batistanews-004

,

VALE A PENA LER DE NOVO.

Polaco da Barreirinha entrevista Batista de Pilar.

.

Batista de Pilar, conte um pouco de sua história e de suas origens para os leitores do Polaco da Barreirinha.

.

Nasci em Dois Vizinhos, estado do Paraná, em 1960, e fui registrado em Santa Izabel do Oeste, também no Paraná, mas me criei em Palma Sola, Santa Catarina. Onde fiz os primeiros estudos, o ginásio, na Escola Básica Professor Cândido Abdon Goulart e o segundo grau no Colégio Monteiro Lobato.

.

E quando surgem os primeiros indícios de que vc seria um escritor, um poeta?

.

A vida tem uma sina. Na terceira série do primeiro grau, teve um jogral, no dia da árvore, onde eu e vários colegas representamos o papel de espécies nativas. Um era bambu, outro era canela, eu era o guatambu. Os versos que eu dizia eram assim: “ nas mãos sempre crio calos /direitos como bambu/ ajudo a rasgar os valos/ o meu nome é guatambu”. E um piá começou a me chamar de Guatambu e ficou. Lá em Palma só me conhecem por Guata ou Guatambu. Ninguém me chama por João Antonio Batista de Pilar. Meu nome ficou esquecido (rsrsrs). Mas daqueles versos eu nunca esqueci.

.

Quando vc começou a escrever os primeiros versos?

.

Eu lembro que vim para Curitiba, em 1979. E aqui aconteceu uma história muito estranha comigo. Veja, eu trabalhava no mato, cortava toras de madeira com a motosserra ajudando o meu finado pai. Trabalhei numa madeireira, me criei na enxada, sempre trabalhei no pesado. Eu nunca tive posses, e minha renda também nunca foi boa. Cheguei em Curitiba, rapidinho, acabou minha grana. Arrumei uma pesquisa no IPUC, durante 4 dias, e fui morar na favela do Parolin. Um dia a polícia deu uma batida lá e eu falei para o policial que fazia pesquisa para o IPUC. O cara retrucou e perguntou se eu fazia pesquisa com lanterna de pilha. Ou seja me chamou de ladrão, né? (rsrs) Mas eu não fiquei quieto e falei: “Não, seo moço, eu estou aqui porque mesmo tendo o segundo grau fui obrigado a vir pra cá”. Acabei contando pra ele que eu ajudava o pessoal da favela a empurrar o carrinho morro acima, só não saía junto pra catar papel. Ali nasceu um dos meus primeiros poemas “Carro-Papel-Homem”. Mas eu resolvi ir à luta e um dia passando na frente do colégio Positivo, pensando o que ia fazer da minha vida, morando na favela, sem dinheiro pro ônibus. Eu, naquela época, não sabia nem pedir. Mas entrei no colégio, criei coragem e fui falar com o diretor. Ele me atendeu muito bem e perguntou que curso eu ia fazer. Aí eu expliquei pra ele toda a minha situação e me ofereci para apagar quadros, varrer salas, enfim, qualquer coisa. Thadeu, o cara na hora me deu uma bolsa de estudos por um ano, vc acredita? Eu saí dali não acreditando no que tinha acontecido.Arrumei um trabalho no Restaurante Franciscano, no Largo da Ordem, onde se realiza a Feira do Poeta e está a livraria Dario Velloso. Aí eu conheci uma cara de Francisco Beltrão, que me deu a dica de que na Casa do Estudante Universitário, com 20% do salário mínimo, eu poderia morar e ter café, almoço e jantar. Só não tinha roupa lavada. Arrumei dinheiro emprestado, paguei e fui morar na CEU. Veja como são as coisas: da favela do Parolim para o colégio Positivo e para a CEU (rsrsrs).

.

“o carro do catador de papel

desfila pela rua colorida

e um caminhar lento

catando o papel da vida”

.

É triste, né, Thadeu? Mas ria, ria cem vezes por dia, ria da própria anarquia. (rsrsrs). O poeta não se descobre, ele é. Vc pode ficar um ano ou dois ou mais até sem fazer um verso, mas vc é poeta. É um dom que vc tem ou não tem. Não tem jeito, nasce feito. Não precisa de mestrado, pós-graduação, isso e aquilo, basta ser criativo. Veja a Efigênia por exemplo, ela é simples, muito simples, mas é poeta. Ela cata papel de bala, faz as poesias dela e tem uma barraquinha na Feira do Artesanato ao lado do Hélio Leites, meu grande amigo e amigo de todos os botões. Os poetas nascem poetas.A poesia é um dom sagrado e é com ele que eu vivo.

.

Se você pudesse resumir em uma frase a resposta para a pergunta “Por que vc escreve?”, o que vc diria?

.

Eu escrevo porque eu amo a vida.

.

A vida é tua musa então?

.

Veja, eu leio jornais, eu acompanho o que acontece no mundo, porque, quando eu escrevo, eu penso que tenho que vender aquilo, pois disso depende a minha sobrevivência. As pessoas têm que entender o que escrevo, sentir o que estou sentindo, daí elas compram. E compram porque sabem que essa é a minha vida. Já saíram vários poemas meus em diversos jornais, mas ninguém paga nada. Eu, mesmo na minha condição, tenho que ser colaborador. Só me resta então chegar nas mesas de bares e restaurantes e vender o que eu produzo. É meu ganha pão. Vou de mesa em mesa, alguns rejeitam; outros, aceitam e contribuem espontaneamente. É por isso que te disse que eu amo a vida, porque se vc não tem amor, não consegue escrever. Veja o exemplo do meu grande amigo Marcos Prado, que foi embora cedo demais, ele era meu amigo assim como eu sou teu amigo, ele era um cara que batalhava pela poesia, tudo que escrevia tinha fundamento, a poesia dele é muito bonita, diz a realidade das coisas, como um poeta precisa fazer. Eu escrevi um poema que diz assim:

.

“não sei escrever poema pra convite

se for uma merda, que morra

se for uma jóia, que fique”

.

E o que vc tem a dizer sobre os órgãos ligados à cultura?

.

Eu não puxo o saco de ninguém. Esses caras que estão no poder da Cultura, indicados pelos políticos, ficam ali durante 4 anos, mas depois quando saem não são mais nada. Eles me encontram e sabem que eu sou poeta, continuo poeta e serei sempre poeta. E contra isso eles não podem fazer absolutamente nada. Mas quando eles estão no cargo, se enchem de razão e querem mandar na gente. E o pior é que mandam. (rsrsrs)

.

O que é que te dá mais raiva na vida?

.

Não ter grana.

.

E o que te dá mais prazer?

.

Vou te responder com um poema:

“de que vale a fama sem grana

é o mesmo que olhar o pasto

e não poder comer a grama”

.

A vida é bonita, sendo pobre ou sendo rico, vc vai comer e ir ao banheiro. A diferença é que o papel higiênico do rico é perfumado, tem textura de pétala e é bem mais caro, né? (rsrsrs). O meu é baratinho, mas, no fim das contas, tudo é a mesma merda.

Anúncios

~ por polacodabarreirinha em 11/06/2009.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: