buenocaonosso

 

 Realizei, há algum tempo, para a editora Planeta, um trabalho curioso em todos os sentidos: o abrasileiramento de um mais que castiço texto lusitano, o da novela Cão de Nós, do escritor Manuel Alegre, que, por imbróglios contratuais com o autor, acabou não sendo publicado pela multinacional espanhola no Brasil.

Só para se ter uma leve idéia da popularidade que ganhou o tema, sobretudo depois de Marley & eu, do americano John Grogan, o livro de Alegre vendeu, apenas em Portugal, na primeira semana do lançamento, nada menos do que 70 mil exemplares. Tinha tudo para repetir aqui a proeza.

Numa quase indecifrável versão lisboeta, que acho consegui “traduzir” ao português brasileiro, trata-se de mais uma hilária ficção sobre cachorros, cachorrices e cachorradas. Um assunto que já ganhou até mesmo os países árabes, este de cães que só faltam falar, a interagir com seus donos feito filhos, ou, digamos, enteados, ou melhor, afilhados, isto para não comprometer a senhora sua esposa, limitando-a, assim, aqui, apenas a madrinha do bicho…

O fato é que cachorro quase nunca sai de moda. Sejam os que, por marketing ou carência nesses tempos bicudos (ou jaguaras…) se converteram em best-sellers literários, ou, por sua vez, aqueles outros, do sombrio mito grego a nos jogar ao fogo da condenação eterna. Um exemplo? O do hórrido Cérbero, o cão de três cabeças que guarda a entrada do Inferno, à beira do fervente Letes.

Há outros, mais poéticos, como o célebre Argos, inscrito por Homero na Odisséia, oito séculos antes de Cristo. Depois de décadas de ausência, momento sublime da narrativa heróica, ao ver Ulisses, Argos não tem tempo sequer de lhe fazer festa – morre. De alegria ou susto.

A propósito, no livro do lusitano Manuel Alegre, tive que interromper muitas vezes o trabalho, tomado por um frouxo de riso. É que o cachorro-protagonista ao fazer festa ao dono, em vez de abanar o rabo, lá estava, na edição original – “O malandrim deixava-se ficar o tempo todo a dar o rabo”. Viche Maria!

O meu saudoso amigo, o escritor João Antônio, genial criador, entre outros, de “Malagueta, Perus e Bacanaço”, cuja obra, aliás, está sendo integralmente relançada pela Cosacnaify, costumava dizer que com o tempo perdemos os cachorros e os sisos… A se consolar da perda de seus cães inolvidáveis. Líla, Kaváfis, Olavito, Buenares…

Quem não teve seu Marley ou seu Argos, seu Topinho (não é mesmo, Dalton Trevisan?), ou seu Gaudí (concordas, José Castello?) atire a primeira pedra. Agora sofro com o poeta Thadeu Wojciechowski, a perda de Tanka, nota tristíssima publicada cá no blog do guevarista mano Solda. De meu lado, muitos foram os cachorros que me passaram pela vida. Nenhum, contudo, como Diego, o doberman que viveu e me assistiu a viver a vida bandalha, por 12 anos, na casinha de madeira da Vila Tingüi, onde compartilhei, não sem delícia, as águas da vida, com meus adoráveis pais e irmão.

Agora é cinza, o inesquecível Diego, do mesmo modo como em cinza se converte o tempo ido e vivido. Digo mais que João Antônio: com o tempo se vão os cachorros, os sisos e uma outra cinza – a das horas. Tudo passa, Thadeu, só não passa a saudade do que vamos perdendo vida afora.

 

Wilson Bueno.

 

Extraído do blog do Solda nosso de cada dia. 

 

 

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~ por polacodabarreirinha em 08/08/2009.

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