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o eterno

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Apesar de fora de moda, o eterno nunca morre. E se manifesta através das pedreiras que, volta e meia, aparecem no meio do nosso caminho. São os São Franciscos, Leminskis, Van Goghs, Garrinchas, que vêm do Além pra nos revelar felizes perfis inéditos, que esquecemos, mas existem, ocultas dentro das coisas mais comuns dessa vida. E, assim, mesmo sem merecimento, somos regularmente abastecidos com bocados generosos da velha e boa eternidade. Hoje, pra facilidade geral do mundão, existem os disk-eternidade, onde, a R$ 4,95 o minuto, você garante uma eternidadezinha tranqüila em até 6 vezes pelo cartão. Mas o preço mais alto do mercado da eternidade é alcançado pelo amor. E o sonhado “amor eterno” não tem nada a ver com a tradicional blasfêmia “até que a morte nos separe”, um enxerto romano pra encher lingüiça nos casamentos sociais – já que para Jesus, a vida é eterna. Tem gente que ainda vai ter que reencarnar mais umas dez vezes pra entender que sua vaidade e seu egoísmo são grandes, enormes, gigantescos, descomunais, mas não eternos. Outros, deitados eternamente em berço esplêndido, vivem um polpudo carnaval, pulando na opulência e batucando no couro dos pobrinhos. Nossas dívidas, sim, são eternas. Mas só quem paga o patinho é o povão que, quanto mais estuda, mais cavalo fica. Pena de morte e prisão perpétua não existem. E a ignorância que não acaba mais ainda acha que o diabo castiga justamente os seus amiguinhos, os malvados da Terra, com suplícios eternos. Só esta prova de falta de fezinha já faz dos crédulos sérios candidatos a colocarem os dois pés no inferninho. A verdade mesmo é que a eternidade (irmã do infinito) é eterna em todas as direções. Tanto faz passado e futuro, ela é eterna para os dois lados. E o instante presente, também não acaba, já que o que chamamos “passar do tempo” é mera ficção. O Universo vai e volta. E, de vez em quando, nos permite 5 décimos de segundo de pura lucidez. Vemos tudo simples, claro, nos sentimos irmãos de todos e de todas as coisas. Um flash de tamanha felicidade que, se soubermos captá-lo, vale um passaporte para a eternidade – que não acaba nem quando termina. Portanto, querido leitor, guarde esta página para sempre.

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Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado

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Destróia

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pedra que sobre pedra quer restar

o que eu sou não é mole desmanchar

implosões, marretadas e de quebra

um novo shopping center no lugar

nasci assim. fico sem jeito de morrer

vai a alma, o corpo ainda quer ser

e debaixo de uma outra civilização

bate o coração, ruína dura de roer

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Roberto Prado

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Marcos eternos

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o que aprendi com os amigos

não reneguei nem esqueci

não me acho o melhor dos vivos

e até hoje, que eu saiba, não morri

.

aprendi, sim, e com maestria

dos todos que até hoje encontrei

o amor pelo que chamam poesia

que é hoje tudo que tenho e sei

.

imaginei-me ontem o pior de todos

porque almejo algo acima do solo

como se em meu cérebro eletrodos

me jogassem dos 34 anos para o colo

.

hoje, porém, nascendo o dia azul

olhei pela janela e tudo amarelo –

havia em mim uma espécie de exul

tação aos amigos, à poesia, ao belo

.

Marcos Prado

(1962-1997)

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Chama Eterna de Amor

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Oh! chama viva de amor que ternamente feres

minha alma no mais profundo centro!

Pois não és mais esquiva, acaba já, se queres,

ah!, rompe a tela deste doce encontro.

Oh! cautério suave, regalada chaga,

branda mão, oh!, toque delicado

que a vida eterna sabe e paga toda dívida!

.

Oh! lâmpadas de fogo em cujos resplendores

as profundas cavernas do sentido

– que estava escuro e cego –

com estranhos primores

calor e luz dão junto a seu Querido!

.

Oh! quão manso e amoroso despertas em meu seio

onde Tu só secretamente moras:

nesse aspirar gostoso, de bens e glória cheio,

quão delicadamente me enamoras!

.

San Juan de la Cruz

(padroeiro dos poetas da Espanha, 1542-1591)

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O Viver Para Os Outros

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(Capítulo 7 do Livro de Tao)

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Positivo, negativo.

Onde estão as pilhas do Universo?

Ele dá a vida eterna

e nada guarda pra si mesmo.

Assim, não se gasta,

nunca está sozinho

e ainda lhe sobra vida eterna.

.

Por estas e por outras o sábio sabe,

mesmo sendo meio desligado.

Engraçado ele ser o primeirão

apesar de estar após o último da fila.

Seu corpo não passa de cavalgadura

que ele não maltrata por ser lerda.

.

É que ele nada quer para si mesmo.

E não será por isso

que ele não se gasta,

nunca está sozinho

e ainda lhe sobra vida eterna?

.

Lao-Tsé

(China, 570 a.C., tradução de Alberto Centurião, Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado)

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Instantâneos de veloz eternidade

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(do livro Ah, é?)

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15

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Solta do pessegueiro a folha seca volteia sem cair no chão – um pardal.

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88

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O cão olha para o menino: o sol que move a lua, os planetas – e o seu rabinho.

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104

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Bolem na vidraça uns dedos tiritantes de frio – a chuva.

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Dalton Trevisan

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Faz eterno, por enquanto.

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Vi quando a rosa se abriu.

Como a eternidade

pode ser tão fugaz?

.

Thiago de Mello

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Vida Eterna

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Em nosso tempo,

a vida eterna

perdeu sua função.

É tão inatual,

tão obsoleta,

tão fora de moda

como o primeiro espartilho

de Sarah Bernhard.

.

Nelson Rodrigues

( 1912-1980)

.

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Eternidade

.

Ele reviu-se:

não era mais

nem corpo

nem sombra

nem escombros.

Como foi isso?

Tudo irreal:

um barco

sem mar

a boiar.

Ele sentiu-se:

recomeçava.

Vivera

morrendo

numa estrela.

Ele despiu-se

de quê?

De tudo

que amara.

Surdo-mudo

cegara.

Agora vê.

.

Jorge de Lima

(1895-1953)

.

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Natal

.

Nasce um deus. Outros morrem. A verdade

Nem veio nem se foi: o Erro mudou.

Temos agora uma outra Eternidade,

E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.

Louca, a fé vive o sonho do seu culto.

Um novo deus é só uma palavra

Não procures nem creias: tudo é oculto.

.

Fernando Pessoa

(1888-1935)

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Simples eternidades

.

Grafite

Meu nome,

desenho a giz

no muro do tempo.

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Choveu, sumiu.

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Cronos

.

Não é o tempo que voa.

Sou eu que vou devagar.

.

Helena Kolody

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Camarada eternidade

.

Anos, países, povos

fogem no tempo

como água correndo.

A natureza é espelho móvel,

estrelas – redes; nós – os peixes;

visões da treva – os deuses.

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Vielimir Khlébnikov

(Rússia, 1885-1922)

.

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Contrição

.

Quero banhar-me nas águas límpidas

Quero banhar-me nas águas puras

Sou a mais baixa das criaturas

Me sinto sórdido

.

Confiei às feras as minhas lágrimas

Rolei de borco pelas calçadas

Cobri meu rosto de bofetadas

Meu Deus valei-me

.

Vozes da infância contai a história

Da vida boa que nunca veio

E eu caia ouvindo-a no calmo seio

Da eternidade.

.

Manuel Bandeira

(1886 – 1968)

.

.

A eternidade vai além

.

Senti um féretro em meu cérebro

e carpideiras indo e vindo

a pisar, a pisar, até eu sonhar

meus sentidos fugindo

.

E quando tudo se sentou,

o tambor de um ofício

bateu, bateu, até eu sentir

inerte o meu juízo

.

E eu as ouvi, erguida a tampa,

rangerem por minha alma com

todo o chumbo dos pés, de novo,

e o espaço dobrou

.

Como se os céus fossem um sino

e o ser apenas um ouvido

e eu e o silêncio estranha raça

só, naufragada, aqui

.

Partiu-se a tábua em minha mente

e eu fui cair de chão em chão

e em cada chão achei um mundo

e terminei sabendo, então.

.

Emily Dichinson

(EUA, 1830-1886)

.

.

Debaixo do tamarindo

.

No tempo do meu pai, sob estes galhos,

Como uma vela fúnebre de cera,

Chorei bilhões de vezes com a canseira

De inexorabilíssimos trabalhos.

.

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,

Guarda, como uma caixa derradeira,

O passado da flora brasileira

E a paleontologia dos Carvalhos!

.

Quando pararem todos os relógios

De minha vida, e a voz dos necrológios

Gritar nos noticiários que eu morri,

.

Voltando à pátria da homogeneidade,

Abraçada com a própria eternidade

A minha sombra há de ficar aqui!

.

Augusto dos Anjos

(1884-1914)

.

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Que tudo passe

.

passe a noite

passe a peste

passe o verão

passe o inverno

passe a guerra

e passe a paz

.

passe o que nasce

passe o que nem

passe o que faz

passe o que faz-se

.

que tudo passe

e passe muito bem

.

Paulo Leminski

(1944 – 1989

.

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Uma dupla eternidades

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O eterno 1

.

a vida não é bem assim

a vida não termina

no primeiro páreo

a vida

pertence ao usuário

inventa

quem passou pelo inventário

O eterno 2

.

a vida passa assim:

na metade

já estamos no fim

.

Luiz Antônio Solda

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A moda eterna

.

Somente nunca sai da moda

quem está nu.

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Mário Quintana

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Poeminha do eterno retorno

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Então fica assim:

O in vira out

E o out, in

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Millôr Fernandes

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Tudo é para sempre

.

assim vivia

de um galho

até o outro

com tantos frutos

quanto sonhar podia

.

Antonio Thadeu Wojciechowski

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A vida é Terra

.

Como é bom estar vivo

e participar dessa maravilhosa aventura

que é estar sobre o planeta Terra.

Dois terços de água

e ainda sobra espaço

pra tanta gente bela.

Oxigênio pra abrir os pulmões das algas

dos sete mares da Terra.

A terra manda no céu

e o céu é da cor azul do planeta Terra.

Às vezes fico basbaque com o show dos vulcões

expelindo magma pra fora dela.

Pela teoria espírita, os espíritos

adoram rodar a bolsinha em nossa esfera.

Ainda por cima a aurora boreal

que desgraçadamente não posso ver deste ponto da Terra.

E nela vamos girando e torcendo

pra que nos seja leve ela que nos leva.

Sagrado torrão do espaço,

todos, até os que em ti estão enterrados,

te desejam eterna, Terra.

.

Antonio Thadeu Wojciechowski, Sérgio Viralobos e Walmor Góes

.

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~ por polacodabarreirinha em 19/01/2010.

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