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Bola Perdida

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” Época triste a nossa… mais fácil desintegrar um átomo do que o preconceito!”

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“Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão  com os idiotas de ambos os sexos.”

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“Uma pessoa inteligente sempre estará em desvantagem se discutir com um bando de idiotas, eles se unem na ignorância e na hipocrisia.”

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Meus universalíssimos leitores, minha clara, sintética e figadal filosofia de vida foi, é e será sempre “tudo ao mesmo tempo agora já neste momento inclusive antes e depois!”. Ou seja: escreveu não leu é analfabeto. Ou ainda: creio piamente, na prática, na verdade da teoria da relatividade. Eu, vocês sabem, sou um tipo inútil e profundamente sobressaltado com a hipocrisia, o preconceito,a ignorância e a desfaçatez da maioria das pessoas que habitam este cisco de universo que é o planeta Terra. Explico. É tão mais fácil ser sincero e verdadeiro que, muita vez, me pego a pensar com meus botões de futebol de mesa sobre  essa inversão de valores que campeia esse mundinho de Deus. Mas não vamos deixar que nada nos desanime, pois até um pé-na-bunda nos empurra pra frente. O que eu queria mesmo lhes dizer é que a gente pode descobrir mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira do que em um ano de muita conversa. O verdadeiro ser aparece rapidinho, pois brincando brincando, o monstrinho toma forma a olhos vistos. Isso porque a quantidade de preconceito que cada um de nós tem dentro de si é inversamente proporcional à de inteligência. E, sendo assim, podemos concluir que a ignorância não fica tão distante da verdade quanto ficam o preconceito e a hipocrisia. Mas, se já vivemos muitas dessas desilusões com esse tipo de gente, é sempre bom lembrar que pra frente tem mais. E não devemos nunca nos esquecer de que chorar sobre as desgraças passadas é a maneira mais eficiente de atrair outras. Mas isso não tem importância.

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OS FALACIANOS BAZOFIAM O TEMPO TODO, MAS, SEM ESTILO, ATÉ A TROÇA MAIS SIMPLÓRIA PERDE A GRAÇA.

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– Como assim? Como assim? Mas meu deus do céu, será que esse imundície não se flagra? Se não tem importância então pra que todo esse blá-blá-blá, ô esperma de satanás? Vai gastar essa conversa fiada com tua mãe, escriba do demo. Aqui ninguém te agüenta mais, vai pra puta que te pariu!

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– Já reparou, Geraldo, o velho louco está cada vez pior. Agora, começou com essa de moralismo pra cima de seus burríssimos leitores. Não consigo imaginar alguém perdendo tempo com essas asneiras…mas, enfim, tem louco pra tudo neste mundo. Por mim, eu dava um tiro na boca desse filho da puta.

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– Ahahahahaha…Riba, além de dar tiro, vamos ter que amarrar as mãos do idiota, pregar a língua, salgar e deixar no sol. Por que se não o cara é capaz de continuar atormentando a gente.

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– Ahahahahaha… O cara vivo já é uma alma penada, imagine morto.  Ahahahah…o terninho, a gravatinha e o sapatinho finalmente iriam descansar em paz.

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– Ahahahahahah…. Ia mais gente ao enterro se despedir deles do que do Dalton. Ahahahaha…

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Abraçados, saem para fumar. Eu, meus confidentíssimos leitores, vocês sabem muito bem, não reajo como uma pessoa normal diante da bazófia, do chiste e da pilhéria. Creio mesmo que depois de ler o Saboro Nossuco passei a um outro patamar de entendimento e compreensão. Vejam bem, quem são afinal Geraldo e Ribamar? Pra começar, não lhes quero mal nem bem também. O Geraldo, vocês sabem melhor do que eu, é um ser essencialmente contraditório. Desde que cheguei aqui no jornal, ele está sentado à minha direita e tem sido capcioso até quando me cumprimenta. Sim, meus incredulíssimos leitores, até quando me cumprimenta. Nossa relação é puramente social, enfadonha, uma gastura só. E, como conseqüência da minha ausência em seu abraço, ele se amasiou com Ribamar e tem como ocupação principal, aqui na redação, espiar sobre meus ombros enquanto escrevo. Rouba-me idéias, copia minhas frases e usa-as com a maior naturalidade como se de sua lavra fosse. É um ser difuso, usa rabo de cavalo e tem já seus cinquenta e tantos anos, mas se veste como um jovem, vive na moda e isso faz dele apenas mais uma entre tantas marionetes que o sistema manipula. Mas disse amasiou e já não digo, porque o termo não corresponde à verdade. O correto é dizer que essas duas múmias se uniram contra mim, de corpo e alma, com dois abjetos intuitos: rir de minha pobre pessoa e invejar minha espartana capacidade de escrever. O Ribamar, já cansei de dizer aqui, não é um ser humano, é uma espinha. Mas não uma espinha adolescente, não. Não é uma espinhazinha classe média. Não mesmo. É um criadouro inesgotável de pus e sebo. São centenas e centenas de protuberâncias deformando, moldando, transformando, engordando, entortando,  enfim, estigmatizando a sua cara, como uma caricatura maldosa. Ribamar, é o nosso office-old, está sentado à minha esquerda, desde o dilúvio e tem muitas ocupações. A principal delas é espremer a cara de sua espinha. Não, não escrevi errado, meus atenciosíssimos leitores.  Na verdade, espremer a cara de sua espinha, é um eufemismo. Porque cara já não há. Minto e já me corrijo, às vezes, sou possuído por uma tenra ternura, quase infantil, quando vislumbro traços de seu antigo rosto. Mas, sendo sincero, não é o pus, o sebo, o sangue, que me dão nojo, quando ele começa a se espremer todo. Não, não são. É a baba, essa excreção viscosa, caprina, incrivelmente plástica, que escorre do queixo até a mesa e mela papéis, canetas, clips, para só então cair no abismo que se revela entre o tampo da mesa e o chão, para cumprir seu destino final no orbe oval, que me enoja. Sim, é essa baba. Mas isso não tem importância.

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DEVO NÃO NEGO, PAGO QUANDO PUDER.

MAS O QUE FAZER QUANDO NUNCA SE PODE?

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Não sei se já disse isso a vocês, mas se não disse, digo-o agora, sou um inadimplente até na hora de pagar pelos meus pecados. Minhas promessas devem estar todas protestados em algum cartório no céu. Sim, se Deus me apresentasse a conta, eu teria imensas dificuldades para zerar meu débito e, provavelmente, Ele me partiria dessa pra pior. E com um saldo muito mais negativo, é claro. Mas não pensem, por favor, que este é um fato recente ou que estou me fazendo de vítima. O que eu quero mesmo lhes dizer é que sofro as mais cavas e profundas humilhações desde que, aos 9 anos, comprei fiado o meu primeiro Sonho de Valsa no empório do seo Nicanor e não consegui pagar. Isso me marcou para sempre. Desde então sou um aleijado emocional e economicamente. Minto e já me corrijo. Eu não tinha 9, mas 6 anos e não era um Sonho de Valsa e, sim, uma mirabolante, invertebrada e auspiciosa Maria-Mole. E também não era nenhum empório, mas um simples e humilde armazém de bairro, cujo dono era o seo Boleslau. De lá pra cá, não pago integralmente nem flexões. Pois, como já lhes disse, o mês é grande demais para esse salariozinho de merda que me aguarda ao fim de cada 30 dias.  Mas isso não tem importância.

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PÉ EM DEUS E FÉ NA TÁBUA?

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O que eu queria mesmo lhes dizer é que não sou nem um pouco modesto quando me refiro à minha extraordinária capacidade de escrever. “Nem tanto. Nem tanto.” Alguns mais apressadinhos já devem estar me contrariando em alto e bom tom e com razão. Muita vez me pego de ego inchado e sou acometido por eufóricos delírios. Mas me explico melhor e, espero, assim não daremos vez à maledicência e ao mal entendido. O certo é que saber escrever é saber pensar. E saber pensar é saber ler, estudar, ouvir, ver, comparar, analisar, enfim, ter consciência de que tudo está  intimamente ligado e caminha para o mesmo fim.                                Isso é vida? Ler até o olho fazer bico e, cego, continuar às apalpadelas buscando sentidos que até o braile passa por cima? Querer tirar de cada palavra, vírgula, ponto, letra, a essência da beleza, espremendo, rasgando, dilacerando, moendo a própria carne? Ora, vamos e venhamos, isso não pode ser. Ou pode? Então isso não vai ficar assim. Ou vai? E vai que você começa e dá certo. Aí você vai querer me agradecer, mas eu não estou nem aí. Não quero chamar ninguém de burro, só porque o mundo está cheio de ignorantes. Mas isso não tem importância, meus sapientíssimos leitores.

O VAMPIRO É O INCRÍVEL CHUPA-CABRAS EM CARNE E OSSO.

O que eu queria mesmo lhes dizer é que o Trevisan chegou à noitinha lá em casa na terça-feira e, cão faminto, esparramou-se sobre a tigela de broinhas de fubá mimoso e, gambá sedento, mergulhou no litro de licor de ovos e, porco satisfeito, arrotou e, então, descascou:

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– Vai à puta que te pariu, Dalton. O Torcedor está louco. Cheguei ontem lá no hospital e, sem mais nem menos, ele voltou a falar.

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– O quê? O tio falou de novo? Mas desta vez com você…

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– Nada. Ele dialogou novamente consigo mesmo e na minha presença. Aliás nem sei se ele percebeu que eu estava lá.

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– Ahahahah… Essa é boa. Me conte os detalhes.

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– Bom, eu cheguei, cumprimentei e ele nada. Mas, súbito, ergueu-se da cama, foi até o espelho, esticou o braço como se fosse dar a mão a alguém e apresentou-se a si mesmo: – “Muito prazer, sou o Torcedor. Torço pelo futebol arte. Estou realmente encantado em conhecê-lo. Sinto que sua nobre presença alegra e beatifica este ambiente hostil onde estou reservado.”  Imagine minha cara de espanto, Dalton.

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– Então o velho pirou de vez.

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– Você conhece teu tio melhor do que eu, mas a verdade é que fiquei ouvindo tudo aquilo durante 6 horas sem…

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– 6 horas?

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– E 42 minutos. Ele não parava nem para respirar. Parecia que estava tentando impressionar sua imagem no espelho.

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– Ahahahaha…

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– De repente, deu um grito: “Não me fale no Dunga!” E quedou mudo. Deitou na cama, cobriu a cabeça e, sob os cobertores, ainda disse com a voz cansada: -. ” E faça-me o favor de não  aparecer nunca mais na minha  frente!”

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– Que coisa! Você falou com o médico?

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– Falei, mas ele apenas me disse que é  normal, pois também faz isso todos os dias desde que saiu do Bom Retiro, onde esteve internado.

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– Ah ótimo, ótimo. Mas mudando de assunto, pegou a mensagem do Machado de Assis no terreiro do Pai Véio Chico Fantasma?

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– Não. Eu estava trepando com tua mãe e no meio do rala-rala, chupa-chupa, tira-enfia- enfia-tira, ela disse que ia buscar pra mim. Porra, Dalton, você me conhece há quantos anos? E ainda faz esse tipo de pergunta? Está aqui, idiota. Mas lembre-se, o Véio disse que é para você abrir o envelope somente às 3h33 da madrugada, hora em que os demônios estão divididos ao meio.

– Porra, que conversa! Você não acha que todo esse misticismo é…

O Trevisan sai e não diz nem tchau. Me atraco com o resto das broinhas e dou umas belas talagadas no novo litro de licor, antes que Dona Zenóbia, minha doce esposa, o faça. A broinha e o licor me amolecem as pernas e me estendo largadamente sobre a rede. É tão bom olhar para o céu em noite de lua cheia… De repente a Lua é todos os pensamentos e todos os pensamentos têm luz, silêncio e gravidade. Lembro do Torcedor e rio de mim mesmo. Mas isso não tem importância.

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O NELSON RODRIGUES É UM ESPELHO.

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O que eu queria mesmo lhes dizer é que há muito tempo, acho que era 1972, isso 1972. Não, não era. Era 1970. Lembro-me bem, a noite estava calma, o ar, adocicado, e todas as flores do Rio de Janeiro cantavam “Primavera” junto com o Tim Maia. Eu e Nelson caminhávamos à procura de um bar em Copacabana. No caminho, ele vazado de luz como um santo de vitral, me dizia:

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– Dalton, posso não ter outras virtudes, e realmente não as tenho. Mas sei escutar. Direi com a maior e mais deslavada imodéstia, que sou um maravilhoso ouvinte. O homem precisa ouvir mais do que ver. Qualquer conversa me fascina e, repito, não há conversa intranscendente. E, se duas pessoas se falam, a minha vontade é parar e ficar escutando. Uma simples frase, ainda que pouco inteligente, tem sua melodia irresistível. Há uma semana, por exemplo. Eu ia passando e vi duas senhoras no ponto de ônibus. Conversavam. Estaquei e resolvi ouvi-las. Eram duas gordas e uma delas perguntava à outra: – “Sabe onde fica a Praça Serzedelo Correia?” A outra respondeu: – “É pertinho daqui. Ali.” E mostrava com o dedo: – “Está vendo? Ali.” A primeira olha e suspira: – “Então vou tomar o ônibus.” A distância que a separava da praça era uma quadra. Comecei a ver ali um mistério insuportável. Por que tomar um ônibus para ir de uma esquina à outra esquina? Foi mais ou menos o que disse a segunda senhora: – “Não precisa ônibus. Para que ônibus? Tão pertinho.” Novo suspiro da primeira: – “Estou tão machucada. Vou mesmo de ônibus.” Foi aí, e só aí, que eu e a outra percebemos a evidência total. Estava, sim, bem machucada. Na minha infância, dizia-se “amarrotada”. E ela estava amarrotada. O olho esquerdo, ou direito, tinha um halo negro, um halo que parecia feito de rolha queimada. Um das orelhas (não vi a outra) estava enorme como a de um boxeador. Enorme e vermelha ou roxa. A simples palavra repercutia, dolorosamente, lá por dentro. E, então, compadecida, a outra quis saber: – “Mas que foi isso? Desastre?” Parecia um bárbaro atropelamento. E havia, na conversa, um clima folhetinesco. Não perco uma palavra. Veio a resposta: – “Foi meu filho que me deu uma surra.” Dizia isso sem nenhum horror, em tom castamente informativo. Era como se não fosse ela a mãe, e fosse o filho da vizinha o espancador. A segunda senhora deixa passar um momento. Ainda espicha o pescoço para ver o ônibus. E pergunta, com relativo interesse: – “Bateu na senhora?” Geme: – “Bateu.” E havia no que uma perguntava, e a outra dizia, uma naturalidade hedionda. – “Bateu por quê?” Disse: – “Me pediu dinheiro. Eu não tinha. Já sabe . Meu filho tem um gênio que Deus te livre. Muito nervoso.” A segunda olha no fim da rua: – “E esse ônibus que não vem?” Espia o relógio e suspira: “Caso sério.” A primeira está dizendo: – “Quando respiro…” Respira fundo: – “Dói aqui.” E espeta o dedo: – “Bem aqui.” E, súbito, chega o ônibus. Uma subiu, fácil e lépida. Mas a mãe espancada foi uma dificuldade. Dizia baixinho, como se o motorista pudesse ouvi-la: – “Espera, espera.” O cobrador fica olhando e reclamando: – “Como é, minha tia?” Lá fui eu ajudá-la. Um outro apareceu. Foi empurrada, quase carregada. Gemia: “Ai, ai.” Finalmente, entrou. Arquejou para mim e para o outro: – “Deus te abençoe, Deus te abençoe!” O cobrador deu o sinal e o ônibus partiu. Começou, para ela, a longa viagem de uma esquina para outra esquina.”

Quando finalmente sentamos no Bar …( esqueci o nome), em Copacabana. Ah lembrei, Bar da Ponta. O Nelson, soltando fogo pelas ventas, me perguntou: – “Dalton, será que essa mãe não tem marido? Ou um outro filho? Ou vizinho? – Ela pode ser viúva, com um filho único. – Mas teria vizinhos. E, além disso, há a imprensa, o rádio, a televisão, o congresso, o senado, as forças armadas, etc…etc. Um filho espanca a mãe e fica por isso mesmo? Admito que não se faça nada. Mas o que não entendo é que ninguém se espanta. O brasileiro se espanta cada vez menos. A própria vítima não me pareceu espantada. Lembro-me de que ao contar a surra inflexionava como se tivesse pena, não ódio (ódio nenhum), pena do filho. Era uma espécie de ternura apiedada. Se a outra condenasse o rapaz, ela o teria defendido talvez. Talvez, não. Estou certo de que o teria defendido. E, se a apertassem muito, acabaria dando razão à surra. E iria para o espelho acusar a própria imagem: – “Bem feito, bem feito!” Essa mãe, Dalton, capaz de dar razão à surra, existe aos milhares, existe aos milhões, em todas as terras e em todos os idiomas. É o próprio mundo – não, não – , é a própria família que atira pela janela todos os seu valores.”

Nelson, respirou profundamente e espiou o fundo dos meus olhos e continuou:- “Dois dias depois, no mesmo ponto de ônibus, dou de cara com a gorda amarrotada, abraçada com o filho espancador. E sabe que ela estava feliz com aquele olho cor de gangrena?”

Rimos sem saber exatamente do quê. No entanto, a noitada foi admirável e bebemos até o sol sair e o bar se pôr. Mas isso não tem importância.

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UMA PORTA QUE NUNCA FECHA,

COMO SE ABRE?

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Ontem, às 4h45 o telefone toca e corro para atender, pois Dona Zenóbia já dormia, como um anjinho. E não gosto nem de pensar alto, para não acordá-la.

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– Alô?

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– Oi, Dalton! É o Beco.

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– Eu sei. Ninguém mais, neste ou no outro mundo, me ligaria neste horário.

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Ah… que bom. Você já estava dormindo?

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– Imagine, de jeito nenhum. Dona Zenóbia está batendo o bumbo e eu, tocando tuba. Estamos ensaiando para tocar na Oktoberfest.

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– Parabéns. Espero que seja um sucesso. Vão se apresentar em mais algum lugar?

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– Sim, sim. No Circo Irmãos Queirolo, dia 30 de fevereiro.

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– Vou estar lá, vou estar lá!

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– Mas que que manda, Beco?

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– Dalton, nas pessoas de capacidade limitada, a modéstia não passa de mera honestidade, mas em quem possui grande talento, é hipocrisia. É ou não é?

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Tremo gelatinosamente e sinto um forte abalo dentro da alma. Muitas portas se abrem em meu cérebro. Mas arrisco:

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– Com certeza, Beco. Você foi na veia.

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– Então é por isso que é mais fácil separar a água do vinho do que a hipocrisia da verdade no julgamento das ações humanas?

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Suando frio, com uma cava inquietação no espírito e o coração batendo impiedosamente na goela, tento ser normal:

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– Onde realmente você quer chegar, Beco?

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– É que, às vezes, procura-se parecer melhor do que se é; outras vezes, pior. Hipocrisia é hipocrisia, assim como uma montanha é uma montanha desde o princípio dos tempos até o dia em que ela foi a Maomé. É ou não é?

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Com as entranhas queimando sob a ação de flamejantes ácidos encapsulados no meu estômago e a língua sofrendo arrancos fenomenais em outros dialetos, com a boca trêmula, escancaro:

– Benne, Bieco, mrzbruth capuxzeu azo ke… Desliga e não me deseja nem bom dia. Vou para a varanda e a lembrança das 3h33 da madrugada de anteontem me provoca um profundo arrepio. Abri o envelope na hora exata. Nem um segundo a mais, nem um segundo a menos. Retirei do envelope aveludado a folha branca como o pergaminho mais incorruptível. A sensação táctil ao tocá-la foi de total prazer, me pareceu estar tocando a pele rósea de um bebê sorridente. Mas foi ao lê-la que todo meu ser se crispou. E em letras magistralmente grafadas, ali estava a verdade, nada mais que a verdade: –  “Dalton, não levante a espada sobre a cabeça de quem te pediu perdão. Pense nisso com carinho. Assinado: Machado de Assis.” Confesso, meus superticiosíssimos leitores, que aquelas palavras, assim, jogadas na minha cara, quase me nocautearam. Não é todo dia que se lê uma verdade inapelável dessas, ainda mais quando ela vem de quem vem e, mais, quando vem do além. Mas isso não tem importância.

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FOI, É, SERÁ O QUE DEUS QUISER?

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O que eu queria mesmo lhes dizer é que o campeonato vai que vai. E o Coritiba foi à Vila Capanema duas vezes e trouxe 6 pontos para o Alto da Glória. Justo. O time, nos dois jogos, entrou em campo soltando fogo pelas ventas e fez o resultado praticamente nos primeiros tempos. Nos segundos, o Nei mexeu onde não devia e fez caca. Quase entrega a rapadura. O bom é que esse Rafinha joga muito e é o artilheiro do campeonato. O gol que marcou merece uma placa no Durival de Brito. O Marcos Paulo vem crescendo de produção. A zaga é ruim, bate cabeça e o Edson Bastos tem que se desdobrar para segurar a peteca. O Maringas está com calos nas mãos de tanto aplaudi-lo. Outro que me agrada é o Enrico, piá bom de bola e de visão. E como chuta! Dos laterais, só falo do Fabinho. Leva jeito, é arisco e agressivo. Lembra o nosso antigo Rafinha. No ataque de nervos, Ariel perdeu a cabeça com essa história de renovação de contrato. Se for pra acontecer o que aconteceu com Marcelinho Paraíba, melhor dispensar já. O Marcos Aurélio apesar do gol, está devendo. Muito individualista, não enxerga o óbvio e vai perdendo gols e perdendo bolas importantes. “A torcida que nunca abandona” não merece ser chamada assim. O time é líder, invicto e a torcida fica em casa assistindo Faustão. Deus me livre, crêndios padre!

O Atlético depois de sair mordido de Cascavel, com um extravagante 0X0 na bagagem, voltou a Baixada e fez o que quis com O Corinthians. O Alan mostrou o que é que o Bahia tem. Meteu dois, o primeiro um canhotaço lindo de ver. O goleiro corinthiano acha que foi um UFO que passou em sua vida. Mas verdade seja dita, se não fosse o Colombo, que nome hein?!, o Atlético tinha feito o mesmo que fez com Serrano domingo passado. O Delegado não sabe se prende ou se solta mais o time. O time alterna bons momentos com outros de pernapauzice pura. Mas os reforços estão entrando e o time deve ter uma sensível melhora. A torcida está desconfiada e apesar de ter a melhor média de público, não deixa de ser chocha. O Timãozinho que estava invicto, tomou de 2 mas saiu de quatro. Perdeu a invencibilidade e, de quebra, ficou 5 pontos atrás dos coxas. Bem feito.

´Nos jogos do Paraná entrou água. No primeiro contra o Irati, literalmente. O juiz, democraticamente, chamou os capitães, perguntou se eles aceitavam mudar o jogo para Pólo Aquático. Diante da recusa, dos enfaixados. O juiz mandou todo mundo tomar banho e não disse nem tchau. Hoje, jogo da TV, o Paraná pegou o Cianorte pela frente. Depois de um começo fulgurante, o Paraná perdeu-se e o Cianorte achou-se. Puta pressão com várias chances de gol. A que o Tico Mineiro perdeu até o Papa fazia. Mas é aquela coisa, quem não faz toma. E o Pará, grande nome do jogo, apesar de entrar nos últimos minutos, acertou um petardo. O goleiro nem pôs a mão porque sabia que a bola lhe arrancaria o braço. Um golaço. E já nos acréscimos. Mas alegria de pobre dura pouco e, de pênalti, aos 49, o Cianorte chega ao empate, gol de Tico Mineiro que bateu mal, mas levou sorte, pondo água no chopp do Paraná. Mas isso não tem importância.

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PRETO NO BRANCO.

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Mais uma semana se foi. E quanta coisa pode acontecer em 7 dias, meus semanalísticos leitores. Às vezes, os dias são mais rápidos que a conta de luz; em outras, parecem se arrastar interminavelmente. O que fazer? É a vida. E não tem outra. A verdade está aí, na nossa cara. Aquele que não a conhece não passa de um ignorante, mas aquele que a conhece e a ignora, este é o mais criminoso dos pecadores. Vamos abaixar as espadas e perdoar mais, afinal, a vida é de morte mesmo. E ninguém vai ficar pra semente. Pensem nisso, com carinho. E, se puderem, poupem-me, que de mim e do eu só me resta a dor e a delícia de ser o que sou: um escriba profundamente apaixonado por qualquer tipo de manifestação de vida. Até.

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Dalton Machado Rodrigues

daltonmrodrigues@gmail.com

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~ por polacodabarreirinha em 01/02/2010.

2 Respostas to “”

  1. é fantástico ver o Dalton vivo novamente

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