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Cidades

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“E debaixo de uma outra civilização
Bate o coração, ruína dura de roer.”

Roberto Prado

Não adianta fugir e se esconder no meio do mato, pois as árvores não vão quebrar o galho de ninguém. Mas nem por isso fiquem pensando que isso que vocês fizeram com suas cidades é uma coisa normal. Elas são o mundo cão onde a maioria está num mato sem cachorro. Vocês que, com seu egoísmo e suas boas intenções, fizeram de seus habitats um amontoado de gente sozinha, sem pai nem mãe, império do salve-se quem puder. E, pior, cada um por si e Deus contra, como disse o Alberto Centurião.
Nas suas cidades vocês têm todas as desvantagens da falta de espaço natural mas, apesar do empurra-empurra, não aprenderam a desfrutar das vantagens de uma vida amorosa, feliz e solidária. O vizinho pode morrer seco e arreganhado; o irmão, com as mãos à feição de conchas, pode beber água da sarjeta; assim mesmo, vocês não hão de desgrudar o traseiro individualista nem para buscar pão para a mãe querida.
Mas quem são vocês? Originais de onde? Babilônia é sua terra natal? Tudo tem que dar certo? Tudo tem que dar lucro? Tudo tem que ter um preço? De quem vocês estão se defendendo? A quem você atacam?
Ainda bem que existe um outro coração por trás dessas cidades, e, somente ele, por atrito benevolente, vai extrair, de vocês, hoje pedras brutas, o brilho do sol da nova aurora humana. Que assim seja, Mautner!

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Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado

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Imponderabilíssima

A cidade que vejo, nítida, em meu sonho,
não está incrustada nos pontos cardeais,
invisível se ergue imaterializado escombro
no horizonte de meus limites sensoriais.

Nenhum sinal, farol, radar, vai indicar
marco zero, pedra fundamental, obelisco solto,
a Eldorado de qualquer outro sonhar,
aqui e agora não são mais ali daqui a pouco.

O que imagino, o que eu sempre consigo ver,
aparece no meio da noite quando estou sozinho,
mendigo do poço dos desejos pagando pra ser
a próxima esmola das imagens em redemoinho.

Ou então quando, príncipe, todos se curvam,
como se apenas eu, sob os aplausos da cidade,
passasse sob o arco daqueles que triunfam
e, humilde, aceitasse a glória da eternidade.

Mas a cidade, sem nenhum príncipe ou mendigo,
irredutível resiste aos estragos de meu ego.
E assim a essência que revejo fica comigo:
bengala tateando o relevo em que trafego.

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Antonio Thadeu Wojciechowski

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A volta triunfal

aqui vamos fazer nossa casinha
ali a fábrica não ficará muito longe
uma escola com vista pra montanha
e o templo sem imagem nenhuma

desta vez não vamos sujar o rio
nem inventar leis desalmadas
apenas novamente simples heróis
descobrindo mundos, trocando fraldas

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Roberto Prado

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já era uma vez…

inquieto
em Kioto, com saudades
de Kioto

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Matsuó Bashô

( Japão, 1644-1694)

Por Antonio Thadeu Wojciechowski

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Antes, depois e entre

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A Van Gogh

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Olhe bem para a sua cidade.
No reflexo do edifício em frente,
Ela surge súbita no detalhe
Quando cai a noite magnificamente.

Mas…ainda não. O dia tarda.
O sol nas ruas, encarnado, deita,
Enquanto o espírito noturno aguarda
E imagem semelhante aceita.

Os becos, avenidas e alamedas
Matizam pedestres e automóveis.
Da janela, aviste as últimas labaredas,
Perfis, silhuetas, sombras móveis.

Veja só: você, a cidade
E o tempo, como as pessoas, passando.
Pode se beliscar à vontade,
Você não está sonhando!

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Antonio Thadeu Wojciechowski, Marcos Prado e Ubiratan Gonçalves de Oliveira

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Paisagem

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Vem, céu, inspira-me os mais puros monólogos.
Dá-me a emoção das estrelas, o amor dos astrólogos,
E, junto ao som dos sinos, deitado, sonhando,
O cântico dos cânticos que o vento vai levando.

As mãos sob o queixo, minhas queixas são nada,
Apenas as fábricas numa trabalheira desgraçada;
Torres, chaminés, mostras de mastros na cidade,
E grandes céus imensos a optar pela eternidade.

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(…)

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Charles Baudelaire

(França, 1821-1867)


Por Antonio Thadeu Wojciechowski

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À flor da terra natal

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primavera agora
não vejo nem a cor do céu
como vi em Nagoya

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Tokoku

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Por Antonio Thadeu Wojciechowski

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Lisbon Revisited

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(…)
Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida…
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui de novo tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos, todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligada por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração longínquo, a alma menos minha.

(…)

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Fernando Pessoa

(Portugal, 1885-1935)

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Lamentações de Curitiba

(…)

Ó Curitiba Curitiba Curitiba, estendes os braços perfumados de giesta pedindo tempo, quando não há tempo.
Ó Curitiba Curitiba Curitiba, escuta o grito do Senhor feito um martelo que enterra pregos. Teu próprio nome será um provérbio, uma maldição, uma vergonha eterna.
Curitiba, o Senhor chamou teu nome e como o de Faraó rei do Egito é apenas um som.
A espada veio sobre Curitiba, e Curitiba foi, não é mais.
Não tremas, ó cidadão de São José dos Pinhais, nem tu, pacato munícipe de Colombo, a besta baterá vôo no degrau de tuas portas. Até aqui o juízo de Curitiba.

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Dalton Trevisan

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Grande angular para a Zap (*)

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as cidades do ocidente
nas planícies
na beira mar
do lado dos rios
fera abatidas a tiro
durante a noite

de dia
um motor mantém todas
vivas e acesas LUCRO

à noite
fantasmas das coisas não ditas
sombras das coisas não feitas
vêm
pé ante pé
mexer em seus sonhos

as cidades do ocidente
gritam
gritam
demônios loucos
por toda a madrugada

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Paulo Leminski

(1944-1989)

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(*)Homenagem ao fotógrafo Márcio Santos, proprietário da Zap Fotografias, amigo do poeta.

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Decifra-me

faz horas
que não ando
na Rua Quinze
faz horas
que não vejo
mais a cidade
essa necessidade
de quem finge
que as ruas
são esfinges

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Luís Antônio Solda

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Pompéia, São Paulo

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o campinho com a trave debaixo do arranha céu
do lado do clube
toupeiras artilheiras
formigas de barreira
placar no minhocão
cinco passos pra dentro do vulcão

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José Alberto Trindade

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120 minutos em Curitiba

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espero que amanheça, não pelo sol, mas pelo ônibus
a cidade está atenta caso eu durma na praça
pra roubar minha jaqueta bota cigarro e o vale-transporte

quero que amanheça, não para acordar, mas para dormir
o primeiro ônibus passa às seis e são quatro
escrever para ficar acordado, única alternativa

peço que amanheça, não pela manhã, mas pela noite
que eu passei bebendo e esperando o primeiro ônibus
e me fez escrever até agora que ele está chegando

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Marcos Prado

(1961-1996)

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~ por polacodabarreirinha em 22/11/2009.

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