verlaine

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ARTE POÉTICA

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Antes de tudo, a Música. Preza

Portanto o ímpar. Só cabe usar

O que é mais vago e solúvel no ar,

Sem nada em si que pousa ou que pesa.

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Pesar palavras será preciso,

Mas com algum desdém pela pinça:

Nada melhor do que a canção cinza

Onde o Indeciso se une ao Preciso.

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Uns belos olhos atrás do véu,

O lusco-fusco no meio-dia

A turba azul de estrelas que estria

O outono agônico pelo céu!

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Pois a Nuance é que leva a palma,

Nada de cor, somente a nuance!

Nuance, só, que nos afiance

O sonho ao sonho e a flauta na alma!

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Foge do chiste, a Farpa mesquinha,

Frase de espírito, Riso alvar,

Que o olho do Azul faz lacrimejar,

Alho plebeu de baixa cozinha!

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A eloqüência? Torce-lhe o pescoço!

E convém empregar de uma vez

A rima com certa sensatez

Ou vamos todos parar no fosso!

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Quem nos dirá dos males da rima!

Que surdo absurdo ou que negro louco

Forjou em jóia este toco oco

Que soa falso e vil sob a lima?

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Música ainda e eternamente!

Que teu verso seja o vôo alto

Que se desprende da alma no salto

Pra outros céus e para outra mente.

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Que teu verso seja a aventura

Esparsa ao árdego ar da manhã

Que enche de aroma o timo e a hortelã…

E todo o resto é literatura.

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PAUL-MARIE VERLAINE

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Por Augusto de Campos

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~ por polacodabarreirinha em 17/07/2009.

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