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Bola Perdida

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“O que nós fazemos nunca é realmente compreendido, apenas louvado ou condenado.”

(Nietszche)

“Procurei a felicidade por este mundo sem fim, sem saber que ela estava dentro de mim.”

(Nabuto Almada)


” Acredite nos que buscam a verdade, não nos que acham que já a encontraram.”

(André Gide)

Meus cepticíssimos leitores, muita vez me pego a pensar com meus botões de futebol de mesa. São longas, controversas e intrincadas elocubrações e, confesso, adoro dedicar parte do meu tempo a essas meditações que me levam a novas conclusões e mudanças de atitude. Ontem, o ar fresco da noite levou-me à varanda, onde fiquei, creio, durante umas boas duas horas. Eu pensava e em que pensava não me perguntem, eu digo e até repito, em milagres, em milagres. E milagres, vocês sabem, não acontecem todos os dias. Ou melhor, acho que milagre mesmo é sobreviver com esse salariozinho que recebo mensalmente. Eu não sei se já disse a vocês que sofro as mais cavas e profundas humilhações, por ser um aleijado emocional e economicamente, desde que me conheço por gente.  Lembro que tudo começou na inocência de meus sete anos quando comprei fiado minha primeira paçoquinha na Bodega do seo Nicanor e não pude pagar.  Na tenra ternura da idade, isso foi um marco em minha vida. Minto e já me corrijo. Não foi aos sete, mas aos seis e não era uma paçoquinha, e, sim, uma esplêndida, sensual  e corcoveante maria-mole. Assim como também, a bem da verdade, não era a Bodega do seo Nicanor, mas, sim o lendário e inesquecível Armazém do seo Boleslau. De lá pra cá, com a mais cínica e deslavada impostura, virei um criador de frases postergativas para dívidas, que de tão criativas acabaram por me transformar em escritor. Hoje meus maiores fãs são meus credores. Então, sou obrigado a admitir: “Sim, eu acredito em milagres.”

OS FALACIANOS ODEIAM QUANDO EU BRINCO EM SERVIÇO.

– Ah, não! Nem vem com essa, tarado! Milagre agora, pra cima de nós?! Essa não vai ter perdão, é tiro na boca. Aahahahahahah… Chilreia o pardalzinho pousado à minha direita, o Geraldo, que por não ter o que fazer, vive fazendo aqui ao meu lado. Não sei se já disse a vocês que o Geraldo é um ser difuso, volátil, difícil de ser retratado, mas, em rápidas pinceladas, tenho tentado aqui, aos poucos, dar-lhes uma idéia mais clara de sua insignificância. Seu porte físico é disforme, semi-símio, seus braços longos e desajeitados vivem esbarrando em xícaras de café, copos, garrafas. Apesar da banha abundante e conclusiva, é frágil como um passarinho na chuva e tem a estranha mania de ficar vigiando tudo que faço aqui na redação e, o que mais detesto, de plagiar minhas melhores frases. De quando em quando, vem comer alpiste na minha mão piedosa e cheia de dedos, mas na maior parte do tempo, toda sua alma pênsil se dedica ao chiste, à bazófia e à pilhéria de mau gosto. Não lhe quero mal e nem bem também. Ele e Ribamar, o office-old aqui da redação, são esse tipo de gente a que o Charles Bukowski se referiu em seu poema O Gênio das Multidões: “o que existe de falsidade, ódio, violência e absurdo na pessoa mediana é suficiente para abastecer qualquer exército.” Mas isso não tem importância.

– Como assim? Como assim? Que pobreza de estilo, é sempre a mesma lenga-lenga, mas isso não tem importância, meus idiotíssimos leitores, mas não é isso que eu queria dizer. Porra meu, se flagre! Escreva algo diferente, invente, ô boca de burro. Ahahahahahah… Zurra o quadrúpede, esse mamífero perissodáctilo de tamanho médio com focinho e orelhas compridas e uma espinha enorme ocupando o lugar do rosto. Ribamar, entrou no Guiness, recentemente, por ser o mais idoso office-boy do mundo. Quando não está me perturbando, é porque está espremendo alguma, que ele cultiva, apara e aduba com as mais inverossímeis técnicas para o desenvolvimento e mudança genética das espinhas. Junto com o Geraldo, eles formam um par ímpar, capaz mesmo de fazer com que eu perca qualquer resto de esperança na salvação da raça humana.  Mas não era isso o que eu queria lhes dizer.

– Então não diga, cavalo de teta! Ahahahahaha… Em uníssono a dupla despeja em meus ouvidos seus divertimentos e sai, de braços dados, para fumar.

TUDO É MUITO RELATIVO.

Que coisa, né, meus impressionadíssimos leitores? Mas façam como eu, apenas os observem e verão que, apesar de tudo, Geraldo e Ribamar não são tão extravagantes e nem tão diferentes dos muitos seres humanos que alimentam a hipocrisia, a inveja e a maledicência. Mas volto ao que eu queria lhes dizer. Existem apenas dois modos de viver a vida: um é como se nada fosse milagre; o outro é como se tudo fosse um milagre. Eu, como Albert Einstein, acredito que tudo é milagre. Sim, milagre. Nada mais do que um cínico e deslavado grande milagre. Dias desses, encontrei uma bela mulher, de origem ucraniana, na fila do ônibus que, segurando meu braço, me dizia, para todos ouvirem: “Um dos maiores milagres de Deus é permitir que pessoas comuns façam coisas incomuns.” E, não satisfeita: “Não devemos permitir que o relógio e o calendário nos ceguem para o fato de que cada momento da vida é um milagre e um mistério.” Pra ser sincero, nem sei como foi que começou a nossa conversa, mas toda aquela verdade enciclopédica, dita assim em via pública, me humilhou a tal ponto que tomei o ônibus errado e o certo dela, que permaneceu atada a mim por um de seus fortes tentáculos. “O senhor veja bem, se não usarmos o milagre que Deus nos deu hoje, ele se perderá – porque não pode ser guardado ou utilizado amanhã. Estar viva, ser capaz de ver, andar, ter casa, ouvir música, admirar pinturas, tudo é um milagre. Adotei a técnica de viver a vida milagre a milagre.” Falou com tão admirável tom que saí correndo do ônibus e quase fui atropelado por uma Kombi carregada de frutas e dirigida por um chinês que me fulminou: “Qué molê?”

“O senhor escapou por milagre!” Alguém gritou do outro lado da rua. Mais humilhado ainda, juntei o que sobrou de mim e, com passos galgos, saí dali o mais rápido que pude. Fui a pé, mas, a caminho de casa, não pude deixar de pensar na beleza que tem a fé, que nos leva a acreditar em milagres. Mas isso não tem importância.

SÓ NO NOSSO?

O que eu queria mesmo lhes dizer é que em países riquíssimos como Áustria, Dinamarca, Finlândia, Suíça, Holanda entre outros, vereadores, deputados e senadores ou não recebem nada para exercer o cargo ou recebem apenas uma pequena ajuda econômica para fazer frente às despesas inerentes ao cargo. São políticos que querem o melhor para o seu país e para a sua gente, governam para o bem de todos. “Mas deve haver corrupção também!”, diriam alguns mais apressados. Creio que sim, mas há uma distância enorme do que se faz em nosso país. Vejam vocês, o CSS vem aí para substituir o CPMF. O governo quer arrancar do nosso bolso até o que ele já não tem. E nós, milagrosamente, iremos pagar, é claro. Já são 74 tributos, mas para pagar os salários de nossos políticos e suas verbas de representação, gabinete, assessores e funcionários é preciso muito mais. Muito mais. Maracutaias, desvios, achaques, comissões, já fazem parte do contracheque até do vereador do bairro Puta Que Pariu, em Bela Vista, cidade do interior de Minas Gerais, mas não chega. Vejam vocês a que ponto chegamos, não podemos nem mandar essa canalhada pra PQP, porque vai todo mundo pra Minas. E Minas não há mais, diria Drummond. Mas isso não tem importância. Esses dias, um ex-vereador pedófilo foi preso por cometer vários crimes sexuais contra crianças. O meliante tem 56 anos e é aposentado pela câmara de vereadores de sua cidade com a bagatela de R$ 19.952,73 mensais. Transido de espanto, digo a vocês que os 73 centavos me humilharam mais que os 19.952. Mais, muito mais. Aqueles 73 centavos me jogaram na cara toda a falência do nosso sistema. Todo o dinheiro desviado da saúde, da educação, da infra-estrutura, estavam ali, diante dos meus olhos esbugalhados. Nada mais profano, criminoso, vil que aqueles 73 centavos. Toda a miséria brasileira exposta como uma fratura na imoralidade daqueles 73 centavos. Mas isso não tem importância.

SANTO DE CASA NÃO FAZ MILAGRE, SENHOR?

O que eu quero mesmo lhes dizer é que o campeonato paranaense vai que vai. Só não me perguntem para onde? As torcidas não estão nem aí e, também, não estão nos estádios. Onde estarão? A torcida que nunca abandona, foi uma grande ilusão alviverde. A verdade é que os coxas ainda não assimilaram a queda para a segundona. Mas 2010, o ano de seu centenário, tem sido generoso. Mais que isso, tem sido 100%. Jogou 7 vezes e papou as 7. Na quarta, o Operário. No sábado, o Irati. 1×0 e 3×1. Nas duas partidas, Edson Bastos e Marco Aurélio jogaram muito, muito mesmo. O goleirão pegou até pensamento, impressionante! O Marcos Aurélio estava devendo e pagou tudo, marcou 3 e ainda deu o passe para o Pereira marcar o seu. Outro que se destaca cada vez mais é o Leandro Donizete, joga demais. É onipresente, é o único no mundo que consegue estar em dois ou mais lugares ao mesmo tempo. Aonde a bola vai, ele vai atrás. No sábado, o Rafinha foi a nota destoante. Não se pode elogiar. Expulso na comemoração do terceiro gol, pode? Uma boa multa vai fazer ele pensar duas vezes antes de fazer caca.

O primeiro clássico da temporada, Paraná x Atlético, foi uma total decepção. Jogo caro, um futebolzinho pobrinho e sem nenhuma inspiração e público digno de um Trieste x Combate da Barreirinha e não do segundo maior clássico do Paraná. Melhor para o Atlético que ganhou 3 últimos jogos e assumiu definitivamente a segunda colocação. Se não jogou bem o clássico, pelo menos, voltou para a baixada com os 3 pontos no bolso, deixando a crise para o adversário. O Paraná, independente da fúria de sua torcida, vai precisar de vários milagres para levar este campeonato. Reza braba, despacho, patuás, ferraduras, não resolvem mais. Nem o pênalti na trave serve como desculpa para a derrota em casa. Mas isso não tem importância.

TREVISAN – UM VAMPIRO QUE VIVE MORCEGANDO LÁ EM CASA.

O que eu queria mesmo lhes dizer é que o Trevisan chegou à tardinha na quinta-feira e, babando secreção salivaria, despejou sua fúria dental sobre minhas broinhas de fubá mimoso e, no tremor parkinsonista de seu delirium tremens, mandou, lépido, garganta abaixo, um litro inteiro de licor de ovos, em rápidas e certeiras talagadas, só então descascou:

Dalton, teu tio só não virou merda seca de micróbio porque foi atendido na hora. Foi um infarto fulminante, daqueles que normalmente o cara cai duro, seco, arreganhado e sem volta.

– Estou sabendo.

– O Torcedor vai ter que ficar 30 dias em repouso absoluto, visitas só na semana que vem.

– Bom, pelo menos, ele vai descansar na marra. Vai ser bom.

– É, proibiram televisão, rádio e jornal. É soro e sono. Falei com os médicos que o atenderam. O troço foi foda. O Torcedor ficou 48 horas discutindo filosofia, em altos brados, com o espelho. Me disseram que a questão principal era sobre a imagem que fazemos de nós mesmos.

– Ahahahahahahahahaha! Que loucura!

– Imagine o cara berrando pro espelho: “Quem você pensa que é, para me falar nesses modos?

– Ahahahahahahahahah!

– Daí, deu uma porrada no espelho e quebrou em mil pedaços.  E quando viu sua imagem refletida neles, gritou: “Arrã, foi buscar ajuda, canalha?!” Foi nessa hora que teve o infarto.

– Bom… Ainda bem que o velho está bem. Vamos ao que interessa. Pegou a mensagem do Machado de Assis no terreiro do Pai Véio Chico Fantasma?

– Não deu. Tua mãe me trancou no quarto com uma chave de buça.

– Puta que pariu, você não cresce mesmo, né, Trevisan?

– É que você só faz pergunta idiota. Claro que peguei. Está aqui, ó! O Chico Fantasma disse que é para você abrir depois da meia-noite, à primeira lufada de vento.

– Sei não, Trevisan, mas às vezes acho que todo esse misticismo é uma grande…Sai e me deixa falando sozinho. O desgracido não diz nem tchau. Saio a passear pelo jardim e ponho-me a pensar. No céu, as primeiras estrelas tremelicam, pipocam aqui e ali inventando ritmos, para delírio dos meus olhos que nem piscam. É tão grande o universo e tão frágeis os signos, diante do mistério da vida, que percebo emocionado minha infinita miséria. A verdade, alma gêmea do belo, é enlevo, que se perde na treda ilusão da matéria. Ah! Os espíritos elevados, os santos, os poetas, os amantes do saber, artistas, estão aí espalhados pelos quatro cantos, se equilibrando, como os malabaristas se equilibram, no fino fio da esperança  de que tudo um belo dia será bem melhor. Uma estrela cadente, riscando, avança e faz eu lembrar de uma canção do Belchior. Ninguém na Terra está tão só como eu agora. A abóboda celeste, de um azul profundo, já acendeu todas as suas luzes lá de fora e eu vejo então toda a beleza desse mundo. Meu olhar vai de constelação a constelação e de constelação em constelação vou, como vai a emoção, de coração a coração, perguntando de onde vim, onde estou, quem sou. Uma lágrima cai do meu rosto e orvalha uma pequena folha que, distraidamente, quase esmago. Mas meu peito todo se cala diante do milagre que está à minha frente. Pra que saber? Por quê? Os séculos futuros terão o mesmo véu de mistério, o mesmo enigma devorando o indecifrável medo do homem, que, por pura ambição, vive em apuros. A hipótese bestial do apocalipse é triste, transforma nosso destino e nos acomoda, não nos dando a opção de agir sobre o que existe e o meu vizinho fosse só alguém que incomoda. É o mundo dos solitários, dos lunáticos; estes vivem à parte, aqueles, a chorar por si mesmos. E eu vejo a dor desses fanáticos, como um aviso aos navegantes de outro mar, outra vida, onde o amor e a compaixão andam de mãos dadas, como eu e Zenóbia, minha doce esposa, há pouco andávamos. Sento-me na velha poltrona e me deixo levar pelas imagens amorosas de nossa vida juntos e o tempo segue, inexorável, o seu caminho. Mas, de repente, não mais que de repente, as doze badaladas soam e um leve vento desgrenha meus cabelos. Pego o envelope com a mensagem mediúnica de Machado de Assis e faço um sobrolho pensativo. Mas isso não tem importância.

Dizem as más línguas que o Roberto Prado não é bem certo.

O telefone toca às 4h37 da madruga. Como um gato pula, pulei da cama e atendi antes que Dona Zenóbia acordasse.

– Fala, Becão!

– Como você sabia que era eu?

– Sou um adivinhão.

– Compre um bilhete de loteria, então.

– Assim que você desligar o telefone, vou fazer isso.

– Que bom. Ainda bem que vocês não estavam dormindo.

– Imagine, Beco. Eu e Dona Zenóbia estamos ensaiando com a nossa banda punk. Tá a maior sonzeira aqui em casa. É só vizinho ligando pra polícia.

– Que bom! Não parem, não parem. A arte vem sempre em primeiro lugar.

– Mas o que é que manda, Beco?

–  Os primeiros quarenta anos de vida nos dão o texto, os trinta

seguintes são só comentários. Certo, Dalton?

Sem saber para onde essa conversa me levaria, tento ser o mais equilibrado possível.

“Realmente, Beco. A reflexão é um dos dons divinos da alma humana e com a idade a gente vai aperfeiçoando esse dom.”

– Experiência não é o que acontece com você; mas, sim, o que você faz com o que lhe acontece. Não é mesmo?

Suando frio e com esgares tremelicando na face, sinto um peso comprimindo o estômago em demasia. Mas vou fundo: “Sim, na verdade a gente deve tirar sempre algo positivo de algo que nos aconteceu, mesmo que seja de uma desgraceira.”

– Lógico, com o rosto voltado para o sol, as sombras ficam para trás. Estou certíssimo, não acha?

Uma gota de suor frio escorre pela minha espinha me provocando arrepios. A boca seca, arenosa, parece não dominar mais a língua pátria. Mas arrisco: “ Benne, Breco, la vita erzum zamacofichez…”

Desliga e não me deseja nem bom dia. Mas aliviado, digo pra mim mesmo: “Isso não tem importância.”

“REAÇA! O NELSON RODRIGUES É UM REAÇA!”

( diminutivo de reacionário, nas décadas de 60 e 70)

Ontem choveu a noite toda e gosto do barulho e do cheiro da chuva. A chuva é mais um desses milagres da vida, e vida, vocês sabem, é essa coisa que acontece enquanto estamos preocupados com o nosso próprio umbigo, planejando coisas para viver melhor. Mas não era isso o que eu ia lhes dizer. O maestro Octávio Camargo me mandou um email cedinho, cujo teor reproduzo agora para vocês, meus curiosíossimos leitores: “Dalton, o Chaplin disse certa vez que o bom mesmo é ir à luta com determinação , abraçar a vida e viver com paixão, perder com classe e viver com ousadia, pois o triunfo pertence a quem se atreve. A vida é bela demais para ser insignificante. Isso pra mim, Dalton, diz tudo. É só a gente acreditar que os milagres vão pipocando à nossa frente.”

Fico tão feliz com a claridade do que leio que, mais uma vez, volto a pensar com os meus botões de futebol de mesa. Me vem à lembrança uma noite em São Paulo. Eu tinha ido assistir a um bate-papo com alunos da USP e o Nelson Rodrigues e acabei me perdendo e perdendo a hora. Quando cheguei, ele já encerrava sua palestra sob vaias e gritos de “reaça!, reaça!” de muitos presentes e aplausos de poucos. Lembro que me aproximei dele, segurei-o pelo braço e pouco minutos depois estávamos num táxi a caminho do Bar Brahma, que fica ali na esquina da Ipiranga com a avenida São João, desde 1945. Não. Minto. Desde 1948. Nelson estava furibundo e soltava fogo pelas ventas: São idiotas, idiotas da objetividade e eu sou um ex-covarde, Dalton. Hoje, (era dia 18 de outubro de 1968, meus informadíssimos leitores) é muito difícil não ser canalha. Por toda parte, só vemos pulhas. E nem se diga que são pobres seres anônimos, obscuros, perdidos na massa. Não, não mesmo. Reitores, professores, sociólogos, intelectuais de todos os tipos, jovens e velhos, mocinhas e senhoras. E também os jornais e as revistas, o rádio e a TV. Quase tudo e quase todos exalam abjeção.”

– Você não está radicalizando demais, Nelson? Me encorajo a perguntar.

– Nem todos , claro. Há sempre uma meia dúzia que se salva e só Deus sabe como. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo. O que existe por trás de tamanha degradação é o medo. Por medo, os reitores, professores, intelectuais são montados pelos jovens. O medo começa nos lares, e dos lares passa para a igreja, e da igreja para as universidades, e destas paras as redações, e daí para o romance, para o teatro, para o cinema. Sim, os pais têm medo dos filhos; os mestres, dos alunos. E sobre esse medo, Dalton, cai todo o silêncio da nossa pusilaminidade. Repito, sou um ex-covarde. É maravilhoso poder dizer tudo. Para mim, é de um ridículo abjeto ter medo das Esquerdas, ou do Poder Jovem , ou do Poder Velho. Não trapaceio comigo, nem com os outros. Para ter coragem, precisei sofrer muito. Mas a tenho. E se há rapazes que, nas passeatas, carregam cartazes com a palavra “muerte”, já traindo a própria língua; e se outros seguem as instruções de Cuba; e se outros mais querem odiar, matar ou morrer em espanhol – posso chamá-los, sem nenhum medo, de “jovens canalhas.” Foi só então que eu entendi o que deve ter acontecido durante a sua palestra. Depois, Nelson falou pouco, muito pouco. Seus olhos estavam frios e distantes. Mas isso não tem importância.

O VERDADEIRO MILAGRE É JAMAIS PERDER A FÉ!

A memória faz milagres às vezes. Por exemplo, acaba de me ocorrer que hoje é dia mais importante de nossas vidas. Porque estamos vivos e não há nada mais precioso do que a vida. Ontem, após as doze badaladas e a forte lufada de vento, tomei nas mãos o envelope e abri. A pequena folha, através da sua textura magnífica, encheu de carinho as minhas mãos. A letra clássica, elegante e sem muitos adereços, ia direto ao assunto: “Dalton, daqui pra frente o fogo é irmão da dinamite!” E assinava “do amigo Machado de Assis.”  Confesso, meus atentíssimos leitores, a clarividência oportuna dessa mensagem acabou com as minhas últimas ilusões. Tomei um choque de realidade. Nada nesta vida me acertou tão em cheio e de forma tão avassaladora. Instantaneamente me veio à lembrança os versos de Gonçalves Dias: “A vida é combate/ que aos fracos abate/ e aos bravos e aos fortes/ só faz exaltar.”  Mas não era bem isso o que eu queria lhes dizer. A verdade é que mais uma semana se foi, e mais uma segunda-feira estou aqui com vocês, meus queridíssimos leitores, e este é o verdadeiro milagre.

Do resto, poupem-me, pelo amor de Deus!

Dalton Machado Rodrigues

daltonmrodrigues@gmail.com

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~ por polacodabarreirinha em 09/02/2010.

2 Respostas to “”

  1. Não é um texto é uma aula.

  2. vale a pena ver(ler) de novo
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