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Medo a gente pega de susto.


“Deus teve coragem para criar o medo”.

Mal tenho coragem de tocar nesse assunto. Tremo pra mais de metro. Não é pra menos, só cabra-macho tem valentia para se borrar todo. Quem nunca arrisca jamais petisca uma grande aventura. Ou uma enorme roubada. Nada mais monótono que um céu limpo de faísca. Aquele que tem medo tem alma, o resto é materialismo, ou, como definiu Nelson Rodrigues: “idiotia da objetividade”. Medo é adrenalina no seu estado mais puro, fluidos corporais em estado de falso alerta. Quem tem cru tem medo. No fiofó não passa nem fiu-fiu na hora do vamos ver. Pânico, cérebro em pane, tremedeira, sabedoria e sobrevivência dos nossos antepassados, ter medo é ter amor à vida. Medo de nada, medo do desconhecido, medo puro, sem sujeito, efeito sem causa visível. Tem gente, que na hora medonha, cinza-chumbo, pára; outros, rubros, viram fera; uns azulam e ensebam as canelas; aqueles, brancos de susto, tremem varas verdes; esses, quando a coisa preteia, amarelam. Eu e vocês, queridos leitores, que não somos laranjas e nem aprovamos a imprensa marrom, não queremos ver nem a cor.

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Thadeu W e Roberto Prado

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dor duna

(altos & baixos)

meda de outras eras
médão eólico de outros tempos
um punhado medonho me dão
enredo-me no que o demo deu a adão

Roberto Prado

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eu tenho medo

eu tenho medo de ser aniquilado por um mal súbito
(e de ser assaltado por uma dúvida)
das prestações da casa própria
(e da fúria da torcida organizada)
do controle da natalidade
(e da explosão demográfica)
de me perder na multidão
(e de ser confundido com o ladrão)
de ficar sozinho com o defunto
( e de fazer o papel de vilão)
de todos os ministros da área econômica
(e de duplicata vencida)
de uísque falsificado
(e dos falsos profetas)
do Bin Laden
(e das negociações para o cessar fogo)
do silêncio do grande canyon
(e do barulho do andar de cima)
de dormir com o cigarro aceso
(e do turco que tentou matar o papa)
de quarta feira de cinzas
(e de bife mal passado)
da guerra atômica iminente
(e de pastel de camarão)
do Bandido da Luz Vermelha
(e de febre amarela)
de câncer e unha encravada
(e do Serviço de Proteção ao Crédito)
de ser surpreendido pela morte
(e das almas do outro mundo)
de treinador da seleção
(e de acordar transformado em barata)
do Imposto Predial e Territorial Urbano
(e dos políticos suspeitos de corrupção)
das virgens que nos seduzem
(e de todos os males do coração)
de ser atacado pelas costas
(e de enfrentar a vida cara a cara)
das medidas de emergência
(e de contatos imediatos)
das vírgulas e reticências
(e do verso de pé-quebrado)
de ficar trancado no banheiro
(e de pegar resfriado)
dos filmes de terror
(e de todas as transfusões de sangue)
das mulheres que abandonam seus maridos
(e dos maridos abandonados)
da fúria dos oposionistas
(e dos motoristas que dirigem na contramão)
dos desmentidos do porta voz da Presidência
(e de anestesia geral)
do castigo que vem a cavalo
(e da sorte que está lançada)
das vítimas das enchentes
(e da solidariedade de toda a população)

Luiz Antônio Solda

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22, do livro Dinorá.

Eu vi, ô louco. Foi o Diabo que eu vi. O carão do Outro. Sempre o neguei, nunca que podia. Esta noite, três da manhã, o tempo suspenso. No escuro, o sopro gélido de uma porta que se abre. Ouço uma sombra se mexendo na parede. Quem vem lá?
De repente, eu o sinto ao pé da cama. Ali debruçado. Bem ele, o maligno. Só o que vejo e me cega: um olho de brasa viva. Fala com a minha voz, que abafo na palma da mão. O meu segredo vergonhoso. O meu crime aos cinco aninhos. Ah, esse corno flamejante, quem o pode fitar? Tão grande horror, para exorcizá-lo estendo o braço e acendo o abajur.
E com a lâmpada acesa – oh, não – ainda ali. Inclinada e ofegante, a visão de fogo pingando sangue. Perdido fecho os olhos, para sempre perdido: debaixo das pálpebras, ainda ali.
O Diabo e eu. No meio da noite, cara a cara. Agora é com nós dois.

Dalton Trevisan

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Ai que meda!

Medo é a única virtude que não tenho:
Cago na cabeça da torcida do Flamengo,
Enfrento de peito aberto escorpião-fêmea,
Minha própria sombra foge de mim em câmera-lenta.

Saio de casa no tranco pra ver se encrenco,
Ai daquele ou dela que me partir pra violência.
Sou um tipo comum de durão desalmado que não presta,
Um desses tantos movidos a baque de adrenalina.

Já matei morcego com vassourada na testa,
Meu antepasto é sambiquira cru de galinha,
Sempre saio antes do melhor da festa,
O frio na barriga me congela o frio na espinha.

Antonio Thadeu Wojciechowski e Sérgio Viralobos

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temora horrora pânica

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ai que meda
diante da olha podrida
temi tomar na peida

Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado

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poeminha para uma noite escura

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medo
anda em Andrômeda
meu caro Godofredo

Antonio Thadeu Wojciechowski

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com quem andas

sou um abutre, confesso
comedor de carniça confesso
um anjo que quis vir à terra a qualquer preço
e que encarou o diabo já no berço

convivo com o demo
há trinta e um anos
a ele, meus amigos, não temo
mas àqueles que eu e ele acompanhamos

Marcos Prado

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medo eu

ai que meda que eu tenho de monstro
se apaga a luz eu vejo o bicho-papão
só lembro de bruxa e assombração

mas meu medo eu não demonstro
pois o verdadeiro monstro está dentro de mim

Antonio Thadeu Wojciechowski

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O medo

Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.

Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.

Fazia frio em São Paulo…
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas

do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.

O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes…
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.

Carlos Drummond de Andrade

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Amor e Medo

Quando eu te vejo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, ó bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
-”Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!”

Como te enganas! meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco…
És bela – eu moço; tens amor, eu – medo…

Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes.
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.

O véu da noite me atormenta em dores
A luz da aurora me enternece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes,
Eu me estremeço de cruéis receios.

É que esse vento que na várzea – ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!

Ai! se abrasado crepitasse o cedro,
Cedendo ao raio que a tormenta envia:
Diz: – que seria da plantinha humilde,
Que à sombra dela tão feliz crescia?

A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho
E a pobre nunca reviver pudera.
Chovesse embora paternal orvalho!

Ai! se te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas!…

Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos – palpitante o seio!…

Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala, a protestar baixinho…
Vermelha a boca, soluçando um beijo!…

Diz: – que seria da pureza de anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
Tu te queimaras, a pisar descalça,
Criança louca – sobre um chão de brasas!

No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem,
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!

Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço,
Anjo enlodado nos pauis da terra.

Depois… desperta no febril delírio,
– Olhos pisados – como um vão lamento,
Tu perguntaras: que é da minha coroa?…
Eu te diria: desfolhou-a o vento!…

Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito!
És bela – eu moço; tens amor, eu – medo!…

Casimiro de Abreu

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~ por polacodabarreirinha em 25/06/2010.

2 Respostas to “”

  1. ‘PRA NÃO SE CHEGAR AO MEDO É QUE SE VAI À RAIVA’ (Riobaldo Tatarana)

    Mas eu ainda prefiro o medo…rs.

    Bacana tua página. Não conhecia.

    Abço.
    Lindsey Rocha

  2. Abraço, Lindsey. Apareça sempre.

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