sorren

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Solidão

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“Um homem sozinho não tem chance.”

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Ernest Hemingway

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A solidão é grande mas não é duas. Porque se não ela teria companhia. Solidão não é estar só. Solidão é quando não tem ninguém dentro de você. E não estamos aqui falando do vazio zen. A solidão a que nos referimos é aquela que todos sentimos quando o que nos completa está em falta. Solidão não é pra qualquer psicopata ou esquisofrênico. Ela é um tipo de vírus, bactéria, micróbio, sei lá, só sei que quando te pega de jeito só resta chorar. Como bem dizia o poeta “antes solidão do que mal acompanhadão”. Solidão é o que você sente quando você rompe com seus amigos traíras. Ninguém está livre de se encontrar consigo mesmo sozinho na montanha e você estar por baixo. Até Jesus que era Jesus teve que se refugiar no deserto para, livre, das gracinhas e zoeiras de seus apóstolos, poder pensar em Deus. Bodishatawa parou de frente a um muro, fixou o olhar e durante 12 anos, se preparou para uma longa vida de convívios e chateações, neste mundo de 5 bilhões de falsários. Holderlim, um dos grandes poetas alemães, foi mais esperto, se apaixonou pela impossível, só pra depois subir numa torre e passar de papo pro ar o resto da vida, bem guardado por um fiel carroceiro, que dizia para todos os visitantes que era melhor não mexer com o louco. Assim pode reescrever toda a poesia clássica. A maior solidão é a companhia errada: a mulher que não se ama, o amigo que se detesta, o patrão que se prevalece, o policial que abusa do poder. Mas a solidão que mais dói é estar com um ignorante, nos sentindo burros da palavra. No mundo vip do convívio social, quanto mais gente maior a solidão. Ela é diretamente responsável pelos estranhos seres que aparecem na tua cama, mesa e banho. Deus antes de criar o mundo não sentia solidão, depois sim.

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Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado

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solitário

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Como um fantasma que se refugia

Na solidão da natureza morta

Por trás dos ermos túmulos um dia

Eu fui refugiar-me à tua porta

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Fazia frio e o frio que fazia

Não era esse que a carne nos conforta

Cortava assim como em carniçaria

O aço das facas incisivas corta

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Mas tu não vieste ver minha desgraça

E eu saí como quem tudo repele

Velho caixão a carregar destroços

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Levando apenas na tumbal carcaça

O pergaminho singular da pele

E o chocalho fatídico dos ossos!

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Augusto dos Anjos ( 1886-1914)

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redoma à prova de nada

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o ato foi, como direi, exorbitante

onda de espinhos num mar de rosas

crítica não é arma de amante

causam-me alergia as más novas

bastam meus problemas de solução errante

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não fui criado pra enfrentar uma crise

durmo com panos quentes por coberta

a vida não é mais animada por walt disney

ficou esta multidão de estraga-festa

o canto de galo foi o canto de cisne

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Antonio Thadeu Wojciechowski e Sérgio Viralobos

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vencido pelo cansaço

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os dias se foram

você não voltou

a dor que senti

não está no gibi

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corro o dia inteiro

não paro pra pensar

destino tão maneiro

não dá pra acreditar

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a terra onde navega

tão longe assim do mar

pelas barbas do profeta

não dá pra acreditar

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Antonio Thadeu Wojciechowski

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declaração do criminoso na solitária

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Matei minha mulher.

Matei.

O ódio com que a odiava

era maior que o amor que a odiava.

Mas não matei a mãe de meus filhos.

É por isso que o retrato dela está sempre comigo.

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Murilo Mendes (1901-1975)

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solidão sem dor

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“Nenhuma garota apareceu naquela noite, o rádio não tocou nenhuma música legal. Matei todo o garrafão, vomitei na beirada da cama e dormi. Não me senti sozinho, nem muito triste. Na verdade mesmo, não senti nada. Só aquele gosto acre e o velho fantasma querendo sair de dentro do estômago.”

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Mário Bortolotto

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(trecho do Mamãe não Voltou do Supermercado).

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distante de mim

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Eu cá quando escrevo

pra um amigo distante

me sento

me sinto

nostálgico, tanto.

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Quem sabe eu também

quisesse estar

distante de mim.

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Domingos Pellegrini

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menino chorando na noite

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Na noite lenta e morna,

morta noite sem ruído,

um menino chora.

O choro atrás da parede,

a luz atrás da vidraça

perdem-se na sombra dos passos abafados,

das vozes extenuadas,

e, no entanto,

se ouve até o rumor da gota de remédio

caindo na colher.

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Um menino chora na noite,

atrás da parede, atrás da rua,

longe um menino chora,

em outra cidade talvez,

talvez em outro mundo.

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E vejo a mão que levanta a colher,

enquanto a outra sustenta a cabeça

e vejo o fio oleoso

que escorre pelo queixo do menino,

escorre pela rua, escorre pela cidade,

um fio apenas.

E não há mais ninguém no mundo

A não ser esse menino chorando.

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Carlos Drummond de Andrade

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solidão sideral

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daquela estrela até esta outra

a noite é uma camisa de força

em claro adeus à companhia

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solidão desta estrela

à solidão daquela lá

tão longe, tão só

cansa até pra falar

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Antonio Thadeu Wojciechowski

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a solidão

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A solidão sempre aparece com beijos e bombons

A solidão faz visitas regulares a seus amigos íntimos

A solidão procura o inverno em pleno verão

A solidão brinca no mar com seus dedos de açúcar

A solidão vive sorrindo para desconhecidos

A solidão ainda se emociona com filmes antigos na televisão

A solidão a solidão tem olhos escuros, a solidão tem olhos azuis

A solidão tem uma cerca branca com rosas e uma bicicleta

A solidão imagina gueixas cujos olhos são borboletas de vidro

A solidão é uma loucura e arrebata concursos de beleza

A solidão bebe em meu corpo seu próprio desespero

A solidão adora esconde-esconde e amarelinha

A solidão coleciona diários e discos do coltrane

A solidão usa pijamas de bolinhas e óculos quebrados

A solidão depois do sexo ainda se sente sozinha

A solidão e eu somos apenas bons amigos

A solidão corta meus pulsos com uma gilete de sal

depois sai chapada pelas ruas

com uma folha de alface na lapela

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Rodrigo Garcia Lopes

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Minha solidão

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A minha solidão hoje sorriu diferente,

Ela doeu meu choro contido.

A minha solidão foi surpreendente,

Me mostrou o que eu sou quando estou comigo.

Hoje chorei como quem caminha para casa.

Sou aquele cara interessante,

A viver com a solidão ao lado,

A cumprimentar os outros sentimentos de longe.

A me achar bonito nos outros.

A solidão me machucou,

Revelou sua doença de permanecer para sempre nos meus olhos.

A solidão me falou baixinho no ouvido as minhas dúvidas.

A solidão foi cruel esta noite,

Ela me contou o que eu sou nos mínimos detalhes.

Eu não quero isso pra ninguém.

Não façam como eu,

não levem em consideração o que a solidão fala.

A solidão se diz minha amiga,

Mas me faz dormir num lugar sujo

Com um ser humano solitário.

A solidão mora em quem ela quer.

As pessoas não têm a escolha de rejeitá-la.

A solidão come o nosso melhor pedaço,

Espera os outros comerem a carniça da alma.

A solidão não tem calma, lambe o prato até o suco da vontade.

A solidão que eu tenho, não recomendo pra ninguém,

Até por que fui eu quem a criou.

A solidão não demora em narrar o momento.

A solidão causa sofrimento sem querer.

A solidão adulta permanece acordada,

Mesmo quando dormir é inevitável.

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Alexandre França

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olhos da solidão

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estranho

esse sujeito

que vi

na rua

.

não existiria

se eu

não o tivesse

visto

.

engraçado

esse sonho

.

eu só

existir

aos olhos

daquele

sujeito

estranho

.

Marcos Prado

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quitanda dos quintanares

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o poeta silencioso

leva a alma

a passear

pelas alamedas

amarelecidas

.

são fotografias

que o tempo

mastigou as pontas

.

Luiz Antonio Solda

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pérolas

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Buda falou e disse

quando disse

que tudo é ilusão.

Jesus ensinou

que aqui a coisa só anda

a golpes de perdão.

.

Vazio ou cheio,

o caminho de Tao

é mais no meio.

.

Foi aí que me vi sozinho,

com essa chuva de pérolas

batendo no meu focinho.

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Roberto Prado

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~ por polacodabarreirinha em 21/10/2009.

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