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Bola Perdida


“A televisão é maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.”

Meus especialíssimos leitores, a vida é tão retumbante que, muita vez, sinto vontade de sair por aí tocando bumbo, só para não tocar o foda-se. Explico melhor. A realidade não é só aparência. Esta, vocês sabem, engana. E ilude. Nem lembro porque estou falando isso… Ah, lembrei. Não sei se já disse a vocês que a universidade é o local onde a ignorância é elevada a sua máxima potência e levada as suas últimas conseqüências. Bem, se não disse, está dito. E já completo. O que eu quero mesmo lhes dizer é que, atualmente, espalham-se, como vírus em computador, as faculdades por ensino à distância, via televisão ou internet. Ou seja: o que já era ruim virou o mais cínico e deslavado engodo educacional. Um crime. Uma farsa. Onde o aluno finge que aprende e o professor faz de conta que ensina. E ambos se locupletam, um pela aparência e outro pela grana. Mas isso não tem importância.

OS FALACIANOS NÃO SABEM QUE A BAZÓFIA
É UM ESTADO DE ESPÍRITO DE PORCO.

– Quanta merda, quanto disparate, quanto desvario, quanto desatino! Ó escriba farisaico, quantos “quantos” ainda haveremos de proferir até que em sua cabecinha entre a verdade, final e absoluta, que você é, apenas e simplesmente, um redator de uma coluna cujo assunto foi, é e será para sempre o futebol? Será, minha mula burra, que você não percebe que não dá pra continuar enganando seus equivocadíssimos leitores? Toda coluna é aquele mesmo blá-blá-blá: “mas isso não tem importância” “mas o que eu quero mesmo lhes dizer”. Uma pobreza de estilo sem precedentes na história universal. Você, Dalton, é pobre de dar dó. Pobre de espírito, pobre de idéias, pobre coitado. Olhe pra você, escriba do satanás, olhe pra esse terno ensebado, olhe pra essa gravata puída, olhe pra esse colarinho encardido, olhe pra esses sapatos caindo aos pedaços… E você aí, com essa pose de santo barroco franciscano. Vai cagar no mato, vai, ô mosca de cavalo!

– Essa eu gostei, Geraldo! Ahahahaha… A gente tá ficando fera em xingar esse porco lazarento. Qualquer dia você mata o cara com um desses discursos. Ahahahaha…

– Mas a intenção é essa mesma, Ribamar. Quero ver esse idiota letrado estrebuchar na minha frente. Ahahahahaha…

– A gente podia era esfaquear o cérebro desse cancro sifilítico.

– Tá louco, Riba! Ia vazar tanta merda, mas tanta merda…

– Ihhh… nem fale. Ahahahaha… Já tô sentindo a catinga.

– É a modorra do terninho, da camisinha, da gravatinha e dos sapatinhos que já estão em adiantado estado de putrefação… Ahahahahahaha….

– Ahahahahahaha… Vamos fumar e respirar ar puro, que aqui tá foda o troço.

Os dois, de braços dados, rindo de minha cara, saem para fumar. Confesso, meus solidaríssimos leitores, não sei o que fiz para merecer toda essa pusilaminidade. Mas, como já lhes disse, não os odeio e nem lhes tenho amor também. O Geraldo, vocês sabem, fornica com a própria alma. É um atentado permanente contra si mesmo. A manutenção de sua integridade física é um desses fenômenos paranormais que, de tão inexplicáveis, melhor nem comentar. Ele está à minha direita e sua maior obstinação é se apoderar de minhas rocambolescas frases e tiradas. Aliás, acho que toda a sua vida é um plágio, um grande, cínico e deslavado plágio. Mas isso não tem importância. O que eu quero mesmo lhes dizer é que o caso do Ribamar é bem mais sério do que pensei há 10 anos, quando ele foi contratado. Na verdade, tudo começou há 8 anos, quando observei os primeiros pêlos crescendo em suas mãos. Em seguida, mês a mês, espinhas em uma quantidade incalculável foram aparecendo na mesma medida que o seu rosto naufragava em meio a esse turbilhão inquestionável de pus e sebo. Hoje em dia, confesso, me dá uma alegria enorme, vez em quando, vislumbrar o seu rosto em meio a essa massa disforme e decrépita que habita o seu semblante. O Ribamar, não sei se já lhes contei, há dois meses completou 22 anos. E é apontado pelo Guiness como o mais velho office boy do planeta. É nosso office old. Esses dias, o nosso diretor, o Dr. Horácio Penaleve, deu-lhe uma placa por seus 10 anos de leva e traz e, em discurso inflamado, disse, em alto e bom tom, que contava com ele por mais 10 anos nesta função e foi aplaudido de pé por toda a redação. Mas isso não tem importância.

SE O OLHO É A JANELA DA ALMA,
A BOCA É A PORTA DO CORAÇÃO.

O que eu queria mesmo lhes dizer é que todo esse chiste, essa pilhéria, essa bazófia, não me perturbam o espírito. Sim, eu sei, sofro as mais cavas humilhações por ser pobre e, principalmente, por não ver a menor possibilidade de reverter essa condição de inadimplente até na hora de pagar promessas. Não sei se já lhes contei que sou perseguido por cobradores desde os 7 anos, quando comprei fiado meu primeiro sonho de nata na bodega do seu Nicanor. Sim, desde os 7 anos sofro as mais cavas e profundas humilhações… Minto e já me corrijo. Não foi aos sete anos e, sim, aos seis. E também não era um sonho e, sim, uma malemolente e sensual maria-mole. Assim como também não era a bodega do seu Nicanor, mas o insubstituível armazém do seu Boleslau. De lá para cá, não fosse a graninha do trabalho, como diarista, de Dona Zenóbia, minha doce esposa, provavelmente, eu estaria soterrado por uma avalanche de notas promissórias e cheques pré-datados. Mas não é isso o que eu queria lhes dizer e, sim, que a justiça brasileira é muito eficiente em dois momentos: na hora de chutar o cu dos pobres, mandando-os para a prisão, e no momento de absolver os ricos. Qualquer milionariozinho de bosta é capaz de, com alguns milhares de dólares, comprar as mais excêntricas sentenças, criando jurisprudências inomináveis. Eu, assim como vocês, meus injustiçadíssimos leitores, não quero ser dono da verdade e, sim, sócio, mas não uma sociedade anônima. E também não quero uma cota pequena, não. Quero, no mínimo, continuar a gerenciar minha loucura, orgulhosamente. A humildade, vocês estão carecas de saber, é tão efêmera e estranha que, no momento em que achamos que a temos, já, a perdemos. Muita vez, para sempre. Se bem que só o certo é para sempre. E o certo está escrito, com todas as provas, nos olhos e na voz daqueles amam de verdade. Mas isso não tem importância.

O VAMPIRO CHUPACABROU A LÓGICA.


O Trevisan chegou à noitinha lá em casa e, esganado, foi logo pulando sobre a travessa de broinhas de fubá mimoso e, voluptuoso, entornou o litro de licor de ovos. Fico assistindo, em silêncio, durante 20 minutos, dentes despedaçando broinhas e farelos espalhados por toda a varanda ou empurrados goela a dentro por sonoras talagadas. De bucho cheio até o gorgomilo, Trevisan descasca:

– Fui ao hospital hoje.

– Eu fui ontem.

– Então diga pra mim, primeiro, o que aconteceu.

– Nada. Cheguei lá e ele estava com a cabeça coberta. Falei, falei e ele não fez nem um muxoxo. Depois de duas horas, desisti.

– Comigo foi diferente. Escute só. Cheguei no hospital, entrei no quarto sem bater e dei de cara como uma cena que você não vai acreditar.

– Eu acredito até na minha sogra.

– Então, saca. Entro e a Gertrudes, aquela enfermeira boazuda, estava fazendo uma chupeta no Torcedor.

– Ahahahahahaha… Não acredito nisso!

– Bote fé. Quando os dois se dão conta, eu já estou no meio do quarto.

– Puta que o pariu. E daí?

– E daí, cara, ficamos os três se olhando, completamente imóveis, durante uma eternidade e meia. Entendi toda a teoria da relatividade neste lapso de tempo.

– O fato, Trevisan, por favor, só o fato.

– O fato é que o Torcedor levantou e, na maior cara de pau, falou: – “Bem, vamos dar uma mijadinha.” E foi para o banheiro. A Gertrudes, que estava com os peitões de fora, desfilou-os diante de minha boca sedenta, arrumou-os no sutiã e saiu, depressinha, se oferecendo toda.

– Ok. Mas o tio Torcedor?

– Voltou uns 10 minutos depois e disse que tinha passado a mão na cara.

– Como assim?

– Punheta, Dalton! Tocou uma bronha. Descabelou o palhaço. Como você é burro!

– Burro é você, animal. Se ele não estava falando, como você me explica?

– Então escute. Ele falou durante mais de três horas. Só que, na verdade, ele não falava comigo, pois não importava o que eu dissesse, ele continuava a falar consigo mesmo sobre a sua dupla personalidade. Súbito, mais sério que padre quando casa, levantou-se, foi até o espelho, cumprimentou-se e disse, afetuosamente: – “Até mais, meu velho! Foi um grande prazer dividir este espaço e esta prosa com tão magnânimo e beatífico ser. Sinto que seremos amigos para sempre.”
Falou, deitou na cama, cobriu a cabeça e desembestou a roncar, quase instantaneamente.

– Que loucura! Futebol, que é bom, nada?

– Nem uma sílaba.

– Estranho. Muito estranho. Mas vamos falar de coisas mais normais. Pegou a mensagem do Machado de Assis no terreiro do Pai Véio Chico Fantasma?

– Não deu. Eu bem que queria ir, mas tua mãe ameaçou morder meu bigolingo, caso eu tirasse de sua boca.

– Vai tomar bem no meio do olho do seu cu. Pegou ou não pegou?

– Claro, né, estúpido. Tá aqui, ó. O Véio disse que é pra você abrir, logo após a meia-noite, assim que piar a coruja. Fez sérias recomendações, disse que com o Além não se brinca.

– Sabe, Trevisan, eu acho que o Pai Véio.. . O desgracido sai e não diz nem tchau, deixando um silêncio ensurdecedor à minha volta. Fico a pensar com meus botões de futebol de mesa e, pensando, meus olhos se voltam para cima. O céu agora é de um azul profundo e imenso. Meteoros kamikazes passam e deixam em luz sua última mensagem. Tudo é tão infinitamente pequeno, vago, etéreo. Deixo minha mente vagar, e de vagar em vagar, devagar e sempre vou me misturando com as estrelas, quasares, pulsares e sinto o universo inteiro pulsar em meu pulso. E sinto tanto que nesse enlevo, como por encanto, de quando em quando, astros me pisam, distraídos. Mas, de repente, não mais do que de repente, soa a primeira das doze badaladas que vão acabar o dia e começar um outro. Abro os ouvidos e perscruto as redondezas. Foi-se a segunda, a terceira… as doze badaladas soam uma após outra, até o silêncio gritar madrugada a dentro. Pego o envelope nas mãos e, trêmulo, espero piar a autorização. A noite é enorme e densa e, no peito, meu coração é um potro xucro escoiceando a jaula.
Mas isso não tem importância.

O ROBERTO PRADO É UMA BESTA!

O que eu queria mesmo lhes dizer é que o Beco me ligou ontem às 4h47 da madruga e, na pressa de atender, quase esparramo pelo chão a Dona Zenóbia que, como eu, dormia profundamente.

– Alô, Roberto?

– Como você adivinhou que era eu?

– Palpite.

– Então jogue na loteria que você ganha.

– Menos, Beco. É que havia uma chance em 6 bilhões de que fosse outra pessoa.

– Ainda bem que você não estava dormindo.

– Imagine! Eu e Dona Zenóbia estamos dançando uma polca punk no último volume. Até tem uns caras com umas tochas acesas aí na frente de casa. É agora que o troço vai começar a esquentar.

– Ah que bom. Eu fico feliz por vocês. Mas me diga uma coisa, Dalton. Não é verdade que só os idiotas não se contradizem?

Quase caio duro, seco e arreganhado, mas com um esgar e a voz amarfanhada, arrisco:

– Sem dúvida, Beco.

– O povo é um débil mental. Digo isso sem nenhuma crueldade. Foi sempre assim e assim será, eternamente.

Fulminado e sofrendo arrancos fenomenais que mais parecem convulsões da alma, amenizo:

– Verdade, Beco, a grande maioria vive de certezas absolutamente incríveis, com base no comprar e no imitar. A materialidade do mundo se incorporou na humanidade de tal maneira que engessou a alma do povo diante de um aparelho de TV.

– O diabo pode até citar as Escrituras e pregar os 10 mandamentos quando isso lhe convém, não é verdade?

Engulo em seco 3 ou 4 recôncavos baianos, mas suando frio e com a língua quase presa, resmungo:

– Prode terr celteza, Beeco. Mmas bocê não acha que… A besta desliga, me deixa falando sozinho com meus botões e não me deseja nem bom-dia. Mas isso não tem importância.

UMA FLOR DE OBSESSÃO.

O que eu queria mesmo lhes dizer é que adoro ver o sol nascer. E começar bem o dia. Nada como um café bem quente e um cigarrinho logo depois para retemperar o espírito. É nesses momentos que deixo a imaginação voar e ir ao encontro de tudo que me faz feliz. Não sei bem o motivo, mas me ocorreu agora que, em 1978, minto, 1976, em uma noite de setembro – sim, o cheiro das flores no ar era todo primavera – eu e Nelson Rodrigues caminhávamos sem destino à beira da praia de Copacabana. A noite morna e a brisa fresca faziam uma combinação tão perfeita que milhares de pessoas, por toda orla, se sentiram convidados a sair de casa e passear. As ondas empurradas pela preguiça do vento chegavam à praia quase desmaiadas, quase sem espuma, quase sem som. Apenas conversas aqui e ali, risadas acolá, se espalhavam alegres pelo ar e nos davam a sensação de que o mundo é bom e viver a vida vale à pena. Nelson, a certa altura, tocou em meu ombro e, com o queixo, indicou-me a mesa vazia na calçada. Não lembro mais o nome do bar… Ah…lembrei! Bar da Ponta, isso mesmo, Bar da Ponta. Sentamos e um desfile interminável de belas garotas encheu nossos olhos. Vejam bem, meus voyeuríssimos leitores, uma mini-saia é o mesmo que uma cerca de arame farpado, pois cerca a propriedade, mas não tapa a visão. Mas isso não tem importância. O que vale é que eu e Nelson estávamos que estávamos. Ríamos de tudo e pra todos. Mas sem mais nem menos, súbito, Nelson fica taciturno e com os olhos turvados, desembesta:

– Há alguns dias, um amigo me parou na rua e, mais efusivo que capacho de patrão, entregou-me um exemplar de uma revista: -“Toma isso aqui e lê. É o Brasil.” Tentei dizer alguma coisa, mas, célere, ele já partia. Olho a revista e tomo um susto. Lá estava escrito Meu Bebê. Não entendi nada. Pensei: -“Que piada é essa?” Na capa, estava uma cara, em cores, de um bebê lindo. E eu continuava a não perceber que relação podia eu ter com uma revista chamada Meu Bebê. Fosse como fosse, levei aquilo pra casa. E, depois do jantar, fui apanhar a revista. Comecei com uma curiosidade muito rala e fui tomado, em seguida, de um interesse total. Sempre digo que a leitura é a arte da releitura. Depois de ler, fui reler. E o meu espanto era cada vez mais profundo. Antes, porém, de falar de Meu Bebê, Dalton, quero dizer duas palavras. Há pouco tempo, um colégio grã-finíssimo, de São Paulo, convocou os pais. Quase me esquecia de especificar que era um colégio dessas freiras “pra frente”. Simplesmente, a Madre queria comunicar que a Educação Sexual, naquele educandário, ia começar no jardim-de-infância. E dizia a religiosa: -“O sexo não tem mistério nenhum. Nenhum, nenhum.” E, portanto, meninos e meninas a partir de quatro anos iam ser esclarecidos sobre a atividade sexual. Não houve espanto, absolutamente. Os pais e mães ali presentes eram espíritos altamente compreensivos. A única dúvida era a seguinte: – como meninos e meninas, que não sabiam ler, nem escrever, nem assimilar, poderiam entender as aulas? E, então, risonhamente, a Madre explicou: – “Vão aprender com figurinhas.” Os presentes se entreolharam, maravilhados. Um senhor disse e repetiu: -“Interessante, muito interessante!” E, súbito, uma senhora ergueu-se. De pé, batia palmas. Logo outros, também de pé, aplaudiam, em delírio. A ninguém ocorreu que os garotinhos e garotinhas iam aprender com figurinhas o que a Polícia toma de certos jornaleiros e ainda os processa. Estavam ali pais, avós, tias, etc., etc. E todos ovacionando como na ópera. A Madre teve um sucesso de final de ato. Só faltou receber corbeilles, etc., etc. Umas das raras colunas da imprensa brasileira e internacional que ainda se espantam é a minha, Dalton. Todas as outras são divinamente compreensivas. Mas como ia dizendo, minha coluna pôs a boca no mundo. Não sei se você se lembra do que escrevi, mas eu lhe conto tudo. Dar “Educação Sexual” a menininhas de 4 anos já me parecia um escândalo. E, ainda mais, com figurinhas obscenas, dessas que alguns jornaleiros vendem, às escondidas, aos sátiros gagás. Disse eu, na ocasião, que a “Educação Sexual” é uma das mais deslavadas e cínicas imposturas do nosso tempo. Afirma o Raul Brandão, pintor de igrejas e de grã-finas: -“Sexo, e apenas sexo, é coisa para bezerros, bodes, preás e jumentos”. No homem, sexo é amor. Portanto, só se entenderia, não uma “Educação Sexual”, mas uma educação para o amor, etc., etc. Mas lendo Meu Bebê, verifico como foi ingênuo meu espanto. Afinal, o tal colégio grã-fino de São Paulo, embora usando figurinhas obscenas, lidava com meninos e meninas de 4 anos. Já a revista que ganhei de presente voa mais alto. Meu Bebê, como próprio título diz, trata de bebês. Você já imaginou, Dalton, a Educação Sexual começando no berçário? Visualize a cena – a criança que não provou ainda sua primeira chupeta aprendendo coisas que até a Paulina Bonaparte ignorava. Se a Messalina, aos 70 anos, lesse essa revista de bebês, havia de fazer esta autocrítica sucinta e lapidar: – “Eu sou uma analfabeta. Uma analfabeta sexual.”

Rimos de esticar as bochechas, logo depois nos despedíamos. Um abraço cheio de braços, forte, afetuoso e, sob a luz das estrelas, caminhamos um para cada lado. Mas isso não tem importância.

TORCER É UMA ARTE NOBRE,
NÃO UMA ARTE MARCIAL.

O que eu queria mesmo lhes dizer é que o campeonato paranaense vai que é um upa. Ontem, o Coritiba foi a Paranavaí e o Beltrão também. O motivo do encontro era um jogo de futebol, se não estou equivocado. Não estou. Foi 5×2 para os coxas, que honraram as calças que vestem. E o Beltrão voltou com as calças arriadas. Mas vamos ao jogo. Depois de um surto de personalidade, o Marcos Paulo, possesso como um Kaká dos melhores dias, sai driblando todo mundo e próximo a meia-lua dá um cacete na bola, mas um cacete, que não sobra a ela nenhuma alternativa além de entrar e confirmar o golaço do jovem volante. Tudo normal, coxa em vantagem. Mas caca é como craca em navio, como pega. Depois de perder um caminhão de gols, o alviverde se perdeu e o Beltrão, na base de botinadas, cartões amarelos e também graças às chuteiras número 46 do Ariel, de pênalti, empatou. 1×1, fim do primeiro tempo. Nem bem começou o segundo tempo, Jeci põe a cabeça no lugar e marca 2×1, ê festa. O gol do 3×1 poderia ter saído em seguida, mas o Renatinho ficou com pena do goleiro e humildemente chutou pra fora. Um amor de pessoa esse rapazinho, quanta bondade! Mas no minuto seguinte Enrico recebeu um bolão de Ariel, estufou a veia do pescoço e encheu o pé na coitada da bola, que novamente nada pode fazer além de ir até as redes de Gean. Jogo ganho? Uma ova! Aos 11, o Maringas quase teve uma síncope por causa do Alisson que entrou como quis no meio da zaga do verdão e, de cabeça, aos 11 minutos,  puf 3×2. Daí entrou o Fabinho, cujo primeiro toque na bola, foi um cruzamento perfeito para Ariel, que de cabeça cumprimentou a bola com toda a classe de um verdadeiro cavalheiro. 4×2 e não se fala mais nisso, porque logo depois Rafinha recebe um passe mediúnico do Ariel e, parecia possuído o menino, desloca o goleiro e encerra o jogo 5×2. Coritiba 100%.

O Atlético no sábado não tinha o que fazer e foi até a Baixada, (no estádio Jofre Cabral, seus ingratos). Chegou lá, deu uma olhada, marcou 8 e foi embora. Os torcedores comemoraram até o sexto gol, aí bateu o tédio e saíram pra tomar umas cervejinhas e fumar no boteco da frente, que ninguém é de ferro. O Paraná fez 2×1 no ACP. Ganhou, mas ganhou com as calças na mão. O ACP fez um jogo equilibrado do começo ao fim e qualquer resultado seria justo. E justo o Paraná ganhou.

Assim caminha o campeonato. Vamos ver daqui pra frente. Os jogadores e os times ainda estão na fase do “muito prazer”. Devagar vão se conhecendo e se acertando. Mas a verdade, meus esclarecidíssimos leitores, é que qualquer partida no começo, no meio ou no final vale 3 pontos e a super vantagem do campeão desta fase é quase indemolível. As torcidas, pelo menos é o que parece, aprenderam a se divertir, isso é bom. A que nunca abandona já deveria estar de volta. Mas isso não tem importância.


DONA ZENÓBIA É UMA SANTA!

UMA SANTA!

O que eu queria mesmo lhes dizer é que Dona Zenóbia e eu não gostamos de televisão. Raramente, a ligamos para ver um noticiário ou um jogo de futebol. Gostamos muito é de ler e quase não nos sobra tempo para mais nada. Dona Zenóbia é de um ânimo realmente incrível, pois, apesar de trabalhar duramente o dia inteiro, após o jantar, ainda tem forças para sentar-se ao meu lado na varanda e ler um bom livro até chegar o sono. Faz isso sempre. E comentamos e lemos juntos alguns trechos. E, confesso, isso dá um toque todo especial para o nosso relacionamento. Às vezes me entristeço, por não ter podido custear seus estudos de Direito. Ela, com certeza, seria uma juíza (esse era o seu sonho) brilhante e, ponho minha mão no fogo, saberia fazer justiça. Seria incorruptível como o mais puro pergaminho. Mas isso não tem importância.

O que não posso deixar de lhes dizer é que anteontem, quando a coruja piou, abri o envelope que o Pai Véio Chico Fantasma me enviou, através do Trevisan. Ao retirar a mensagem de dentro do envelope, senti nas mãos a leve textura do papel e essa agradável sensação táctil contagiou-me todo o espírito. No papel branco e liso, a letra de Machado de Assis, simples e elegante, deu à mensagem a diagramação de um mestre na arte. Com toda a alma concentrada, leio: “Dalton, a primeira condição imposta a quem escreve é não aborrecer quem vai ler. Pense nisso com carinho. Assinado Machado de Assis.” Confesso a vocês, meus oportuníssimos leitores, a mensagem atingiu-me em cheio. E, na minha dispnéia emocional, já estou dizendo pra mim mesmo: -“Você abusa. Você abusa.” No mesmo instante desfilam diante de mim minhas metáforas, meu doce estilo novo, meus textos. E perguntei-me: -“Quem é o Dalton? Quem é o Machado? Quem é o Rodrigues?” Geralmente cada qual é um só. Cristo foi Cristo, exclusivamente Cristo e tão somente Cristo, do berço ao túmulo e dali para o Céu. E assim Nero, Maomé, Augusto dos Anjos, Leminski, Marcos Prado ou Guimarães Rosa. Mas no meu caso, será que eu sou eu mesmo? E se eu não for, o que será de mim? Escrever-se. Escrever a si mesmo. Qual será meu texto, afinal? Minha vida? Respondam-me ou calem-se para sempre, meus participativíssimos leitores. O certo é que mais uma semana se foi e janeiro está com os dias contados. O mês de Momo, pulando vem aí e já sinto vontades de estender a rede e separar alguns livros para ler. Mas isso não tem importância. Por enquanto, poupem-me, porque de mim cuida, e muito bem, a Dona Zenóbia, minha doce e deliciosa esposa. Mas isso não é da conta de vocês.

Dalton Machado Rodrigues
daltonmrodrigues@gmail.com

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~ por polacodabarreirinha em 25/01/2010.

7 Respostas to “”

  1. Brilhante, uma prova de que escrever não é pra qualquer um. Arrasou mesmo. Um texto muito gostoso, divertido, parece que a gente está ouvindo alguém falar. Abraço.

    Marcos Roberto

  2. Antonio Thadeu, gostei muito desse seu amigo Dalton Machado Rodrigues. Ele escreve muito bem!

    Heterônimos são para poucos. Pouquíssimos. Rarissimos. Pessoa lá e essa pessoa cá.

  3. Valeu, Marco e Fábio. Um grande abraço desses meus grandes braços desajeitados.

    Thadeu

  4. 10. Bom humor e filosofia, a receita certa quando é ministrada com talento.

    Raimundo Sentimental

  5. Sentimental eu sou, Raimundo. Valeu, um abraço.

  6. Quase morri de rir. É bom demais, já tinham me falado do Dalton Machado Rodriguez mas nunca imaginei tamanha loucura. Segunda tem mais?

    Abração

    Moisés Pietruck

  7. eu já virei fã.

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