thadeuetanka

Tanka 19/07/1997 – 04/08/2009.

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luz canina
se apagou
como ainda me ilumina?

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thadeu wojciechowski.

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Saudade

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Perdi-me dentro de mim/ Porque eu era labirinto,/ E hoje, quando me sinto,/ É com saudades de mim.

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Mário de Sá Carneiro (1890-1916)

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Meus oito anos

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Oh! Que saudades que tenho/ Da aurora da minha vida,/ Da minha infância querida/ Que os anos não trazem mais!/ Que amor, que sonhos, que flores,/ Naquelas tardes fagueiras/ À sombra das bananeiras,/Debaixo dos laranjais!

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Casimiro de Abreu (1839-1860)

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Eis aí uma coisa que você só tem quando não tem. E vem quando você vai do presente para algum lugar do passado. Um saudoso poeta nos disse, um dia desses, que tinha saudades do futuro. Isso é fácil de entender, é só ver o caos, a ladroagem, a deselegância e predação que hoje infestam a Terra. Mas o tempo vai passar e muita gente vai acabar sentindo saudades e dizendo “bons tempos aqueles”. Uma só pazada de saudade enterra mais de um. E “morrer de saudades” não é só maneira de dizer. “Banzo” foi o nome da doença da saudade que entre os escravos fez muitos estragos, no Brasil colonial, quando enlouqueceu e matou milhares deles. Nos EUA, o mesmo banzo deu origem ao rhythm-and-blues, que gerou os vários rocks, que também são de morte. O “spleen” era a nostalgia importada pelos ultra-românticos brasileiros e que matava de tuberculose antes dos poetas terem do que sentir saudades de verdade. Que saudades dá da professorinha do Ataulfo Alves quando escutamos as letras de música que estão na mídia de hoje em dia, onde “saudade” virou sinônimo de desilusão amorosa infanto-juvenil em seu estado mais bruto. Por não ter tradução em outros idiomas, a palavra saudade é só do Brasil e de nós, pobres brasileiros que, talvez por isso mesmo, sempre ficamos mesmo na saudade.

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Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado

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enquanto o quando não vem

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quando teus olhos

retornarem

eu quero a impressão

de tuas estrelas

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em minha mão

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quando teus ouvidos

regressarem

eu quero a intenção

de minhas estrelas

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em tua mão

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quando teus lábios

falarem

com os meus

eu quero a constelação

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uma única estrela

em nossa mão

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Antonio Thadeu Wojciechowski

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Uma saudade a la Paulo Leminski

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tão longe eu lhe disse até logo

um pouco de tudo passou-se outra vez

e foi uma vez toda feita de jogos

aquela outra vez que não soube ser vez

pois voltou e voltou e voltou

sem saber que de duas uma

nunca são três

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Paulo Leminski ( 1944-1989)

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saudades da lancheira

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onde andam vocês, bolachas maria ?

amiguinhos toddys

cream crackers piraquê

por que me abandonaram ?

venham, duchens

voltem, zequinhas

bidu-cola, crush e mirinda

apareçam antes que eu morra pela boca cheia de formiga

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Marcos Prado e Édson de Vulcanis

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Saudade do Chapéu

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meu chapéu dormiu triste

ouvindo Cartola

acho que o Cardoso ainda existe

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(Obs.: Alberto Cardoso: poeta falecido em 1994 e que, como Marcos, usava chapéu)

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Marcos Prado (1961-1996)

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20 anos em 2 fragmentos de saudade

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Poema de 1999

(…)

Causar saudade é próprio de quem parte

para viver além deste mundo

ou no Alto da Glória esconder-se,

onde sua poesia é mensagem de marte

que apesar do traço fecundo

em vão aspira com a vida entender-se.

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Poema de 1979

(…)

menos que foi

mais que é

mais que menos que foi

nada mais

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Roberto J. Bittencourt

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Saudade Rastafari

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Jah, rei dos reis e de todos os reinos

Jah criou e fez nossos caminhos

o homem branco chegou

e me levou embora da minha terra querida

me levou para uma terra de exílio

e tirou de mim até minha alma

não vou mais cantar canção nenhuma

nesta terra medonha

e se eu quiser esquecer esta agonia

é melhor esquecer que vim pra cá

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Canção foclórica da Jamaica

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(Versão de Luís Antônio Solda)

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o que tanto você lembra?

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Lembra? Claro que lembra, era aquela,

aquela mesmo, lembrou?

Ah! Não!

Vai dizer que esqueceu

justo aquela uma

que praticamente a gente morou?

Aquela uma lá, que representa o tipo

de uma estradinha,

aquela lá lá, perto do armazém da Dona Coisinha,

logo ali,

que antes era tão longe.

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Roberto Prado

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Acalanto para as mães que perderam o seu menino

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Dorme, dorme, dorme…

Quem te alisa a testa

Não é Malatesta,

Nem Pantagruel

– O poeta enorme.

Quem te alisa a testa

É aquele que vive

Sempre adolescente

Nos oásis mais frescos

De tua lembrança.

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Dorme, ele te nina.

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Te nina,. te conta

Sabes como é –

Te conta a experiência

Do vário passado,

Das várias idades.

Te oferece a aurora

Do primeiro riso.

Te oferece o esmalte

Do primeiro dente.

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A dor passará,

Como antigamente

Quando ele chegava.

Dorme…Ele te nina

Como se hoje fosses

A sua menina.

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Manuel Bandeira (1886-1968)

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Confidência do Itabirano

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(…)

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.

Hoje sou funcionário público.

Itabira é apenas uma fotografia na parede.

Mas como dói.

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Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

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Maikóvski: uma saudade aos pedaços

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Uma da madruga, você deve estar na cama.

Daqui, a Via Láctea é um rio de prata.

Não tenho pressa. Para que acordá-la

com o relâmpago de mais um telegrama?

Como se diz: o caso está encerrado.

A canoa do amor encalhou no cotidiano.

Estamos quites, inútil o apanhado.

Da mútua dor, mútua cota de dano.

Vê como tudo agora emudeceu?

Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu!

Em horas como esta eu me ergo e converso

com os séculos, a história, o universo.

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Wladímir Maiakóvski

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Que saudade de Emily Dickinson!

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Tive uma Jóia nos meus dedos

E adormeci.

Quente era o dia, tédio os ventos.

“- É minha”, eu disse.

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Acordo e os meus honestos dedos

(Foi-se a gema) censuro.

Uma saudade de ametista

É o que possuo.

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Emily Dickinson ( EUA, 1830-1886)

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Saudade por Dalton Trevisan

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61 do livro 234.

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Saudade. O aperto da mão de uma sombra na parede.

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104 do livro 234.

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Velho: uma caneca trincada de louça, o nome Saudade quase apagado.

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Infância

,

Um gosto de amora

comida com sol. A vida

chamava-se “Agora”.

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Guilherme de Almeida (1890-1969)

,

,

faz falta

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está faltando uma música na minha vida

aquela que o Hendrix ia compor

mas viajou no barbitúrico

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está faltando uma orelha em algum lugar

talvez seja uma pincelada de van gogh

dando as tintas para o magoo*

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está faltando um poema na minha boca

mas meus dedos mordem a caneta

e só de ouvirem queixa levam a mão ao berro

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está faltando vergonha na minha cara

e continuo achando que a culpa é dos outros

e ninguém tem nada com isso

.

está faltando dinheiro na minha conta

alguém anda gastando o que não tenho

e ainda cobra caro pelo serviço

.

está faltando uma palavra neste poema

uma que diga a que veio antes de partir ao meio

essa sensação de que alguma coisa me falta

.

* Magoo – admirável criador, pintor, designer de Curitiba

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thadeu w

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~ por polacodabarreirinha em 30/10/2009.

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