
a minha vida, obra e as duras penas.
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Não que não me divirta com o esmero
dos mestres que me antecederam. Penas
que deram a minha alma e ao meu selo
as formas, fôrmas, fórmulas, apenas.
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A eles consagro esse augusto farol
que me guia, orienta e me põe a salvo,
não das tormentas, mas da calmaria,
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para que meu pobre coração vol-
te das trevas e – sol – tome de assalto
a vida que eu pedi a Deus um dia!
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Antonio Thadeu Wojciechowski
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•31/12/2009 • 5 Comentários
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feliz engano novo
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vamos aproveitar
comprem antes de acabar
já começou a grande queima de arquivo
corram já estão atrasados
só mesmo eisntein para ser tão relativo
gastem até o último centavo
comprem comprem comprem
à vista no cartão a prazo no pré-datado
tudo que vocês não vão precisar
tudo que os vizinhos vão invejar
tudo que os parentes vão babar
mas se preferirem dar uma economizada
ou estiverem diante de um dilema
levem pra casa esse poema
eu acho que, pra vocês, não vale nada
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antonio thadeu wojciechowski
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•31/12/2009 • Deixe um comentário
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Marcos Prado faleceu no dia 31.12.1996.
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Lembro que eu Edílson fizemos uma canção e ficamos cantando a madrugada inteira. Daí chegou o Careqa, o Edílson foi dormir, e fizemos outra canção. De vez em quando o Edílson acordava e resmungava: “porra, que lindo isso!”
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amanhã
já é ano que vem
amanhã
já é ano que vem
ontem nem sonhava
que hoje ia ser ano passado
amanhã
já é ano que vem
de olhos fechados não se vê
o tempo passar
amanhã
já é ano que vem
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Thadeu W e Edílson Del Grossi
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nós aqui sozinhos
queremos dizer good bye
eu sei o quanto isso dói
eu sei o quanto isso ai
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velas são acesas
flores pelo chão
meu coração é só tristeza
onde andará a sua mão?
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deixa de ausência
volta agora pra ficar
se dormir cá do meu lado
se prepare pra sonhar
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thadeu w e carlos careqa
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•29/12/2009 • 1 Comentário
•29/12/2009 • 5 Comentários
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Feliz 2010!
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poeta bom é poeta torto
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(per)versões e charadas
sintaxes (sic) sofisticadas
palavras soltas no papel
mandam a poesia pro beleléu
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o poeta poeta salta sobre o dorso das estrelas
chicoteia centauro com a cauda dos cometas
e sem medo de mudar a paisagem das janelas
abre a vida eterna ao agora é que são elas
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pois a emoção real para os artífices
é ver o coração mostrar o bíceps
e numa porrada de quebrar a cara
dar feição e alma a uma rima rara
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é que só a levada, meu ingênuo eugênio,
pode dar ao ritmo um toque de gênio
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Antonio Thadeu Wojciechowski
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•21/12/2009 • 2 Comentários
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Saboro Nossuco tem recebido muitas visitas e oferendas, após o sucesso do lançamento do seu livro Koan do Como Onde. Mas, ninguém sabe o motivo, já não late e nem morde como fazia antigamente, apesar de continuar a mijar pelos cantos. Dia desses, em seu templo na Barreirinha, numa de suas contagiantes conversas, nos contou essa pequena e ilustrativa história, que ficará aqui no blog junto com os meus e os seus mais fervorosos desejos de um feliz natal e um ótimo ano de 2010.
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Polaco da Barreirinha
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Saboro diz que certa vez Lao Tse, o autor do livro de Tao, recebeu a visita de um importante e riquíssimo mercador, que queria muito conhecer o seu habitat e o seu modo de viver.
Assim que pôs os pés na pequena e humilde cabana, o rico mercador esbugalhou os olhos, surpreso com tanta simplicidade e desapego, pois nada havia além de uma cama, uma mesa, duas cadeiras e uma prateleira com livros.
- Onde estão os seus bens, Mestre?
- !!
- Quero dizer, onde estão os seus móveis?
Lao Tse olhou à sua volta e alegremente perguntou:
- E onde estão os seus?
- Os meus?! Mas eu estou aqui só de passagem!
- Eu também… – disse Lao Tse, abrindo um largo sorriso.
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•18/12/2009 • 1 Comentário
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Minha amiga Luana Vignon escreveu este texto falando da festa que organizaram para levantar fundos para o Mário Bortolotto. Também queria ter estado lá, mas não pude. Eu estava tão longe, tão perto. Mas a Luana disse tudo e eu não faria um texto melhor.
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Antonio Thadeu Wojciechowski
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“a amizade é algo como carregar uma bomba armadadentro do coração”
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Ontem a noite deve ter sido especialmente bonita no Café Aurora. Talvez as pessoas estivessem um pouco menos preocupadas consigo mesmas, talvez elas tenham deixado de conferir o troco, talvez ela até tenham se sentido mais vivas pela simples e preciosa sobrevivência de um amigo. Eu disse à Fernanda que se eu tivesse direito a um desejo, eu teria desejado estar lá ontem, porque não é sempre que celebramos a vida dessa forma, mas eu tenho uma menina que só tem a mim, por enquanto. Tenho negligenciado minhas amizades, tenho estado aqui dentro por muito tempo, mas não é uma questão de escolha. Eu teria ido beijar cada um, olhar no fundo de todos os amigos que lá estavam, eu poderia abraçá-los e dizer o quanto são verdadeiramente importantes pra mim. A violência contra quem amamos faz brotar sentimentos que muitas vezes estão esquecidos entre uma mágoa e outra, nos fragiliza, e é por isso que eu acho que a noite de ontem deve ter sido especialmente bonita.
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*o título desse post é um verso do poema “Não quero que Shirley desapareça”
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na foto: Mário e Isabela Bortolotto
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Luana Vignon
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•18/12/2009 • Deixe um comentário
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Lua
ó lua, ó, lua/nunca te vi mais bela/
linda assim/ você parece ela
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Tão longe, Tão perto
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A Win Wenders
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Vista assim da Terra mais parece o céu esparramado no chão. A Lua lá longe só perturba. Manda nas marés. Cresce ou cai cabelos. Uiva os cachorros. Dá pêlo em lobisomens. À noite, cheia de si, dobra as doses de barbitúricos pelos hospícios. Arrasta redes de peixes às mancheias. Em tudo ela mete a sua colher prateada, desde o signo da gente até aqueles dias da mulherada. Mas uma coisa é certa: se a Lua fosse pro espaço, fechava o tempo na Terra. Sentiríamos saudades até da última cratera, bem ao contrário do que pensa o nosso bom e velho Wilson Martins.
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Antonio Thadeu wojciechowski e Roberto Prado
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nem os meus cobertores
querem dormir
Antonio Thadeu Wojciechowski
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plenilúnio
hoje a noite é de lua
cães uivam cada um pra sua
lobisomens trocam de pêlo
hospícios dobram doses de barbitúricos
mares empurram as terras mais firmes
o que uma pobre lua tem a ver com isso?
é que a lua é o anjo da guarda da Terra
cheia de si, míngua; quanto mais nova, mais cresce
assim como diante desse luar
todo este lunático papo se esquece
Antonio Thadeu Wojciechowski e Sérgio Viralobos
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Luar Zen
que céu
que mar
que lua
que nada
Antonio Thadeu Wojciechowski
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lua cheia
se lhe pões um cabo
que leque!
Buchô
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a lua da montanha
gentilmente ilumina
o ladrão de flores
Issa
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uma lua
existe quem tenha duas
boiando num promíscuo
céu estranho
ou três ou quatro
ou muitas de todo tamanho
ou até quem sabe mais bela
eles que fiquem com as suas
não quero outra, só ela
luz cantante, leite de sereia
simples lua e meia
a minha é aquela
Roberto Prado
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nasci com olhos pra lua
eu e a lua somos assim
eu não subo, ela não desce
mas nos adoramos sim
Antonio Thadeu Wojciechowski
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bate o meu coração acolá
e o seu sangue azula
seu coração bomba lá
e o meu sangue circula
às vezes olho pro céu
onde o sol não flutua
e até as nuvens, ó céus,
compõem sua figura
outras, olho pro mar
com o olho da rua
quero amor e amar
cansei de amargura
nesta manhã lunar
(o seu olhar me inaugura)
porque não aterrissar
neste que é seu, sua lua?
Marcos Prado
mundo da lua
que tudo evolua
a minha, a tua
o nosso lugar na lua
o nosso luar no mundo da lua
Antonio Thadeu Wojciechowski
•15/12/2009 • Deixe um comentário
•15/12/2009 • Deixe um comentário
•15/12/2009 • 4 Comentários
Paola na lente de Alicia Ayala.
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Minha filha Paola teve mais uma grande conquista e, após o pós-graduação em tempo recorde, parte célere para o mestrado. Parabéns, diamor.
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•12/12/2009 • 4 Comentários
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ÓDIO
Sentimento de anjos ou demônios?
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O homem é muito mais fiel ao seu ódio do que ao seu amor.
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Nunca fui com a sua cara mesmo
se suportei até hoje
é porque pagava todas.
A comida que eu servia era temperada a cuspe.
A bebida da boa só eu bebia.
A cada aperto de mão vinha a vontade de esmigalhar seus dedos.
Como eu ficava sem graça ao rir de suas piadas bestas.
Sua voz de matraca trincava meus ovos e meus ouvidos.
Não é à toa que nunca consegui olhá-lo nos olhos;
se sim, tinha mais um ceguinho no mundo.
Só não lhe dei um tiro porque pra você nunca dei nada.
A única coisa que fiz na vida pra você foi um boneco vodu,
mas como nada é perfeito, faltou agulha pra mandar bala no cão.
E agora que você está aí, duro, espichado, algodão nas narinas,
Me dá ódio não ter o que fazer com este ódio todo.
Antonio Thadeu Wojciechowski e Sérgio Viralobos
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Ó meu ódio, meu ódio majestoso,
Meu ódio santo e puro e benfazefo,
Unge-me a fronte com teu grande beijo,
Torna-me humilde e torna-me orgulhoso.
Humilde, com os humildes generoso,
Orgulhoso com os seres sem Desejo,
Sem bondade, sem Fé e sem lampejo
De sol fecundador e carinhoso.
Ó meu ódio, meu lábaro bendito,
De minh’alma agitada no infinito,
Através de outros lábaros sagrados,
Ódio são, ódio bom!, sê meu escudo
Contra os vilões do Amor, que infamam tudo,
Das sete torres dos mortais pecados!
Cruz e Souza
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Só
Este, que um deus cruel arremessou à vida,
Marcando-o com o sinal da sua maldição.
Este desabrochou como a erva má, nascida
Apenas para aos pés ser calcada no chão.
De motejo em motejo arrasta a alma ferida…
Sem constância no amor, dentro do coração
Sente, crespa, crescer a selva retorcida
Dos pensamentos maus, filhos da solidão.
Longos dias sem sol! Noites de eterno luto!
Alma cega, perdida à toa no caminho!
Roto casco de nau, desprezado no mar!
E árvore, acabará sem nunca dar um fruto;
E homem, há de morrer como viveu: sozinho!
Sem ar! Sem luz! Sem Deus! Sem fé! Sem pão! Sem Lar!
Olavo Bilac
ódio mental
meu cérebro é um vulcão em erupção
coitados dos moradores da encosta
desci ao fundo do poço
pela corda amarrada na garganta
por comer entranha de caranguejo
meus miolos afundaram no lodo negro
de tanto pensar me dói a cachola
onde foi parar aquela boa idéia?
não dá pra disfarçar, sou gira
de vez em quando me amasio com uma psicopata
meu pescoço sustenta o coco oco
tenho que tirar o chapéu pros caçadores de cabeça
Antonio Thadeu Wojciechowski, Edilson Del Grossi,
Marcos Prado, Sérgio Viralobos.
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3 ódios do livro 234.
3
O marido com dores e a mulher liga o rádio a todo o volume.
- Quero ver quem grita mais alto.
19
- Arre, que eu rasgo esta criança pelo meio!
- Tem dó, João.
- Ah, não pára de chorar? – e mais pinga na boca do anjinho.
98
Em cada esquina de Curitiba um Raskolnikov te saúda, a mão na machadinha sob o paletó.
Dalton Trevisan
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Quem ama e quem odeia
um homem caminha rumo ao horizonte
com uma calma que o faz driblar o passo
isento de pensamentos e de cansaço
sem com quem falar nem com quem conte
outro, sobe apressadamente um monte
pensando em como é deprimente céu abaixo
sentindo-se infeliz e cabisbaixo
porque subir não o leva além de ontem
os dois se encontram um dia num deserto:
- isso um dia já foi uma floresta
- em qualquer direção que eu vá, fico mais perto
e se despediram, um com aceno de dor, o outro de festa
você que é sábio, se diz bom e esperto
diga qual o que ama e qual detesta
Marcos Prado
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declaração de ódio
vou mijar na cara de todos os meus inimigos
e soltar os cachorros sarnentos
em cima de qualquer suspeito de traição
vou descarregar a metralhadora
em todos os que se fingem de bonzinhos
só pra agradar a gregos e curitibanos
vou embora pra Itararé
levando as esfinges que me decifram
e todas as ruas cheias de fantasmas
que me incomodam e enchem de ódio
meu triste coração que já foi repartido
entre os leões que estavam na arena
Luís Antônio Solda
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endoódiocentrismo
um pouco de fome eu recomendo
o frio vai te deixar tremendo
traição, sim, ia esquecendo
violência, só pra ficar doendo
desilusão é bom nascer sabendo
portanto comece sempre crendo
doença? eu vou ficar devendo
esse atalho de dizer me rendo
incompreensão eu já nem vendo
humilhação, bem, disso eu entendo
uma pá de ódio raso fervendo
caldo de solidão frio escorrendo
leve um doce pra continuar sendo
volte cedo, filho, sem remendo
não há morte se assim sofrendo
agora sim – já pra dentro! -
nascendo
Roberto Prado
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Ódio Brasil
ó senhor dos pratos e das pratas
lembrai que nem só de pão vive o homem
mas arroz, feijão, ovo frito e batatas
que fazem mais mal que bem e nem isso tem
ó senhor das sobras e das farturas
transformai a miséria em artigo de exportação
há países medíocres que vivem nas alturas
e por fome de conhecimento pagariam a lição
ó senhor das agiotagens e das especulações
mandai aos mortos antes de um ano lembrancinhas
por serem pele, osso, carne-seca e anões
os ex-comunistas recusarão nossas criancinhas
ó senhor dos agrotóxicos e dos pesticidas
pulverizai a história da carochinha
famintos, bêbados, drogados, analfas, suicidas
não resistirão ao exército, aeronáutica e marinha
ó senhor dos boatos e das ameaças
lançai rumores sobre uma nova ditadura
enquanto as velhas doentes, famintas e descalças
sonham apenas com uma nova dentadura
ó senhor dos coronéis e fundos de pensões
aposentai vossos pecados por peculatos
quem teve trinta e cinco anos de doces ilusões
vê que os iludidos de hoje são bem mais baratos
ó senhor das universidades e dos doutores
ensinai a aprenderem muito bem o mal
pois às custas da nação e seus horrores
se formam, dão a bênção, picam a mula e tchau
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•12/12/2009 • 3 Comentários
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Agora é que são eras
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Eu estou bem e longe agora. Obrigado.
Nada mais me enche o saco como enchia antes.
A noite me traz versos infernais de dantes
e o dia é a dose que não bebo embriagado.
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Carrego séculos nas costas mas não sinto
o peso morto da existência. Tenho em mim
os poemas que preciso e um diálogo sem fim.
Eu, o único ser que sabe quando minto.
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As janelas jamais se abrem para sempre,
converso com o Bortolotto e é bonito
o jeito que a vida se eleva ao infinito:
esse amor gêmeo e trágico que o poeta sente.
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Daqui vão todos os meus milagrosos dedos
ao seu encontro levando a possível cura.
Mais uma vez me valho da total loucura
para enfrentar de peito aberto os meus medos.
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Medo de não morrer a tempo e não poder
chorar meu próprio funeral, acender velas,
contar as maravilhas que eu era e que por elas,
só por elas, não valia a pena escrever!
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Antonio Thadeu Wojciechowski
•01/12/2009 • 2 Comentários
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Poema para Primeiro de Dezembro
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A rataiada miúda já sonha o natal
e um ano novo cheio de felicidades.
Dessa raça, mais da metade foi pro pau
E o resto quer um mundo de facilidades.
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Eu escuto o CD do França e está bom.
A vida já é meio caminho andado
e a poesia desse rapaz tem o dom.
O curitibano está bem acompanhado.
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Dois mil e nove falta pouco pra acabar
e eu fiquei aqui pensando com meus culhões:
Quantos janeiros ainda até alguém me matar?
Mais quantos fevereiros entre os foliões?
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De que tamanho é a sombra que me assombra?
Por que quanto mais estudo mais me faz falta
a inocência pura e besta em festas de arromba?
Não, não é queixa e nem dor o que me assalta…
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Apenas acordei com saudades de mim,
mais nada. Vou em frente. E o sol solto lá fora
é aviso de que as coisas não são bem assim.
O mundo é belo e a vida só se for agora!
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Antonio Thadeu Wojciechowski
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•30/11/2009 • 2 Comentários
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MORTE
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dia de finados
do jeito que estão
dedico as flores
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Bashô
Ninguém é peru pra morrer de véspera, portanto, a preocupação com dia, hora e local é total falta de presença de espírito. Viver, sim, é perigoso, como dizia Guimarães, ou, viver é prejudicial à saúde, como completa de sem-pulo Jamil Snege. “Quando eu passo perto das flores/ Quase elas dizem assim/ Vai que amanhã enfeitaremos o seu fim”, já cantou Nelson Cavaquinho, outro aficionado.
A morte sempre foi uma idéia viva em todos nós, poetas ou não.
Augusto dos Anjos encarnou como ninguém a beleza do tema e merece ser o homenageado desta página de morte. Muitas vezes morrer pode ser apenas um medo de viver. O que vem depois da morte causa pavor aos materialistas, pelo vácuo; aos malvados, pelo castigo; aos cains, pela dor do remorso.
Mas, nós e vocês, vivos leitores, sabemos que a morte é um mero somenos.
Vamos lá, hoje tem festa nos céus.
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Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado
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POEMA NEGRO
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(Fragmento)
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Surpreendo-me, sozinho, numa cova.
Então meu desvario se renova…
Como que, abrindo todos os jazigos,
A Morte, em trajos pretos e amarelos,
Levanta contra mim grandes cutelos
E as baionetas dos dragões antigos!
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E quando vi que aquilo vinha vindo
Eu fui caindo como um sol caindo
De declínio em declínio; e de declínio
Em declínio, com a gula de uma fera,
Quis ver o que era, e quando vi o que era,
Vi que era pó, vi que era esterquilínio!
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Augusto dos Anjos
(1884/1913)
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três mortes de Dalton Trevisan
1.
A velhinha meio cega, trêmula e desdentada:
- Assim que ele morra eu começo a viver.
2.
O menino estende os bracinhos para o alto:
- Colvo, me leva.
3.
Aparou o bigodinho e escolheu a camisa florida.
- Ele se enfeitava para a morte e não sabia.
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Dalton Trevisan
,
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amplo espectro
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só depois de morto você me entenderá
vivo, primo demais pela complicação
não sou mesmo desse mundo
debaixo de sete palmos você verá como sou
profundo
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Roberto Prado e José Alberto Trindade
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morte artificial
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Ninguém mais morre de fato,
a morte perdeu seu antigo status.
A vida ocupou todo o espaço
assim como nos desertos os cactus.
Foi-se pra sempre a negra figura da morte,
decretamos nossa eternidade à revelia.
.
Doações de órgãos de toda sorte:
um olho pra fulano, outro pra beltrano, alegria
pra sicrano e o coração pra qualquer uma.
Aos pedaços, algum incauto há de dizer:
isso é vida? uma duna que se avoluma?
.
Só sei que foi tudo que pude morrer.
.
Antonio Thadeu Wojciechowski e Sérgio Viralobos
.
.
poema para Paulo Leminski
.
vai
meu amigo
desta vez
não vou contigo
.
a morte
é um vício
muito antigo
só que nunca
aconteceu
comigo
.
pode ir
que eu não ligo
eu fico por aqui
separando
tijolo do trigo
.
Solda
.
.
begônias silvestres
.
o sumiço da sua silhueta amiga
fez meu perfil baixar a cabeça
as cores da tarde, cinzas cinzas
as luzes da noite, negras negras
.
desaparecer não é pra qualquer um
só você, misto de mistério e dúvida
pode estar em lugar nenhum
e ainda me tocar, por música
.
Marcos Prado
(1961/1996)
.
.
agora depois
.
o poeta
quando morre
onde vai?
.
irá para a lua
onde não há ninguém
para olhá-lo?
.
ou para a China
chorar cantando
entre tantos iguais?
.
sumir ou sofrer?
ninguém ou bilhões?
melhor não morrer
.
Roberto Prado
.
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é de morte
.
em cada cara
uma tara
encara
minha morte
.
tremendo corte
.
eu grito
do caixão:
boa sorte!
.
Antonio Thadeu Wojciechowski
.
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anjo da morte
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a morte é o último mistério da vida
quando você morre e não esquece de deitar
vira uma forma nebulosa na subida
que vive suspensa em qualquer lugar
.
além túmulo, existirá vida possível ?
zumbem como moscas respostas amorfas
tem muita gente que ainda crê no incrível
dormem acordadas, sonham consigo, levantam mortas
.
assombrado de estar vivo
a morte é um estado de espírito
sou o ser que quer ser redivivo
sozinho, morto, morto, morto, não consigo
.
Marcos Prado e Édson De Vulcanis
.
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é tudo ou nada
.
essa vida é de morte a esmo
quando você menos espera
terá passado pra outra esfera
e nunca mais será o mesmo
.
do que você era, nem sombra
é como se evaporasse no ar
apenas sua lápide a indicar
a presença que agora assombra.
.
mas em mais ou menos um século
não restará de você nem o túmulo
removido pelo grande acúmulo
de ossos, alças, sem nenhum nexo
.
sobre você o silêncio da história
nem uma linha, adjetivo, saudade,
também terão ido para a eternidade
os que te guardavam na memória
.
e a terra, sob este sol que chamusca,
na primavera florirá espetacularmente
só então você, fruto da própria semente,
há de ser, afinal, a essência que busca!
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Antonio Thadeu Wojciechowski
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O dia em que morreu o Marcos Prado
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nós aqui sozinhos
queremos dizer good bye
eu sei o quanto isso dói
eu sei o quanto isso ai
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velas são acesas
flores pelo chão
meu coração é só tristeza
onde andará a sua mão?
.
deixa de ausência
volta agora pra ficar
se dormir cá do meu lado
se prepare pra sonhar
.
Antonio Thadeu Wojciechowski e Carlos Careqa
.
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MONÓLOGO DE UMA SOMBRA
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(…)
.
E o que ele foi: clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,
- Engrenagem de vísceras vulgares -
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha
Dos apodrecimentos musculares!
.
A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.
.
É uma trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece…
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.
.
E foi então para isto que esse doudo
Estragou o vibrátil plasma todo,
À guisa de um faquir, pelos cenóbios?!…
Num suicídio graduado, consumir-se,
E após tantas vigílias, reduzir-se
À herança miserável de micróbios!
.
(…)
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Augusto dos Anjos
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•23/11/2009 • 2 Comentários
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Poetas Malditos de Curitiba.
O público foi o espetáculo e deu um show de arrepiar.
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Na sexta-feira, dia 20, 09,30 h da manhã, eu e o Careqa subimos no palco da Villa Batel, um amplo salão ocupado por 1.500 pessoas, todas elas ligadas à rede municipal curitibana de educação, para apresentar um espetáculo de pouco mais de uma hora – Poetas Malditos de Curitiba. A receita foi bastante simples: eu falava alguns poemas de poetas considerados malditos, com alguns comentários sobre suas vidas, e o Careqa entremeava com algumas canções. O resultado não poderia ser melhor e o público foi à loucura total e absoluta. Cantou, gargalhou, dançou, se emocionou e, no fim, aplaudiu de pé durante 5 minutos. Mais que isso, comprou todos os livros e CDs que levamos. Uma festa de autógrafos, sorrisos e parabéns.
Eu e o Careqa chegamos a pensar que estávamos sonhando, tamanha demonstração de carinho, mas era real e saímos dali com a alma e o coração tomados de felicidade. O público nos deu as flores em vida e isso foi talvez a coisa mais maravilhosa que já presenciei nos meus 58 anos de Curitiba. Parabéns para Eleonora Fruet, Marilda Confortin, Daniel Faria e toda a equipe da Prefeitura. Cada um se desdobrou em 10 para tudo dar certo. E deu.
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Obrigadão.
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Antonio Thadeu Wojciechowski
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•22/11/2009 • Deixe um comentário
Cidades
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“E debaixo de uma outra civilização
Bate o coração, ruína dura de roer.”
Roberto Prado
Não adianta fugir e se esconder no meio do mato, pois as árvores não vão quebrar o galho de ninguém. Mas nem por isso fiquem pensando que isso que vocês fizeram com suas cidades é uma coisa normal. Elas são o mundo cão onde a maioria está num mato sem cachorro. Vocês que, com seu egoísmo e suas boas intenções, fizeram de seus habitats um amontoado de gente sozinha, sem pai nem mãe, império do salve-se quem puder. E, pior, cada um por si e Deus contra, como disse o Alberto Centurião.
Nas suas cidades vocês têm todas as desvantagens da falta de espaço natural mas, apesar do empurra-empurra, não aprenderam a desfrutar das vantagens de uma vida amorosa, feliz e solidária. O vizinho pode morrer seco e arreganhado; o irmão, com as mãos à feição de conchas, pode beber água da sarjeta; assim mesmo, vocês não hão de desgrudar o traseiro individualista nem para buscar pão para a mãe querida.
Mas quem são vocês? Originais de onde? Babilônia é sua terra natal? Tudo tem que dar certo? Tudo tem que dar lucro? Tudo tem que ter um preço? De quem vocês estão se defendendo? A quem você atacam?
Ainda bem que existe um outro coração por trás dessas cidades, e, somente ele, por atrito benevolente, vai extrair, de vocês, hoje pedras brutas, o brilho do sol da nova aurora humana. Que assim seja, Mautner!
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Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado
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Imponderabilíssima
A cidade que vejo, nítida, em meu sonho,
não está incrustada nos pontos cardeais,
invisível se ergue imaterializado escombro
no horizonte de meus limites sensoriais.
Nenhum sinal, farol, radar, vai indicar
marco zero, pedra fundamental, obelisco solto,
a Eldorado de qualquer outro sonhar,
aqui e agora não são mais ali daqui a pouco.
O que imagino, o que eu sempre consigo ver,
aparece no meio da noite quando estou sozinho,
mendigo do poço dos desejos pagando pra ser
a próxima esmola das imagens em redemoinho.
Ou então quando, príncipe, todos se curvam,
como se apenas eu, sob os aplausos da cidade,
passasse sob o arco daqueles que triunfam
e, humilde, aceitasse a glória da eternidade.
Mas a cidade, sem nenhum príncipe ou mendigo,
irredutível resiste aos estragos de meu ego.
E assim a essência que revejo fica comigo:
bengala tateando o relevo em que trafego.
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Antonio Thadeu Wojciechowski
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A volta triunfal
aqui vamos fazer nossa casinha
ali a fábrica não ficará muito longe
uma escola com vista pra montanha
e o templo sem imagem nenhuma
desta vez não vamos sujar o rio
nem inventar leis desalmadas
apenas novamente simples heróis
descobrindo mundos, trocando fraldas
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Roberto Prado
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já era uma vez…
inquieto
em Kioto, com saudades
de Kioto
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Matsuó Bashô
( Japão, 1644-1694)
Por Antonio Thadeu Wojciechowski
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Antes, depois e entre
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A Van Gogh
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Olhe bem para a sua cidade.
No reflexo do edifício em frente,
Ela surge súbita no detalhe
Quando cai a noite magnificamente.
Mas…ainda não. O dia tarda.
O sol nas ruas, encarnado, deita,
Enquanto o espírito noturno aguarda
E imagem semelhante aceita.
Os becos, avenidas e alamedas
Matizam pedestres e automóveis.
Da janela, aviste as últimas labaredas,
Perfis, silhuetas, sombras móveis.
Veja só: você, a cidade
E o tempo, como as pessoas, passando.
Pode se beliscar à vontade,
Você não está sonhando!
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Antonio Thadeu Wojciechowski, Marcos Prado e Ubiratan Gonçalves de Oliveira
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Paisagem
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Vem, céu, inspira-me os mais puros monólogos.
Dá-me a emoção das estrelas, o amor dos astrólogos,
E, junto ao som dos sinos, deitado, sonhando,
O cântico dos cânticos que o vento vai levando.
As mãos sob o queixo, minhas queixas são nada,
Apenas as fábricas numa trabalheira desgraçada;
Torres, chaminés, mostras de mastros na cidade,
E grandes céus imensos a optar pela eternidade.
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(…)
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Charles Baudelaire
(França, 1821-1867)
Por Antonio Thadeu Wojciechowski
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À flor da terra natal
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primavera agora
não vejo nem a cor do céu
como vi em Nagoya
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Tokoku
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Por Antonio Thadeu Wojciechowski
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Lisbon Revisited
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(…)
Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida…
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui de novo tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos, todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligada por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?
Outra vez te revejo,
Com o coração longínquo, a alma menos minha.
(…)
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Fernando Pessoa
(Portugal, 1885-1935)
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Lamentações de Curitiba
(…)
Ó Curitiba Curitiba Curitiba, estendes os braços perfumados de giesta pedindo tempo, quando não há tempo.
Ó Curitiba Curitiba Curitiba, escuta o grito do Senhor feito um martelo que enterra pregos. Teu próprio nome será um provérbio, uma maldição, uma vergonha eterna.
Curitiba, o Senhor chamou teu nome e como o de Faraó rei do Egito é apenas um som.
A espada veio sobre Curitiba, e Curitiba foi, não é mais.
Não tremas, ó cidadão de São José dos Pinhais, nem tu, pacato munícipe de Colombo, a besta baterá vôo no degrau de tuas portas. Até aqui o juízo de Curitiba.
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Dalton Trevisan
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Grande angular para a Zap (*)
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as cidades do ocidente
nas planícies
na beira mar
do lado dos rios
fera abatidas a tiro
durante a noite
de dia
um motor mantém todas
vivas e acesas LUCRO
à noite
fantasmas das coisas não ditas
sombras das coisas não feitas
vêm
pé ante pé
mexer em seus sonhos
as cidades do ocidente
gritam
gritam
demônios loucos
por toda a madrugada
.
Paulo Leminski
(1944-1989)
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(*)Homenagem ao fotógrafo Márcio Santos, proprietário da Zap Fotografias, amigo do poeta.
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Decifra-me
faz horas
que não ando
na Rua Quinze
faz horas
que não vejo
mais a cidade
essa necessidade
de quem finge
que as ruas
são esfinges
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Luís Antônio Solda
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Pompéia, São Paulo
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o campinho com a trave debaixo do arranha céu
do lado do clube
toupeiras artilheiras
formigas de barreira
placar no minhocão
cinco passos pra dentro do vulcão
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José Alberto Trindade
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120 minutos em Curitiba
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espero que amanheça, não pelo sol, mas pelo ônibus
a cidade está atenta caso eu durma na praça
pra roubar minha jaqueta bota cigarro e o vale-transporte
quero que amanheça, não para acordar, mas para dormir
o primeiro ônibus passa às seis e são quatro
escrever para ficar acordado, única alternativa
peço que amanheça, não pela manhã, mas pela noite
que eu passei bebendo e esperando o primeiro ônibus
e me fez escrever até agora que ele está chegando
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Marcos Prado
(1961-1996)
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•22/11/2009 • Deixe um comentário
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Eu e mais ninguém
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Madrugada. Ninguém na rua. Só eu,
Pensando em versos, caminho em paz.
O céu está limpo. Como um camafeu
Preso, a Máquina Pneumática jaz.
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Ter constelações e não ser capaz
De amar, de lembrar o que se perdeu
E infinitamente querer mais
Do que a emoção que essa noite me deu.
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Ser poeta, equívoco da criação,
Caminhar à noite como um zumbi,
Sozinho ser mais que uma multidão.
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Ah! uma dor assim eu nunca vi…
Dói e essa lágrima que vem de fora
É toda a beleza que garoa agora!
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Antonio Thadeu Wojciechowski
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Próximo post
•18/11/2009 • Deixe um comentário.
Amigo
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Tudo bem contigo? Estou lançando um novo Livro Em um Mapa em cachorros (podes ler a apresentação no blog www.beira-do-caminho.blogspot.com). Se quiseres comprar o livro, manda bala neste endereço: julioalmada@gmail.com.
O valor é R$ 20,00 com a entrega.
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Um grande Abraço
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Julio Almada
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Peça já!
www.julioalmada.net
www.bloguerocoisanenhuma.blogspot.com
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•18/11/2009 • 2 Comentários
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colibrilhos & colibreus
ao r. ponts
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é isso, amigo ponts,
estamos bem pior
você sabia decor
a ausência de horizontes
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curitiba naufraga
e segue à deriva
foi-se a alma coletiva
e nada mais nos salva
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se falam em cultura
têm à mão o revólver
a imprensa com seus bofes
não tem assinatura
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mente, engana, finge
sem saber escrever
os textos são de doer
não há enigma na esfinge
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usar bem nossa língua
já é pedir demais
vamos deixá-la em paz
há de morrer à míngua
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mas ontem li o seu livro
que estilo, hein, garoto!?
o artista estava pronto
o gênio mais que vivo
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não saiu nada na imprensa?
ah saiu? hora e local?
mas que sensacional
essa burrice imensa!
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melhor que não escreva
nada sairia de bom
seu livro é bourbon
quem o entenda que o beba
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não vê-lo em carne e osso
e apertar sua carcaça
doeu, mas isso passa
já aconteceu conosco
.
descanse então em paz
na eternidade salta
sua obra em alta e a falta
que você tanto faz
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Polaco da Barreirinha
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•18/11/2009 • Deixe um comentário
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Deus é grande mas não é dois?
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com essas asas
um dia ainda vou subir
é só ajoelhar
rezar
e pedir
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Que poeta já não entrou com os dois pés no peito desse assunto? Muito antes da física das micro-partículas e da Teoria do Caos, os bardos já intuíam a extrema desordem do mundo, em ordem. Um buraco negro no raciocínio mais elementar atraindo o que mesmo?
Bons tempos aqueles em que nos bastava um velhinho de bata, barbas brancas e um triângulo sobre a cabeça, com forma e emoções humanas. Mas, hoje, como bem disse Marcos Prado, já sabemos que a Terra não é o centro das atenções do universo. Portanto, que Deus nos ajude!
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Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado
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deus algum
indu
ogum
vishnu
precisa
de tua prece
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tua pressa
pessoa
só teu pulso acelera
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você padece
padecer te resta
tudo um belo dia desaparece
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Paulo Leminski
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olho d’água
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você vê Deus
você chora
é pela beleza
que entra em si
ou pela lágrima
que evapora?
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Roberto Prado
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deus é justo
mas não é apertado
.
Solda
.
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Ubigüidade
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Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.
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Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.
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Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas
Serás no fim do universo.)
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Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.
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Manuel Bandeira
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todos os lugares a deus
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a idéia que eu tenho de deus é abstrata
toco no assunto sem saber do que se trata
é difícil ser sem querer o que se quer ser
é besteira ter que querer ser o que se tem que ser
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deus me livre e guarde da galhofa terráquea
apela para a ignorância o ser de alma macaca
não ao sim que tem em si o tom do não
sim só ao som com o dom do bem e do bom
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Antonio Thadeu Wojciechowski e Marcos Prado
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Por Um Deus Ateu
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se Deus existe mesmo
eu sou a rainha da Inglaterra
como pode querer ser supremo
um Cara que tanto erra
e parece nem estar aí?
até o céu devia ter um limite
se um Deus tem que existir
então voto em Nietzsche:
que Deus passe a ser pecador
que o malfeitor possa ser justo
o homem Seu redentor
e o juiz seu próprio verdugo.
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Sérgio Viralobos
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Deu Deus
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“Deus é uma vitória do Ego sobre a realidade.”
( Sigmund Freud )
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Se fôssemos medir o custo-benefício
de ir à igreja num domingo de manhã
não sobrava nem o padre pra Cristo.
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Por que todo fiel tem cara de tantã?
Maria engravidou da forma mais difícil,
nem porisso deixei de ser seu fã.
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Só um judeu falou-O e disse-O,
Ó Senhor de Maomé, Ogum, Jeová e Tupã,
Teus nomes se espalharam como um vício.
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Pessoa que tem juízo não morre pagã ?
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Antonio Thadeu Wojciechowski e Sérgio Viralobos
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Bilhete azul
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Buda nunca deu mole
embora você rebole
que Deus te perdoe
não é questão de vingança
mas entrar na dança
é ser miolo mole
quem não planta não colhe
quem não ama não olhe
a felicidade dos outros faz mal
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Antonio Thadeu Wojciechowski e Walmor Goes
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Soneto
A meu pai doente
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Para onde fores, pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas…
Tu, para amenizar as dores tuas,
Eu, para amenizar as minhas dores!
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Que coisa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!
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Magoaram-te, mais Pai?! Que mão sombria,
Indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!
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- Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!
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Augusto dos Anjos
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Na oração que desaterra… aterra
Quer Deus que a quem está o cuidado…dado
Pregue que a vida é emprestado…estado
Mistérios mil que desenterra…enterra
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Quem não cuida de si, que é terra….erra
Que o Alto Rei, por afamado…amado
E quem lhe assiste o desvelado…lado
Da morte ao ar não desaferra…aferra
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Quem do mundo a mortal loucura…cura
A vontade de Deus sagrada…agrada
Firmar-lhe a vida em atadura…dura
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Ó, voz zelosa, que dobrada…brada
Já sei que da formosura…usura
Será no fim dessa jornada…nada
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Gregório de Matos
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sim, havia um deus
ao meu lado
e era surdo
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e eu ajoelhado
querendo lhe dizer tudo
mas fiquei completamente mudo
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thadeu w
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•16/11/2009 • Deixe um comentário

•14/11/2009 • Deixe um comentário

Domingo!
Dia 15 no Menina da Colina
Início às 15 h e encerramento 21 h
Rua Nilo Peçanha, 3625
(próximo à Opera de Arame)
Entrada: R$ 7,00
•13/11/2009 • Deixe um comentário
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O Rodrigo Ponts foi embora desta pra melhor muito cedo. Mas tive o grande prazer de conviver com ele alguns belos momentos. Gosto de oferecer, a quem merece, as flores em vida. Foram muitas gargalhadas e, também, com o agravamento da doença dele e consequente morte, muitas lágrimas. Esse lançamento tem um grande significado para mim, conto com a presença de todos os amigos.
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Antonio Thadeu Wojciechowski
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•11/11/2009 • 4 Comentários
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Saboro Nossuco e seu inseparável cigarrinho.
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- Mestre, por que fumas, se sabes que o cigarro vai te matar?
- Quando?
- Morres um pouco toda vez que fumas.
- Não diga!!
- Estou falando a verdade, mestre.
- Então já estou morto e não sabia.
- Estás brincando com coisa séria.
- Provavelmente.
- E não te sentes mal fazendo isso?
- Quem poderá dizer?
- Tu, ora bolas!!!
- Por que logo eu?
- Porque já estás acendendo outro.
- Não percebi.
- Ou estás louco ou és um ignorante de marca maior.
- Prefiro ser como eu sou.
- E como és?
- Bem do jeito que tu não estás vendo.
- Mas o que eu não vejo fuma e isso faz mal, mestre!
- Estás vendo? Bem que te avisei!
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Saboro Nossuco
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Ei, você, aí, me dá um cigarro aí.
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“Escarrar de um abismo em outro abismo
mandando ao céu o fumo de um cigarro,
há mais filosofia neste escarro
do que em toda moral do cristianismo.”
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Augusto dos Anjos
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Se tem uma indústria que tem um faturamento de morte é a do cigarro. Com ou sem filtro, com as mais diversas graduações de alcatrão e nicotina, o cigarro já fez muito neguinho, branquinho, amarelinho e vermelhinho virar fumaça. Eu já me sinto bem mais leve, mas ainda estou quase vivo. Pelo menos, acredito que sim.
Tenho um cunhado, um dos melhores pneumologistas do Brasil, o
Dr. Jairo Sponholz, que só falta me dar tiros quando me vê com um cigarro na mão. Bem, convenhamos, morrer, neste caso, seria bem mais rápido.
Dizem que o cigarro mata lentamente, mas alguém aí está com pressa? Um compositor que não lembro o nome no momento, cantava: “quem não fuma quem não bebe que alegria pode ter?”. Morreu já faz algum tempo, mas a causa mortis foi frieira no dedão do pé esquerdo.
O Leminski e o Marcos Prado fumavam que nem dois condenados. Eu, o Roberto Prado, o Edílson, o Magoo, o Marcelo, comemos com farinha e baforamos como sapo índio. O Solda está noutra. Um dia, lá pelos anos 90, eu e o Sérgio Viralobos, que não fuma, fizemos as contas de quantos cigarros eu já havia fumado. O total girou em torno de 380.250 cigarros. De lá pra cá, perdi a conta. Mas do poema fiz música de carnaval, gravada pelo Maxixe Machine, no CD Folias de Momo.
Agora, falando sério, tem coisa melhor do que um cigarrinho depois de um café, junto com a cervejinha ou depois de um sexo animal? Pode até ter, mas ainda não cheguei lá. E acho que nem vou chegar porque devo morrer de câncer, enfisema, problemas circulatórios, envenenado como um rato, sem um pedaço da perna, sem dentes, careca ou, pior ainda, impotente. Ai ai ai, acho que amanhã mesmo começo a parar de fumar. O cigarro é uma tema freqüente em nossas músicas, aí vão algumas letras que causam tudo aquilo que está nas fotos nos maços de cigarro.
Ou mais.
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Antonio Thadeu Wojciechowski
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arvorada ou o admirável fumo novo
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plantei déis arquere
de fumo do bão
os pé cresceu
que nem os pé de feijão do joão
a roça ficou uma maravia
eu moiava de noite
eu oiava de dia
não pus espantaio
porque os passarinho
ficaram tudo nos gaio
admirando
admirando
admirando
admirando
.
.Antonio Thadeu Wojciechowski, Édson de Vulcanis,
Edílson del Grossi e Ubiratan Oliveira
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bolero lero
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cada vez que tu me miras
com sus ojos sujos de baton
berrante terete
treamo mas
jo soy un borracho fumegante
à espera de una amante
caliente terete
treamo mas
neste cais que é a vida
companheiro de bar
não fique a ver navios
pois Curitiba não tem mar
não adianta se matar
e nem cortar o seu pescoço
todo galho ou enrosco
é deus que está conosco
.
Antonio Thadeu Wojciechowski, Luiz Antonio Ferreira,
Renato Quege, Rodrigo Barros e Walmor Goes
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diário de uma ninfeta prostituída
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desde o princípio da humanidade
os homens corrompem as menininhas
em troca de bebida, comida
e queimadura de cigarro
eles chegam em carros possantes
sapato branco reluzente
charutos jamaica, chapéu panamá
e champagnes espoucantes
os que vêm para os prazeres da carne
têm à mão um baby beef
uma garrafa de Arak
e uma carteira de free
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Alessandro Wojciechowski, Antonio Thadeu Wojciechowski,
Edson de Vulcanis e Marcos Prado
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eu não vou ter amigos aos 40
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meus amigos bebem demais
meus amigos fumam demais
meus amigos falam demais
meus amigos brigam demais
meus amigos morrem demais
do jeito que tudo vai
eu vou ficar
na cidade sem cachorro
bebendo sozinho
fumando sozinho
falando sozinho
brigando sozinho
morrendo sozinho
minha cabeça não agüenta
um por um indo pro saco
rezando prum deus babaco
eu chego sozinho aos 40
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Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado
.
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fã de fandango
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ai que saudades tenho da baía de Paranaguá
na festa da tainha eu sempre estava lá
olhando aquela água verde até ficar azul
cego por cem sóis vermelhos me guiava o vento sul
tamancos batem no chão
fandango é a nossa canção
pinga de banana na cabeça
fumo caiçara na mão
estou adiantando as horas pra voltar pra lá
tem barco me esperando em Paranaguá
pisando na areia branca fica tudo azul
enfuna as velas do veleiro, me leva, vento sul
tamancos batem no chão
fandango é a nossa canção
pinga de banana na cabeça
fumo caiçara na mão
.
Antonio Thadeu Wojciechowski, Edílson Del Grossi,
Walmor Góes e Ubiratan Oliveira
.
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Levando fumo
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quando eu morrer não quero choro nem oração
quero pacotes de hollywood
pra levar muito fumo no caixão
serrei até estourar a caixa toráxica
o escarro e o pigarro eram a tática
pro meu pulmão não se esparramar pelo chão
cigarro de xepas do cinzeiro eu fi-lo
traguei paióva, bituca e matarrato a quilo
equivalo a um quarteirão de nicotina e alcatrão
já enrolei tabaco pra mais de metro
se enfizema fizesse rei, eu tinha coroa e cetro
recordista filão, quebro a marca do milhão
há tosse e sinais defumantes em meu corpinho
alvéolos, brônquios, pleuras, não passam de toucinho
baforo no caixão, resoluto, meu último charuto
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Antonio Thadeu Wojciechowski e Rodrigo Barros
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nível de periculosidade
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quanto uma bactéria pode ser nociva?
esta mariposa por quanto tempo continuará viva?
o conhaque vai acabar
e isto me entristece um pouco
quanto tempo viverei neste bar
até estar morto?
70 cigarros por dia é mortal?
será que hoje é natal?
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Antonio Thadeu Wojciechowski e Marcos Prado
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o cigarro está me matando de saudade
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anteontem no ano passado
meu dedo estava amarelado
preciso de um vício novo
bombom, caracu com ovo
bingo, corrida de cachorro louco
ai que saudades da minha querida nicotina
e do meu velho e bom arcatrão
e da porvinha do paperzinho que fazia
catarrinho, cosquinha no meu purmão
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Antonio Thadeu Wojciechowski, José Alberto Trindade,
Márcio Goedert e Rodrigo Barros
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samba do meu ranchão
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estava andando pela rua numa noite
quando meu mundo caiu
astros me pisavam distraídos
indiferente o chão fugiu de mim
se essa rua, se essa rua fosse minha
eu andava contramão
paralelepípedos uni-vos
pra eu voltar a ter os pés no chão
se você pensa que vai fazer de mim
o que faz com os carlões por aí
acorda, maria bonita, cachaça não é água não
já fumei mais de um maço e meio
pode vir firme que eu estou tremendo
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Antonio Thadeu Wojciechowski, José Alberto Trindade, Rodrigo Barros, Magoo, Walmor Góes e Ubiratan Oliveira
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sete palmos abaixo da terra de marlboro
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380.250 cigarros depois
resolvi tomar uma atitude
nada de entregar pulmão para ciência
só há um jeito de ir atrás do prejuízo
apresentar os meus raio-x
para uma junta de advogados
agora quero 5 milhões e mais nada
vai ser um raro prazer queimar essa bufunfa
de dentro da tenda de oxigênio
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Antonio Thadeu Wojciechowski e Sérgio Viralobos
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•11/11/2009 • Deixe um comentário

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Eu e meu filho Alessandro, no vale do Rio São Francisco em Pernambuco, domingo passado.
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ao primo gosto
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de deuses e seus mitos, esculpi minha alma,
nela incrustei palavras, flechas em meu próprio
calcanhar; a olho nu cobrei medusa e, próximo
de alcançar a glória, vi, do efeito à causa,
a trajetória vã da mortal ilusão,
que nem bem nasce e já se empedra pelo chão.
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viver em curitiba e não ter nenhum mar
dos sete que carregam as placas tectônicas
pra lá e pra cá, em fogos e explosões atômicas.
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morrer em curitiba, sentado no bar
à espera de uma rima inédita e, loquaz,
desafiar um deus: “desça, se for capaz!”
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ou nem isso ou aquilo, apenas ser do mundo
uma voz entre o céu e o abismo mais profundo
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Thadeu W
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•11/11/2009 • Deixe um comentário

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Edílson, Clarah Averbuck e Thadeu, nem espaguês nem portunhol, o Ademir está escondido sussurrando versos em esperanto. Foto do Xunda.
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Eu, Marcos Prado, Edílson de Grossi, Edson de Vulcanis e Walmor Góes, lá pelos anos 80, passamos algumas noites muito divertidas, compondo em uma língua que misturava palavras em português e espanhol e até mesclando algumas, criando uma terceira, mas perfeitamente compreensível para quem fala português ou espanhol.
Creio que são umas 15 canções ou um pouco mais, não lembro de todas. Algumas foram gravadas no CD “Nosotros que Somos Nós Mismos”, pelo Carlos Careqa junto com o Maxixe Machine. Agora, nos dias 13 e 14 de novembro, no TEATRO PAIOL, eles vão dar continuidade a esse projeto iniciado em 2005, gravando e filmando uma nova safra de canções para disponibilizar na internet depois. Será um show cheio de graça e ficará melhor ainda se estivermos todos lá.
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Hasta la y que vuelvam los que jamás fueram!
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Polaco da Barreirinha
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•11/11/2009 • Deixe um comentário
Rodolfo by Albert Nane
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Caros amigos e amigas,
estou reativando o meu blog www.lampejos.wordpress.com.
Quando o criei, há alguns meses, meu objetivo era comentar, ainda que de modo passageiro e sem maiores pretensões, a poesia que está próxima de nós, que é nossa contemporânea. O objetivo é delinear – se persisto na idéia – algum cenário poético, dando ênfase aos poetas aqui da nossa terra.
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Abç,
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Rodolfo
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•03/11/2009 • 1 Comentário

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Inté logo mais.
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“Queria o que, melzinho na chupeta, amor?
Chupe o cu daquela abelha ali, por favor!”
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Como dizia o Barão de Itararé
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na vida tudo é passageiro
menos o motorista
e o cobrador
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e eu me sinto mais passageiro do nunca, ultimamente. Depois de rodar 3 estados e 14 cidades, lá vou eu de novo para mais uma volta ao mundo. Nem tanto, nem tanto, apenas uma viagem até Petrolina em Pernambuco, estado onde nasceu Nelson Rodrigues. Sei que vou ficar feliz só de pisar o chão onde nasceu este gênio, este grande poeta, um dos maiores do Brasil e do mundo. A dor por deixá-los já me aperta os calos, mas deixo estas pérolas abaixo que eu e o Roberto Prado desencavamos há quase uma década. Não deixem também de clicar nos links ao lado.
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Até a volta.
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Polaco da Barreirinha
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•03/11/2009 • 2 Comentários

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Dor
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pelo som risal
indícios de melhoral
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( Thadeu W )
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Um homem com sapiência de outro mundo nos ensinou que 99% de nosso sofrimento é perder tempo e felicidade sofrendo de véspera, imaginando desgraceiras que jamais vão acontecer. Eis aí, com vocês, a dor: um aviso de que aquilo que hoje somos e fazemos ainda está entalado na garganta de Deus. Todos disfarçam como podem, mas sabem exatamente onde aperta o calo. No entanto insistimos em querer ficar só no sapatinho. Existe pior dor do que ver a dor do próximo e não saber fazer nada além de sentir muito? A individualidade de nossa dor vem de uma multidão de erros. Talvez seja por isso que viver dói. E como dói. Dor aguda, dor crônica, doendo até cansar. Mamãe e papai têm razão de dizer que certas dores não dóem nada: tombo, corte, queimadura, arranhão, pancada, entorse, quebradura, ui ui uis e outros ai ai ais. Mas você só vai entender depois, quando sente um sofrimento que não tem causa física visível. Dor pode se manifestar sozinha ou vir em manada, atropelando o infeliz. Afinal, dizem os antigos, em sua dolorida sabedoria, que a grande dor cai sempre sobre o sofredor maior. Tem alminha apenada que gosta de sofrer. A que sofre de “amor”, por exemplo, transforma o ego machucado em dor numerosa que, expandida ao infinito, ainda dói além. É a dor na qual o cérebro fala pelos cotovelos feridos. Dizem que os humanos do sexo masculino não sabem o que é a dor de verdade, a famosa dor do parto. Nascer dói? Por outro lado, dizem os espíritos, morrer não dói nada. Aqui, pra nós, tudo faz dodói. Tem sofredor radical que, diante de uma maravilha, morre de dor por saber que ela vai acabar. As mulheres que nos perdoem, mas o que mais dói, de verdade mesmo, nesta vida, ainda, é a nossa burrice. Portanto, doa a quem doer, vamos ter de aprender a ver com outros olhos a dor alheia. Alheia?
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Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado
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Esse incrível Leminski e sua dor maravilhosa
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um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chagando atrasado
andasse mais adiante
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carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisas que os valha
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ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser a minha última obra
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Paulo Leminski (1944-1989)
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Isso é dor
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para o pernilongo
também a noite é longa
longa e solitária
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Kobayashi Issa (1763-1827)
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Elegia sobre a morte de Gandhi
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Aqui se detêm as sereias azuis e os cavalos de asas.
Aqui renuncio às flores alegres do meu íntimo sonho.
Eis os jornais desdobrados ao vento em cada esquina:
“Assassinado quando abençoava o povo.”
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Cecília Meireles (1901-1964)
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Oferta a Maiakóvski
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Perdão, Vladimir,
a tua irmã se feriu no dedo.
Para mim todas as dores têm tamanho.
Experimenta se as minhas mãos são leves
para fazer um penso.
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Jorge de Lima (1893-1953)
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Dores São Marcos
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isso que o que chamam de amor vem
e quando vem não convém fugir
não convém destruir
nem se arrepender também
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há os que procuram e acham
metendo o amor em qualquer buraco
outros capotam de paixão
e ainda os que são maus de taco
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existem os que imitam o seu destino
os galinhas-mortas-de-despacho
tudo banha do mesmo tacho
que arrotam grosso e falam fino
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os sofredores têm preferências várias:
uns querem que a dor os afogue em lágrimas
uns querem que a dor se crispe em raiva
uns vêm na dor apenas uma ação nevrálgica
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Marcos Prado (1961-1996)
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O Homem Negro
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Meu amigo, meu amigo,
Estou muito, muito doente.
De onde veio esta dor, nem mesmo eu lembro.
Seria o vento que assobia
No campo árido e deserto,
Ou talvez como os bosques em setembro
O álcool desfolha o meu cérebro?
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Sierguéi Iessiênim (Rússia, 1895-1925)
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Queixas noturnas
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Quem foi que viu a minha dor chorando?!
Saio. Minh’alma sai agoniada.
Andam monstros sombrios pela estrada
E pela estrada, entre estes monstros, ando!
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Não trago sobre a túnica fingida
As insígnias medonhas do infeliz
Como os falsos mendigos de Paris
na atra rua de Santa Margarida.
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O quadro de aflições que me consomem
O próprio Pedro Américo não pinta…
Para pintá-lo, era preciso a tinta
Feita de todos os tormentos do homem!
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Augusto dos Anjos (1884-1914)
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Autopsicografia
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O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
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E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
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Fernando Pessoa (1888-1935)
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A grande dor não se assoa.
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Acaba de me ocorrer uma outra verdade:
a grande dor não só não se assoa,
como é humorística.
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A grande dor,
aquela que não tem nenhum consolo terreno,
dança mambo.
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A pessoa pula, chocalha
e tem espasmos
de mambo.
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Nelson Rodrigues (1912-1980)
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A dor no Dalton
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Texto 23 do livro Ah, é?
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Com a morfina seu João esmorece, aliviado.
- Agora está melhor. Chegando o fim.
À sombra da laranjeira trina o canarinho. A velha espia da porta, sem coragem de entrar. Ele geme.
- Puxa, como dói.
Num longo suspiro:
- Agora me vire. Bem deva…
No meio da palavra, se foi. A velha pára o relógio da sala – cinco e dez em ponto. Pintassilgo, canário, sabiá começam a cantar. Bem o velho tinha razão:
- Quando está pra chover eles fazem música.
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Dalton Trevisan
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doa, dor!
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essa dor que me dói
e dói tanto que deus me perdoe
já passou desta pra melhor
sabe-se lá quantas vezes
milênios séculos anos meses
de um dia para outro bem pior
essa dor não quer que eu me doe
até que eu sinta o quanto dói a bondade
de escrever sem dó nem piedade
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Antonio Thadeu Wojciechowski
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A minha dor
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A minha dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas de um requinte escultural.
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Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal.
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias.
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A minha dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!
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Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve…ninguém vê…ninguém…
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Florbela Espanca (1895 – 1930)
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De repentes
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vôos repentinos
poemas
tristes pétalas
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desfaça as malas
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belezas doem
se você quer
levá-las
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Roberto Prado
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Espinho
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Não sei se tiro o espinho
ou cutuco mais a dor
Quem foi o gênio maluco
que inventou o tal amor?
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Não sei se pego meu rumo
ou me arrumo como for
sem saber se tiro o espinho
ou enfio mais a dor
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Não há de ser nada, não
vai passar, diz o amigo
Imagine o que então
não dirão os inimigos
da tua cara de tonto
até gostando da dor
em vez de tirar o espinho
só tirar o espinho e pronto
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Nem sei como tiro o espinho
se tiro bem devagar
ou tiro devagarinho
vendo a dor me deixar
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Não sei se tiro o espinho
não sei se vou agüentar
a falta da minha dor
em troca do teu carinho
Quem foi o gênio maluco
que inventou o tal amor?
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Domingos Pellegrini Jr.
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•30/10/2009 • Deixe um comentário
Tanka 19/07/1997 – 04/08/2009.
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luz canina
se apagou
como ainda me ilumina?
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Saudade
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Perdi-me dentro de mim/ Porque eu era labirinto,/ E hoje, quando me sinto,/ É com saudades de mim.
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Mário de Sá Carneiro (1890-1916)
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Meus oito anos
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Oh! Que saudades que tenho/ Da aurora da minha vida,/ Da minha infância querida/ Que os anos não trazem mais!/ Que amor, que sonhos, que flores,/ Naquelas tardes fagueiras/ À sombra das bananeiras,/Debaixo dos laranjais!
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Casimiro de Abreu (1839-1860)
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Eis aí uma coisa que você só tem quando não tem. E vem quando você vai do presente para algum lugar do passado. Um saudoso poeta nos disse, um dia desses, que tinha saudades do futuro. Isso é fácil de entender, é só ver o caos, a ladroagem, a deselegância e predação que hoje infestam a Terra. Mas o tempo vai passar e muita gente vai acabar sentindo saudades e dizendo “bons tempos aqueles”. Uma só pazada de saudade enterra mais de um. E “morrer de saudades” não é só maneira de dizer. “Banzo” foi o nome da doença da saudade que entre os escravos fez muitos estragos, no Brasil colonial, quando enlouqueceu e matou milhares deles. Nos EUA, o mesmo banzo deu origem ao rhythm-and-blues, que gerou os vários rocks, que também são de morte. O “spleen” era a nostalgia importada pelos ultra-românticos brasileiros e que matava de tuberculose antes dos poetas terem do que sentir saudades de verdade. Que saudades dá da professorinha do Ataulfo Alves quando escutamos as letras de música que estão na mídia de hoje em dia, onde “saudade” virou sinônimo de desilusão amorosa infanto-juvenil em seu estado mais bruto. Por não ter tradução em outros idiomas, a palavra saudade é só do Brasil e de nós, pobres brasileiros que, talvez por isso mesmo, sempre ficamos mesmo na saudade.
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Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado
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enquanto o quando não vem
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quando teus olhos
retornarem
eu quero a impressão
de tuas estrelas
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em minha mão
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quando teus ouvidos
regressarem
eu quero a intenção
de minhas estrelas
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em tua mão
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quando teus lábios
falarem
com os meus
eu quero a constelação
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uma única estrela
em nossa mão
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Antonio Thadeu Wojciechowski
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Uma saudade a la Paulo Leminski
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tão longe eu lhe disse até logo
um pouco de tudo passou-se outra vez
e foi uma vez toda feita de jogos
aquela outra vez que não soube ser vez
pois voltou e voltou e voltou
sem saber que de duas uma
nunca são três
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Paulo Leminski ( 1944-1989)
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saudades da lancheira
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onde andam vocês, bolachas maria ?
amiguinhos toddys
cream crackers piraquê
por que me abandonaram ?
venham, duchens
voltem, zequinhas
bidu-cola, crush e mirinda
apareçam antes que eu morra pela boca cheia de formiga
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Marcos Prado e Édson de Vulcanis
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Saudade do Chapéu
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meu chapéu dormiu triste
ouvindo Cartola
acho que o Cardoso ainda existe
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(Obs.: Alberto Cardoso: poeta falecido em 1994 e que, como Marcos, usava chapéu)
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Marcos Prado (1961-1996)
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20 anos em 2 fragmentos de saudade
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Poema de 1999
(…)
Causar saudade é próprio de quem parte
para viver além deste mundo
ou no Alto da Glória esconder-se,
onde sua poesia é mensagem de marte
que apesar do traço fecundo
em vão aspira com a vida entender-se.
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Poema de 1979
(…)
menos que foi
mais que é
mais que menos que foi
nada mais
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Roberto J. Bittencourt
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Saudade Rastafari
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Jah, rei dos reis e de todos os reinos
Jah criou e fez nossos caminhos
o homem branco chegou
e me levou embora da minha terra querida
me levou para uma terra de exílio
e tirou de mim até minha alma
não vou mais cantar canção nenhuma
nesta terra medonha
e se eu quiser esquecer esta agonia
é melhor esquecer que vim pra cá
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Canção foclórica da Jamaica
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(Versão de Luís Antônio Solda)
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o que tanto você lembra?
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Lembra? Claro que lembra, era aquela,
aquela mesmo, lembrou?
Ah! Não!
Vai dizer que esqueceu
justo aquela uma
que praticamente a gente morou?
Aquela uma lá, que representa o tipo
de uma estradinha,
aquela lá lá, perto do armazém da Dona Coisinha,
logo ali,
que antes era tão longe.
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Roberto Prado
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Acalanto para as mães que perderam o seu menino
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Dorme, dorme, dorme…
Quem te alisa a testa
Não é Malatesta,
Nem Pantagruel
- O poeta enorme.
Quem te alisa a testa
É aquele que vive
Sempre adolescente
Nos oásis mais frescos
De tua lembrança.
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Dorme, ele te nina.
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Te nina,. te conta
Sabes como é –
Te conta a experiência
Do vário passado,
Das várias idades.
Te oferece a aurora
Do primeiro riso.
Te oferece o esmalte
Do primeiro dente.
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A dor passará,
Como antigamente
Quando ele chegava.
Dorme…Ele te nina
Como se hoje fosses
A sua menina.
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Manuel Bandeira (1886-1968)
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Confidência do Itabirano
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(…)
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói.
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Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
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Maikóvski: uma saudade aos pedaços
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Uma da madruga, você deve estar na cama.
Daqui, a Via Láctea é um rio de prata.
Não tenho pressa. Para que acordá-la
com o relâmpago de mais um telegrama?
Como se diz: o caso está encerrado.
A canoa do amor encalhou no cotidiano.
Estamos quites, inútil o apanhado.
Da mútua dor, mútua cota de dano.
Vê como tudo agora emudeceu?
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu!
Em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos, a história, o universo.
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Wladímir Maiakóvski
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Que saudade de Emily Dickinson!
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Tive uma Jóia nos meus dedos
E adormeci.
Quente era o dia, tédio os ventos.
“- É minha”, eu disse.
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Acordo e os meus honestos dedos
(Foi-se a gema) censuro.
Uma saudade de ametista
É o que possuo.
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Emily Dickinson ( EUA, 1830-1886)
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Saudade por Dalton Trevisan
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61 do livro 234.
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Saudade. O aperto da mão de uma sombra na parede.
.
104 do livro 234.
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Velho: uma caneca trincada de louça, o nome Saudade quase apagado.
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Infância
,
Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se “Agora”.
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Guilherme de Almeida (1890-1969)
,
,
faz falta
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está faltando uma música na minha vida
aquela que o Hendrix ia compor
mas viajou no barbitúrico
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está faltando uma orelha em algum lugar
talvez seja uma pincelada de van gogh
dando as tintas para o magoo*
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está faltando um poema na minha boca
mas meus dedos mordem a caneta
e só de ouvirem queixa levam a mão ao berro
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está faltando vergonha na minha cara
e continuo achando que a culpa é dos outros
e ninguém tem nada com isso
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está faltando dinheiro na minha conta
alguém anda gastando o que não tenho
e ainda cobra caro pelo serviço
.
está faltando uma palavra neste poema
uma que diga a que veio antes de partir ao meio
essa sensação de que alguma coisa me falta
.
* Magoo – admirável criador, pintor, designer de Curitiba
.
thadeu w
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