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Helena e Claudete, foto de Gilson Camargo.

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IMPERDÍVEL

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Medeia.

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Se tem uma coisa que eu não vou perder de jeito nenhum é o espetáculo Medeia. Mas não pensem que é apenas pelo revolucionário texto de Eurípedes, escrito em 431 a.C. Não é mesmo. Mesmo porque o texto foi decepado e por uma boa razão. É que as personagens masculinas nesta montagem do Marcelo Marchioro foram reduzidas a duas formas: uma sombra para Jasão, o marido que abandona Medeia  e uma máscara  para o rei Creonte.

Loucura? Claro que não. Criatividade e inovação são os alicerces desta ousada reinvenção da tragédia infanticida, que terá no elenco Claudete Pereira Jorge e Helena Portela, mãe e filha. A primeira, uma das maiores atrizes do teatro paranaense de todos os tempos; e a segunda, uma de suas grandes revelações.

Claudete, que esperou cinco anos pela montagem, deixa transparecer toda sua paixão pela personagem, quando se refere a ela: “Medeia era uma bárbara. Veio de uma sociedade matriarcal e de repente, pelo amor de um homem, se viu na sociedade grega onde a mulher não tinha a menor voz, onde o filho é do pai; não da mãe. Ela trai o pai e a mãe e mata o irmão por esse homem. Está perdida, vai ser banida e seus filhos mortos. Então matar os filhos, para ela, não é só uma vingança, é instinto de proteção.”

O cenário ficou por conta do cenógrafo Ricardo Garanhani,  que dá novas dimensões às falas de Medeia (Claudete) com recursos que intensificam a dramaticidade e valorizam a presença da atriz. O palco será coberto de tons terrosos e ganhará nichos de  várias alturas, por onde Medeia subirá e descerá aos níveis de seu discurso, alternando conforme os sentimentos que vive no drama..

O diretor Marcelo Marchioro e a atriz Claudete Pereira Jorge chegaram a pensar em fazer um solo, mas mudaram de idéia e incluíram em cena Helena Portela, que fará o papel da ama. Na verdade é um duplo, uma extensão da protagonista, uma cúmplice e uma conselheira que tenta fazer com que Medeia desista de suas intenções criminosas, como se fosse sua própria consciência obrigando-a a refletir sobre seus atos.

Uma passagem extremamente marcante da peça é este diálogo:

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Ama-     Ousarás mesmo exterminar teus próprios filhos?

Medéia-  Matando-os firo mais o coração do pai.

Ama-      Mas sofres também.

Medéia-  Sofro. Mas sofro menos se ele não ri.

Ama-      E tornas-te a mulher mais infeliz de todas. Desiste, eu te suplico.

Onde em tua alma, onde em teu corpo encontrarás coragem para assestar

ao coração de teus filhos os golpes de uma audácia inominável?

Como, volvendo o olhar para teus filhos, serás, sem lágrimas, sua assassina?

Não podereis, diante de teus filhos prostrados, suplicantes, mergulhar em

sangue tuas implacáveis mãos.

Medéia-  Deste momento em diante, quaisquer palavras passarão a ser supérfluas

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Outra boa nova em cartaz é a volta de Marchioro que, depois de um tempo afastado, retorna com toda sua força e tensão e diz ter encontrado na modernidade do texto  uma perfeita correspondência com o nosso tempo. “Nossa vida é uma tragédia”, filosofa justificando a montagem. E não deixa por menos: “A Medeia é nossa vida. Na semana passada, um homem matou dois filhos e se jogou de um prédio.”

Argumentos fortes, sem dúvida. Mas nem precisava. Medeia faz parte da história do teatro e é um de seus grandes clássicos. Um texto que atravessou dois milênios e meio e continua mais vivo do que nunca, pois, agora, com esta montagem, está novamente novo. E por isso mesmo é imperdível.

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Antonio Thadeu Wojciechowski

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~ por polacodabarreirinha em 18/05/2010.

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