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Da série Ângulos Insólitos, by Rettamozo.

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Bola Perdida


“Dizem que sou aquele que procura alguma coisa. Eu não procuro, eu encontro.”

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“No princípio era o verbo, até que surgiu um sujeito cheio de predicados.”

( Thadeu W)

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Meus afortunadíssimos leitores, ler-me, creio eu, se tornou, para muitos que aqui vem, uma aventura da qual eu participo muito pouco ou, pelo menos, penso que não. Explico melhor. Esta semana choveu e-mails na minha caixa postal, uma enxurrada provocada por problemas no provedor wordpress, que fez com que algumas pessoas me mandassem mensagens por outra via que não os comments. Acho que respondi agradecendo a todos, mas confesso que achei a tarefa enfadonha e cansativa. Mas isso não tem importância.

OS FALACIANOS ESTÃO CHEGANDO.

– Começou o festival de besteiras que assola a internet. Ô velho morfético, porra que trôço! O cara enrola mais que as charuteiras de Havana. Pilheria-me o ser da direita, enviando sons e perdigotos em minha direção. Mas jurei pra mim mesmo que hoje não daria atenção a Geraldo e Ribamar e nem às suas hidrofóbicas gracinhas.


– Ficou de mal, é? Viu, Geraldo, a múmia sifilítica está bem de mal com a gente…Ahahahahaha…


– Ahahahahahaha…A besta diabética acha que crônica esportiva é literatura! Ahahahaha…Que tal, hein, Ribamar? O velho obtuso quer um Nobel pelo conjunto de crônicas…Ahahahahahah…


Os dois, rindo e de braços dados, saem para fumar. Antes, porém, Ribamar entope de pomada Minâncora os poros abertos pelas recentes erupções de suas vulcânicas espinhas. Minha melhor resposta a gente dessa laia é o silêncio, a comiseração e a misericórdia. Não, não, meus obstinadíssimos leitores, não estou em estado búdico e nem em nenhum outro estado alterado de consciência. A verdade é que sou tão miserável e abjeto quanto estes dois praticantes do culto ao chiste, à pilhéria e à bazófia no altar da ignorância, da inveja e da maledicência. Mas isso não tem importância. O que eu quero mesmo lhes dizer e digo-o agora é que também sinto profunda inveja e desenfreado ciúme quando leio, vejo ou ouço algo que cheire a genial, extraordinário, belo ou novo. Nem bem ouço uma belíssima e verdadeira frase e lá vão meus neuróticos neurônios a provocar abalos emocionais e convulsões nervosas em todo o meu raquítico e combalido organismo. A parte mais visível desses transtornos se localiza em meu rosto, que, nestas crises, normalmente, se contrai num esgar trêmulo e jocoso, pois os olhos se esbugalham, a boca seca e toda a saliva do meu corpo é cuspida pelas axilas. Certa feita, um desses ataques me fez ficar mudo por mais de 10 segundos, de tão estupefato fiquei diante do quadro do Rettamozo, que hoje ilustra esta crônica. Confesso a vocês, meus absolvidíssimos leitores, o terror mudo, que se apoderou de minha pobre alma lógica e conclusiva naqueles 10 segundos, durou mais do que toda minha vida. E, vejam vocês, após este espanto espúrio, qual o primeiro sentimento a se manifestar em meu espírito? Não, não foi a alegria de ver uma obra-prima, de compartilhar um momento genial de criação. Não, não foi. O que primeiramente se manifestou em mim foi, pura e simplesmente, a inveja. E, para não deixar dúvidas, a mais cínica e deslavada inveja. Em seguida, numa descabida pretensão, dei-me ares de parceiro e vaticinei, batizando o quadro: “Gênio da Gênesis”, em tom mais solene do que o primeiro livro do Pentateuco de Moisés. E por tão humilhado, ainda não satisfeito, proferi: “O Retta está pau a pau com os grandes nomes da pintura universal.” E, num último solavanco de vaidade, com o rosto cavo, cavernoso e profundo: “É o nosso Hieronimus van Aeken Bosch travestido de hipérboles, o nosso Vincent van Gogh, pela ousadia e vigor das pinceladas, o nosso Miguel Bakun ressuscitado, em carne, osso e atávica genialidade.” As pessoas que me rodeavam, quase em transe epilético, com baba e revirar de olhos, soltaram emocionados ohs e uhs diante de tão apaixonada confissão. Fato que confesso, acalmou-me as lombrigas. Mas isso não tem importância.

SILÊNCIO!! GRITOU O TORCEDOR PARA SI MESMO.

O que eu quero mesmo lhes dizer é que, cedinho, o Trevisan chegou lá em casa com o cenho desfigurado pelo sobrolho pensativo. Antes de me cumprimentar, lépido, se atirou sobre minhas broinhas de fubá mimoso que minha doce esposa Zenóbia acabara de tirar do forno; antes de eu oferecer, ávido, talagou meu litro de licor de ovos de forma admirável, só então descascou:


– Então nada vai certo neste mundo?


– “A que exatamente você se refere, Trevisan?”


– O Torcedor diz que não vai mais torcer, cara. É o fim do mundo! E mais, reiterou que fará um jejum de palavras ad eternum.


– O quê? O velho pirou de vez!?


– Teu tio depois de dizer isso, calou-se.


– Meu Deus!, é o fim! Temos que fazer alguma coisa, Trevisan.


– O que me entristece mais é saber que sua eloqüência demostiana, a sua perspicácia cartesiana, a sua sabedoria laotseniana, a sua agudeza sartreana, o seu poliglotismo ruibarboseano, a sua criatividade kliebnikoviana estão silenciados para sempre.

– Pra sempre é muito tempo. Daqui uns dias, o velho desencana.

– Desencana, o caralho! O Torcedor é mais teimoso e convicto que padre que casa.


– Mas veja, Trevisan…
O vampiro não disse nem tchau e saiu, deixando palavras não ditas em minha boca e farelos no pirex, há pouco, repleto de broinhas de fubá mimoso. Do licor de ovos, levou até a garrafa. Mas sobre a mesa depositou um envelope azul, onde preso por um clips, no lado externo havia um bilhete:“Dalton, o Machado baixou em mim, ontem, na hora que apavora, e deixou uma mensagem, mas repetiu reiteradas vezes que não é pra você abrir o envelope antes do galo cantar 3 vezes. Deus te abençoe, meu filho. Assinado: Pai Véio Chico Fantasma.” Li e reli o recado, uma centena de vezes. Até que, exausto, adormeci com o envelope fechado nas mãos.

Mas isso não tem importância.

A LINGUAGEM REVOLUCIONÁRIA DOS POMBOS.

O que eu não posso deixar de lhes dizer, meus curiosíssimos leitores, é que acordei, horas depois, lembrando de um encontro que tive com o Nelson Rodrigues, em julho de 1969. Minto, era junho de 1968. A ditadura comia de pau qualquer um que falasse o que ela não queria. Isto é: qualquer tipo de crítica ao sistema. Estávamos bebendo, eu, chopp; ele, um pires de leite para acalmar sua úlcera temperamental. O local era o folclórico Bar Amarelinho, da Cinelândia, lá no Rio de Janeiro. O Nelson estava eufórico e, categórica e peremptoriamente, me dizia: “Hoje, a Praça de São Marcos tem mais turista americano do que pombo. E muitos, inadvertidamente, dão milho aos americanos e deixam os pombos a ver navios. Graças a Deus, a nossa Cinelândia ainda não foi invadida pelos nossos irmãos do norte. De sorte que, aqui, os pombos ainda constituem uma sólida maioria. Diria mesmo que a Cinelândia tem mais pombos do que o soneto de Raimundo Correia. E são tão mansos, de uma tal docilidade, que parecem amestrados. Mas eis o que eu queria dizer: certo dia, esses pombos foram surpreendidos por uns trinta ou quarenta rapazes. Num golpe de mão, os jovens ocuparam as escadarias do Municipal. Os pombos imaginaram que a rapaziada ia falar da guerra do Vietnã ou da ditadura brasileira, os assuntos da moda. Engano. Simplesmente estavam ali para um comício de um tipo jamais suspeitado. Ninguém xingou os Estados Unidos. O primeiro orador anunciou a morte da palavra. O segundo idem. E assim o terceiro, o quarto e o quinto oradores. Pode-se dizer que a palavra morreu cinco vezes. Os pombos se entreolhavam, num mudo escândalo desolado. Não entendiam nada. Mas nisto chegou o momento do milho. Dez minutos depois, voltam os pombos. Eis o que viram: os rapazes estavam rasgando poemas de amor. Com tal gesto queriam demonstrar aos pombos que a nossa época não comporta mais nem a palavra, nem o amor. Por fim, retiraram-se, gloriosamente, os rapazes. E então, ruflando as asas e sacudindo as penas, os pombos voltaram para o soneto de Raimundo Correia.” O Nelson silenciou e tive a nítida impressão de ver seus olhos, piscando asas de par em par, subindo e descendo pelos misteriosos telhados e encantados beirais até pousarem na calçada para dar pulinhos e bicar o milho. Mas isso não tem importância.

À PALAVRA DADA, NÃO SE MOSTRAM DENTES


O que eu queria dizer é que a palavra, para mim, é tudo. Sem ela, nem o zen poderia não ser expresso. Ou como Jesus bem disse:“Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de meu Pai.” É claro que o silêncio, às vezes, fala alto. E óbvio também que falar por falar, qualquer papagaio fala. O verdadeiro falar é aquele que fala com a verdade mais profunda do coração, com todo o sentimento, esse discurso onipotente, onisciente e onipresente é o que me interessa. O resto…bem o resto são migalhas que até os pombos hão de rejeitar.

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O BECO TEM RAZÕES QUE A PRÓPRIA RAZÃO DESCONHECE.


O Beco, ontem, às 3,47 da madruga, em sua generosidade ímpar, me ligou. Dona Zenóbia, que dormia como um anjo,  fez um muxoxo e virou-se preguiçosamente na cama. Eu, ágil como um lince, pulo da cama e atendo:

– Fala, Becão.

– Você sempre sabe que sou eu. Como isso é possível?

– Experiência. Mas, no fundo no fundo, acho que eu sou um adivinhão.

– Dalton, ainda bem que você não estava dormindo.

– Imagine, a esta hora!? Eu e Dona Zenóbia estamos na maior sessão. Macumba da braba, Beco! Mas o que é que manda?

Dalton, nem palavras duras e olhares severos devem afugentar quem ama; as rosas têm espinhos e, no entanto, colhem-se.

Confesso que tremi. A frase fulminante e emblemática lançou em minha alma as mais primitivas e anacrônicas ânsias de preservação da espécie. Expectativo, esperei a continuação.

– Sofremos demasiadamente pelo pouco que nos falta e nos alegramos pouco pelo muito que temos.

Apesar dos solavancos hecatômbicos em minha alma, nada falei. E ele:

– Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que às vezes poderíamos ganhar pelo medo de tentar.

Humilhado pelos arrancos triunfais de suas perquirições, me atrevo:

– Eu acho que...Desligou e não disse nem boa noite. Não volto para a cama. Vou à varanda e me ponho a pensar com meus botões de futebol de mesa. Lembro que há pouco, assim que o galo cantou pela terceira vez, abri o envelope para ler a mensagem do Machado de Assis. O pergaminho alvo e sedoso deu-me uma vaporosa sensação táctil; a caligrafia uniforme e inquieta, de visível equilíbrio e elegância. Eis o que ele me escreveu, sem cortes ou mixagens: “Dalton, nada encoraja e dá mais força ao pecador do que a infinita expectativa de merecer o perdão. Assinado: M.A.” Confesso, meus equilibradíssimos leitores, que perdi , simultaneamente, o chão, o norte e a noção das coisas. Isso dito assim, de forma tão rotunda, me fizeram reviver as mais remotas humilhações que já sofri em vida. Quando, pelo perdão aleatório e inconseqüente, absolvi canalhas inomináveis das ações mais abjetas. Essa cumplicidade covarde, que o Machado, descaradamente, me fez ver, me jogava na cara, inapelavelmente, toda a minha pusilaminidade. Mas isso não tem importância.

QUEM PERDE OU GANHA UM JOGO É A ALMA.

O campeonato paranaense é uma calamidade pública mas vai que é um upa. O Coritiba, operado na quarta-feira, pelo juiz sem juízo (as expulsões , para mim, foram uma piada de mau gosto), chegou ao clássico de domingo jogando caxeta, palito, truco, menos futebol. Empatou na quarta e perdeu domingo. Ninguém jogou porra nenhuma. O Ariel não mora mais aqui, tem algo incomodando o gringo. O Enrico fez sua partida mais pobrinha desde que chegou. O Rafinha escondeu-se. O Dirceu estava com saudades de Marília. E o Edson Bastos, assim mesmo, quase bastou para arrancar o empate. E você, também, Nei…francamente!

O Paraná não podia perder, por isso ganhou. Jogou com raça, determinação e amor à camisa. Alegria dos poetas Batista e Ernani Buchmann, tristeza do meu amigo Maringas, que perdeu na aposta uma figurinha carimbada da sua coleção de Bala Zequinha.

O Atlético ganhou na quinta e empatou no domingo, no pior jogo que já vi pela televisão. Uma lástima. Um público de chorar. A renda não pagou nem o alpiste e o milho-alvo dos quero-queros que moram no estádio. Bom para o Atlético que diminuiu a distância para o coxa, que agora é de apenas 4 pontos.

Mas isso não tem importância.


TEM UM POÇO DE SABEDORIA NO MEIO DO CAMINHO.

O que eu queria mesmo lhes dizer é que a palavra se doa, se dá, gratuitamente, como um poço que, quanto mais doa, mais água e de melhor qualidade tem para oferecer. A palavra é assim também, enquanto alguns morrem de sede; outros vivem dela, com pródiga abundância. Por mim, meus generosíssimos leitores, as palavras continuam assim, esplêndidos universos a serem explorados pelas mentes de boa vontade que estão ou estarão entre nós. Com as palavras nasceram religiões, filosofias, romances, peças teatrais, poemas, mundos e mais mundos, mas, principalmente, nós mesmos, os filhos da saudade da vida por si mesma. Nós, que nos sussurros amorosos de nossos pais, fomos gerados à imagem e semelhança. Nós que, através dessa troca de palavras ardentes de paixão, ganhamos alma, consciência e uma vida novinha em folha. Na verdade, meus abnegadíssimos leitores, nós e as palavras fomos feitos uns para os outros. É um caso de amor antigo, muito antigo. E como em todo caso de amor se salvam todos felizes entre mortos e feridos. Mas lembrem-se: nem tudo que reluz é aura, o ouro da manhã é aurora. E na aurora…


Vai-se a primeira pomba despertada…

Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas

De pombas vão-se dos pombais, apenas

Raia sangüínea e fresca a madrugada…

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E à tarde, quando a rígida nortada

Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,

Ruflando as asas, sacudindo as penas,

Voltam todas em bando e em revoada…

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Também dos corações onde abotoam,

Os sonhos, um por um, céleres voam,

Como voam as pombas dos pombais;

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No azul da adolescência as asas soltam,

Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,

E eles aos corações não voltam mais… (*)

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Poupem-me, porque esse velho poço, por hoje,

já saciou sua sede.


Dalton Machado Rodrigues

daltonmrodrigues@gmail.com

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(*)  Soneto de Raimundo Correia

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~ por polacodabarreirinha em 23/02/2010.

3 Respostas to “”

  1. Esse Dalton é fodster!

  2. É o capeta em pele e osso, Bárbara. Bj.

  3. […] Dalton Machado Rodrigues […]

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