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Rir e Chorar é só começar

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“Não dá para tapar o sol do sofrimento com a peneira da felicidade.”

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I made my god while I prayed:
I thought it was me what I saw
But god, looking at me,
Blinded my eyes so I could see
Miracles happening wonderfully

Fiz meu deus enquanto rezava
Pensei que era eu que me via
Mas deus, olhando pra mim,
Me cegou pra que eu visse
As maravilhas que ele faz
ia

Antonio Thadeu Wojciechowski e Ivan Justen

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Às vezes dá ganas de chorar de rir de nós, os exagerados humanos do planeta terra. Arreganhamos os dentes ou abrimos o berreiro diante de fatos que, se aconteceram, são conseqüências naturais e, portanto, não deveriam ser razão para tanto espasmo. O engraçado é que, como ignoramos certas leis da natureza, as tais coisas da vida acontecem e nos pegam pela surpresa, pelo inusitado, pelo avesso. Como se fossem novidade. Mas a lei não tem choro nem vela: quem gargalha da desgraça alheia se sente o último dos chorões do mundo quando é o seu couro que está na roda. Ao rir, estamos agradecendo por ter recebido; ao chorar, estamos pedindo ou lamentando a perda de algo: esses são o choro e o riso do corpo. Mas isso não é tudo. Existe também o choro quase invisível da grande emoção e o riso descompromissado da fraterna amizade: esses são o choro e o riso do espírito. Mas não fique esperando por eles, a não ser que esteja sentado, pois, para a maioria da nossa humanidade, a alma ainda é um conto de fadas, como alertou o poeta Paulo Leminski. Dante ouviu choro e ranger de dentes na entrada do Inferno, mas não ouviu risos na porta do Céu. Quem sabe os eleitos tenham pudor de que seu contentamento aumente a dor dos condenados. Talvez ali a emoção já seja sábia. Ou, sendo mais sinceros, os nossos ouvidos não têm mesmo sintonia e nem potência para captar e decodificar as alegrias celestiais. A não ser em raros e rapidíssimos relances, com apoio logístico de algum santo, para, logo depois, pesados de incredulidade, afundarmos como Pedro, após alguns passinhos duvidosos sobre as águas da normalidade. É impressionante a rapidez com que nós, da classe média espiritual, pendemos, caindo da alegria ruidosa de uma hiena deslumbrada para o ombro amigo que transformamos num poço até aqui de mágoas. Prazer gêmeo da dor, dois lados do mesmo olho úmido, bocas abertas para um único abismo? Os humoristas levam pastelões na cara para que possamos rir de nossos próprios tropeços e, abraçados, chorar na execução dos bobos da corte. As razões da nossa desgraça vem sempre dos outros, numa equação que, se desdobrada, acabaria por concluir que os verdadeiros culpados das desgraceiras são, na verdade, os habitantes de um outro planeta. Assim caminha a humanidade. E como sofre por caminhar assim! Rindo e choramingando, preguiçosa e complacente, se arrasta, de sol a sol, há milênios, esta desgraçada, sonhando com a felicidade plena e o gozo sem máculas. Mas pouco faz para que aconteça o milagre da multiplicação da alegria, através da compaixão, da amizade, do amor, do perdão, da fraternidade e outras coisas boas da vida. Daria até pra rir, se não fosse trágico. Daria até pra chorar, se não fosse cômico.

Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado

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Casamento de Viúva

você não via que eu chorava porque chovia
aquele não sei quê que eu gaguejei
era tudo que eu conseguia

a chuva molhou o que eu quase disse
você teria dito o que eu deveria dizer
se o seu guarda-chuva não abrisse

lembro só da chuva quando caía
me olhava por dentro e havia sol
enquanto aqui fora chovia

Antonio Thadeu Wojciechowski e Marcos Prado

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Choros e risos secretos

1. Chorar
Os que choram pouco,
ou não choram nunca,
acabarão apodrecendo em vida.

2. Rir
Nada pior e mais abjeto do que o riso.
E acrescento: nada mais atentatório.
E, eu quase dizia, ginecológico.
O sujeito só devia rir, às escondidas,
num sigilo de alcova.

Nelson Rodrigues

(1912-1980)

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Rir e chorar, do livro 234

74
A filha revoltada:
– Minha mãe ali no caixão. E o pai, em lágrimas: “Vai, minha querida. Vai, vai…Faz a nossa casinha no céu. Já vou te encontrar.” E, no carnaval, cantando, aos pulos com a nova querida, em nossa casinha aqui na terra.

93
O anjinho embebe de gasolina um, dois, três sapos dos grandes. Risca um fósforo. E baba-se de gozo com as bolas de fogo saltadoras.

Dalton Trevisan

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Planeta Leminski

existe um planeta perdido
numa dobra do sistema solar

ali é fácil confundir
sorrir com chorar

difícil é distinguir
este planeta de sonhar

Paulo Leminski

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Eu morro

as cordas do meu cavaquinho me disseram
que um pandeiro havia me deixado na mão
sinto saudades do corpo do meu violão
samba, bata em mim, não pare agora
sou um apito que ri
e uma cuíca que chora
nesta cozinha que hoje é um salão

Marcos Prado e Édson de Vulcanis

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Rir e chorar

eu quero me afogar
na salmoura
dormir
na manjedoura
ser um monge
de outrora

o dia inteiro
fazendo hora
cortar o mal
com tesoura
eu quero o mal
mal quero
e tudo me apavora
o povo
o polvo
a pólvora

tudo enfim
que meu cavalo sente
quando me senta
espora

Luiz Antônio Solda e Paulo Leminski

.

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À sombra dos chorões

choro por vós
que chorais tão baixinho
que às vezes até nós
seus risonhos adivinhos
deixamos a chorar
sozinhos

Roberto Prado

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Rusga de rugas

Tenho duas rugas
que fogem à regra.
Uma delas
marca melhor com o riso.
A outra
marca melhor com a raiva.

As duas
– uma para cada olho –
estão dente
por dente. Disputando
qual tem mais sabedoria.

Como sabedoria
não é nenhuma ciência
e vai aparecendo –
claro! – com a experiência,
minhas duas rugas
usam a régua
pra medir qual
tem a maior saliência!
Eu sou apenas
o cara da cara
e sei que rugas
vêm com o tempo
que as imprime
inevitavelmente.

Apenas espero
que essa rusga não perdure, pois
está sugando – em sulcos –
minha tenra idade.

De rusga em rusga
minhas rugas ainda rasgam a minha cara!

Ricardo Corona

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Certamente não sabias
que nos fazes sofrer.

É difícil de explicar
esse sofrimento seco,
sem qualquer lágrima de amor,
sentimento de homens juntos,
que se comunicam sem gesto
e sem palavras se invadem,
se aproximam, se compreendem
e se calam sem orgulho.

Carlos Drummond de Andrade

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Poesi
Solange chora
Solange ri

Edson de Vulcanis

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Arco-íris

.

Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
Que há pouco chorou.


Helena Kolody

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Consolo
a noite chorou
a bolha em que, sobre a folha,
o sol despertou

Guilherme de Almeida

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Pignataria

na lágrima não interessa o que não é olhos
no riso não interessa o que não é dentes

Variação sobre fórmula poética de Décio Pignatari

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Sorri-se

quando disse, na saída,
deixo meu sorriso,
disse bem,
até sorrir pra você
não vou sorrir pra mais ninguém

também disse,
o que se deixa é o que permanece
não esqueca, essa sou eu
que agora desapareceu

e se mais não disse
é que sorria
um sorriso que ficasse
para depois de ter ido
como se nunca partisse
como se tudo existisse

ah se eu soubesse
ah se você me visse

Alice Ruiz


.
O ser duplo dentro do poeta

Chorava e ria em mim, dizia em mim,
chorava-me, brandia-me, sonhava-me.
O ser intransitivo me acenava
e ouvíamos-nos. Verbos vivos. Verbos.

.

Jorge de Lima

(1893-1953)

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Toante

Molha em teu pranto de aurora as minhas mãos pálidas,
O espasmo é como um êxtase religioso
E o teu amor tem o sabor das tuas lágrimas.

Manuel Bandeira

(1886-1968)

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Queixas noturnas

Quem foi que viu a minha Dor chorando?
Saio. Minha alma sai agoniada.
Andam monstros sombrios pela estrada
E pela estrada, entre estes monstros, ando!

Não trago sobre a túnica fingida
As insígnias medonhas do infeliz
Como os falsos mendigos de Paris
Na atra rua de Santa Margarida.
(…)
Como um ladrão sentado numa ponte
Espera alguém, armado de arcabuz,
na ânsia incoercível de roubar a luz,
Estou à espera de que o sol desponte.

Bati nas pedras dum tormento rude
E a minha mágoa de hoje é tão intensa
Que eu penso que a Alegria é uma doença
E a Tristeza é a minha única saúde!
(…)

Augusto dos Anjos

(1884-1913)

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Tudo pode ser

Sempre que olho para este homem
(Ele não bebeu e tem a mesma risada)
Eu penso: as coisas melhoram
Aquele tempo pode voltar
O amor começa novamente
Breve tudo será como antes

Sempre depois de conversar e rir
(Ele comeu e não vai embora)
Fala comigo e está sem o chapéu
Eu penso: tudo é bom
O tempo de falar sozinho terminou
Dá pra conversar com um sujeito, ele ouve!
O amor começa novamente
Breve tudo será como antes

Bertold Brecht

(Alemanha, 1898-1956)

Versão de Roberto Prado

.

.

nem riso

nem pranto

não fosse você

a página estava em branco

Thadeu W

.

.

Jardim de Jasmim

Mar de pranto, monte de gemidos,

procuro uma primavera que me dê ouvidos,

luz para os meus olhos perdidos

e alívio para os males que maldigo.

Mas, traidor de mim mesmo, trago comigo

o amor-morte e suas bruxarias

que transformam em horror as maravilhas.

E para que o paraíso não apenas aparente

eu chego junto com a serpente.

Antes o frio do inverno venha congelar

o sol deste lugar

e a neve deixe prateada

a floresta a rir em minha face resfriada.

Mas para que possa padecer

o sofrimento sem desamor, deixe-me ser, amor,

como eu sou, sem tirar nem pôr,

milagre de mágoa

ou vale de lágrimas a fluir de um olho d’água.

Recolham então, amantes,

meu pranto-fel de amor

e comparem com prantos semelhantes

que mentem, se não têm igual sabor.

O coração não bate em todo olhar,

as lágrimas da mulher nem sempre são

a imagem real, a legítima expressão,

oh, sexo perverso, falsa mente-mulher,

a fêmea veraz que me assassine se puder.

.

John Donne

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Livre adaptação do Poema de Jardim de Twicknam, por Antonio ThadeuWojciechowski

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Romantismo

– Acorda, menina, acorda!
Dia claro. Cidadezinha.
Ela não se importa,
Parece estar puxando uma linha
costureira das bordas entre o rir e o chorar.
– Você costuma às paredes falar?
Ela não ouve nadinha.

“Há quase dois anos morreu meu amado,
é o que todos têm falado
além de minhas lágrimas pilheriarem.
Ninguém, amor, vê o que eu vejo
através delas: tua mais nítida imagem.
Quantas vezes ainda te darei o primeiro beijo?”

– Ela está louca, continuo sem ver a entidade!
“É que não me interessa servir como lição:
quem vê um milagre revê a verdade,
olha com coração para o coração.”

Adam Mickiewicz
(Poeta polonês – 1798-1855)

Livre adaptação de Antonio Thadeu Wojciechowski e Sérgio Viralobos.

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Alma do vinho

O espírito de Baco, exalando pelo gargalo,
bafejou: “bebum, a sua saúde é minha alegria.
Tirou a tampa, agora engula até o regalo,
mesmo de língua enrolada serei tua melodia.

Não é mole agüentar no lombo o sol rachando,
montanha de suor e mal trato tamanho
para me parir, beber e sair tropeçando,
esquecido que subo mais se sou de antanho.

Ao descer, pelo estalo da língua, faço eco
na goela de quem se gasta para gastar comigo.
Não me apego à adega de qualquer boteco,
prefiro cair de boca na valeta de um amigo.

Não dás ouvido nem vês o coro embargado
na esperança de que o peito um dia faça bico?
No duro e frio balcão, ó dor atroz do baqueado!,
se for só pra felicidade diga ao povo que fico.

Acordo já já o teu olhar de raposa mal dormida,
com tal força e cor te transfiguro, bebum,
que nunca mais desgrudarás da minha vida,
seremos pra sempre, eu e teu sangue, apenas um.

Desmaio contigo, guerreiro de copo ao vento!
Estou até os grãos, bagos estourando, Deus acuda!
A rima que aflora no guardanapo sujo e sebento
seja eternamente divina e tua razão sacuda!”
.

Charles Baudelaire

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Tradução de Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado

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~ por polacodabarreirinha em 24/07/2010.

2 Respostas to “”

  1. Não tem problema

    (…)

    Celular, net, solução, canhão, automática, automóvel
    quatro ponto zero, caminhão, sessenta por segundo
    não tem erro, vai ao enterro conferir o rombo…
    É de rir. Não, é de chorar. Aqui não tem,
    ali também para ninguém.
    Passa batido, aí não tem, quem
    é o bandido? É o civil? O militar, o federal
    o lampião, o desvalido? Quem?

    (…)

  2. Olá Thadeu!
    Passando por aqui pra dizer que o blog continua nos trinques,como sempre. Maravilha esse post sobre risos & choros, esses onipresentes colegas de classe.
    Um abraço.

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