thadeu_buda.0

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Saboro Nossuco e seu inseparável cigarrinho.

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– Mestre, por que fumas, se sabes que o cigarro vai te matar?

– Quando?

– Morres um pouco toda vez que fumas.

– Não diga!!

– Estou falando a verdade, mestre.

– Então já estou morto e não sabia.

– Estás brincando com coisa séria.

– Provavelmente.

– E não te sentes mal fazendo isso?

– Quem poderá dizer?

– Tu, ora bolas!!!

– Por que logo eu?

– Porque já estás acendendo outro.

– Não percebi.

– Ou estás louco ou és um ignorante de marca maior.

– Prefiro ser como eu sou.

– E como és?

– Bem do jeito que tu não estás vendo.

– Mas o que eu não vejo fuma e isso faz mal, mestre!

– Estás vendo? Bem que te avisei!

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Saboro Nossuco

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Ei, você, aí, me dá um cigarro aí.

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“Escarrar de um abismo em outro abismo
mandando ao céu o fumo de um cigarro,
há mais filosofia neste escarro
do que em toda moral do cristianismo.”
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Augusto dos Anjos

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Se tem uma indústria que tem um faturamento de morte é a do cigarro. Com ou sem filtro, com as mais diversas graduações de alcatrão e nicotina, o cigarro já fez muito neguinho, branquinho, amarelinho e vermelhinho virar fumaça. Eu já me sinto bem mais leve, mas ainda estou quase vivo. Pelo menos, acredito que sim.

Tenho um cunhado, um dos melhores pneumologistas do Brasil, o
Dr. Jairo Sponholz, que só falta me dar tiros quando me vê com um cigarro na mão. Bem, convenhamos, morrer, neste caso, seria bem mais rápido.
Dizem que o cigarro mata lentamente, mas alguém aí está com pressa? Um compositor que não lembro o nome no momento, cantava: “quem não fuma quem não bebe que alegria pode ter?”. Morreu já faz algum tempo, mas a causa mortis foi frieira no dedão do pé esquerdo.
O Leminski e o Marcos Prado fumavam que nem dois condenados. Eu, o Roberto Prado, o Edílson, o Magoo, o Marcelo, comemos com farinha e baforamos como sapo índio. O Solda está noutra. Um dia, lá pelos anos 90, eu e o Sérgio Viralobos, que não fuma, fizemos as contas de quantos cigarros eu já havia fumado. O total girou em torno de 380.250 cigarros. De lá pra cá, perdi a conta. Mas do poema fiz música de carnaval, gravada pelo Maxixe Machine, no CD Folias de Momo.
Agora, falando sério, tem coisa melhor do que um cigarrinho depois de um café, junto com a cervejinha ou depois de um sexo animal? Pode até ter, mas ainda não cheguei lá. E acho que nem vou chegar porque devo morrer de câncer, enfisema, problemas circulatórios, envenenado como um rato, sem um pedaço da perna, sem dentes, careca ou, pior ainda, impotente. Ai ai ai, acho que amanhã mesmo começo a parar de fumar. O cigarro é uma tema freqüente em nossas músicas, aí vão algumas letras que causam tudo aquilo que está nas fotos nos maços de cigarro.

Ou mais.
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Antonio Thadeu Wojciechowski

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arvorada ou o admirável fumo novo
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plantei déis arquere
de fumo do bão
os pé cresceu
que nem os pé de feijão do joão

a roça ficou uma maravia
eu moiava de noite
eu oiava de dia

não pus espantaio
porque os passarinho
ficaram tudo nos gaio
admirando
admirando
admirando
admirando

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.Antonio Thadeu Wojciechowski, Édson de Vulcanis,

Edílson del Grossi e Ubiratan Oliveira

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bolero lero
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cada vez que tu me miras
com sus ojos sujos de baton
berrante terete
treamo mas

jo soy un borracho fumegante
à espera de una amante
caliente terete
treamo mas

neste cais que é a vida
companheiro de bar
não fique a ver navios
pois Curitiba não tem mar

não adianta se matar
e nem cortar o seu pescoço
todo galho ou enrosco
é deus que está conosco

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Antonio Thadeu Wojciechowski, Luiz Antonio Ferreira,

Renato Quege, Rodrigo Barros e Walmor Goes
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diário de uma ninfeta prostituída
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desde o princípio da humanidade
os homens corrompem as menininhas
em troca de bebida, comida
e queimadura de cigarro

eles chegam em carros possantes
sapato branco reluzente
charutos jamaica, chapéu panamá
e champagnes espoucantes

os que vêm para os prazeres da carne
têm à mão um baby beef
uma garrafa de Arak
e uma carteira de free

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Alessandro Wojciechowski, Antonio Thadeu Wojciechowski,

Edson de Vulcanis e Marcos Prado

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eu não vou ter amigos aos 40
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meus amigos bebem demais
meus amigos fumam demais
meus amigos falam demais
meus amigos brigam demais
meus amigos morrem demais

do jeito que tudo vai
eu vou ficar
na cidade sem cachorro
bebendo sozinho
fumando sozinho
falando sozinho
brigando sozinho
morrendo sozinho

minha cabeça não agüenta
um por um indo pro saco
rezando prum deus babaco

eu chego sozinho aos 40


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Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado
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fã de fandango
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ai que saudades tenho da baía de Paranaguá
na festa da tainha eu sempre estava lá
olhando aquela água verde até ficar azul
cego por cem sóis vermelhos me guiava o vento sul

tamancos batem no chão
fandango é a nossa canção
pinga de banana na cabeça
fumo caiçara na mão

estou adiantando as horas pra voltar pra lá
tem barco me esperando em Paranaguá
pisando na areia branca fica tudo azul
enfuna as velas do veleiro, me leva, vento sul

tamancos batem no chão
fandango é a nossa canção
pinga de banana na cabeça
fumo caiçara na mão

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Antonio Thadeu Wojciechowski, Edílson Del Grossi,

Walmor Góes e Ubiratan Oliveira
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Levando fumo
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quando eu morrer não quero choro nem oração
quero pacotes de hollywood
pra levar muito fumo no caixão

serrei até estourar a caixa toráxica
o escarro e o pigarro eram a tática
pro meu pulmão não se esparramar pelo chão

cigarro de xepas do cinzeiro eu fi-lo
traguei paióva, bituca e matarrato a quilo
equivalo a um quarteirão de nicotina e alcatrão

já enrolei tabaco pra mais de metro
se enfizema fizesse rei, eu tinha coroa e cetro
recordista filão, quebro a marca do milhão

há tosse e sinais defumantes em meu corpinho
alvéolos, brônquios, pleuras, não passam de toucinho
baforo no caixão, resoluto, meu último charuto

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Antonio Thadeu Wojciechowski e Rodrigo Barros
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nível de periculosidade
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quanto uma bactéria pode ser nociva?
esta mariposa por quanto tempo continuará viva?

o conhaque vai acabar
e isto me entristece um pouco
quanto tempo viverei neste bar
até estar morto?

70 cigarros por dia é mortal?
será que hoje é natal?

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Antonio Thadeu Wojciechowski e Marcos Prado
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o cigarro está me matando de saudade
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anteontem no ano passado
meu dedo estava amarelado
preciso de um vício novo
bombom, caracu com ovo
bingo, corrida de cachorro louco

ai que saudades da minha querida nicotina
e do meu velho e bom arcatrão
e da porvinha do paperzinho que fazia
catarrinho, cosquinha no meu purmão

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Antonio Thadeu Wojciechowski, José Alberto Trindade,

Márcio Goedert e Rodrigo Barros

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samba do meu ranchão
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estava andando pela rua numa noite
quando meu mundo caiu
astros me pisavam distraídos
indiferente o chão fugiu de mim

se essa rua, se essa rua fosse minha
eu andava contramão
paralelepípedos uni-vos
pra eu voltar a ter os pés no chão

se você pensa que vai fazer de mim
o que faz com os carlões por aí
acorda, maria bonita, cachaça não é água não
já fumei mais de um maço e meio
pode vir firme que eu estou tremendo

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Antonio Thadeu Wojciechowski, José Alberto Trindade, Rodrigo Barros, Magoo, Walmor Góes e Ubiratan Oliveira

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sete palmos abaixo da terra de marlboro
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380.250 cigarros depois
resolvi tomar uma atitude
nada de entregar pulmão para ciência
só há um jeito de ir atrás do prejuízo

apresentar os meus raio-x
para uma junta de advogados
agora quero 5 milhões e mais nada
vai ser um raro prazer queimar essa bufunfa
de dentro da tenda de oxigênio

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Antonio Thadeu Wojciechowski e Sérgio Viralobos

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~ por polacodabarreirinha em 11/11/2009.

4 Respostas to “”

  1. Polaco, vc produz pra cacete hein!
    E ainda sobre uns para ir a Pernambuco. Deus te conserve. hehe
    Veja o vídeo Playing For Change no meu blog. Veja se não é sensacional.
    http://emcimadapauta.blogspot.com/
    abrasssssss

  2. Estarei lá, com certeza.

  3. Traguei e gostei muito dessa fumaça em verso e prosa! E olha que nem fumo, mas tenho bronquite, então é equivalente:)
    Abraço.

  4. Grande abraço, Lucas.

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