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As lágrimas vão chorar

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“vai, minha alma,
vai sonolenta e lenta
na choridão do verbo ir”

Roberto J. Bittencourt

“Os que choram pouco, ou nunca choram, acabarão apodrecendo em vida.”

Nelson Rodrigues

Um tapa no traseiro, você põe a boca no mundo e, pra felicidade geral da nação, chora na rampa. De lá para hoje, tem choro pra tudo. Um gol, o sonho desfeito, a amarga decepção, a dor, uma alegria tão grande que se reparte em lágrimas. Mas é bom tomar cuidado com as de crocodilo que, geralmente, vêm acompanhadas do beijo de judas. Debaixo do chorão, você pára para escutar seu chorinho. Mas, na Terra, não tem choro e nem vela. Ao perdedor, o direito inalienável do esperneio e do choro até debaixo d’água. Quem já não teve ganas de sentar na calçada e chorar lágrimas de esguicho, por nada disso e por tudo aquilo? Velórios, casamentos, batizados, uma palavra bendita, uma beleza surpreendente, uma atitude inesperada e pronto, lá vêm as caudalosas cachoeiras saltando pelas faces. As lágrimas de amor e separação juntas seriam maior que o Nilo e o Amazonas. Fernando Pessoa perguntou ao mar quanto do seu sal eram lágrimas de Portugal. E o mundo todo chorou de emoção. De qualquer maneira, choro é sempre uma imagem muito forte. Dá uma vontade de inchar o olho junto. O homem é o único animal que tem lágrimas ou é o único que tem motivos de sobra pra chorar?

Thadeu W e Roberto Prado

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Romantismo

– Acorda, menina, acorda!
Dia claro. Cidadezinha.
Ela não se importa,
Parece estar puxando uma linha
costureira das bordas entre o rir e o chorar.
– Você costuma às paredes falar?
Ela não ouve nadinha.

“Há quase dois anos morreu meu amado,
é o que todos têm falado
além de minhas lágrimas pilheriarem.
Ninguém, amor, vê o que eu vejo
através delas: tua mais nítida imagem.
Quantas vezes ainda te darei o primeiro beijo?”

– Ela está louca, continuo sem ver a entidade!
“É que não me interessa servir como lição:
quem vê um milagre revê a verdade,
olha com coração para o coração.”

Adam Mickiewicz
(Poeta polonês – 1798-1855)

Livre adaptação de Antonio Thadeu Wojciechowski e Sérgio Viralobos.

Cálice de silêncio

matei minha saudade a grito
a soco
a pontapé
chute no saco
tacle no pescoço
pontaço no peito
sete tiros da cabeça ao pé

depois da chacina
já sem a gana assassina
chorei atrás da porta
de saudades da morta

mesmo sabendo que ia dar em nada
chorar sobre a lágrima derramada

Antonio Thadeu Wojciechowski
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Casamento de Viúva

você não via que eu chorava porque chovia
aquele não sei quê que eu gaguejei
era tudo que eu conseguia

a chuva molhou o que eu quase disse
você teria dito o que eu deveria dizer
se o seu guarda-chuva não abrisse

lembro só da chuva quando caía
me olhava por dentro e havia sol
enquanto aqui fora chovia

Antonio Thadeu Wojciechowski e Marcos Prado
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lágrimas de Pedro


Que mal que o dia passasse!
– Vê se as lágrimas estancas –
Levava-te a cor da face
Na curva das asas brancas.

Depois e qual si temesse,
Arrasta-se a asa do dia
Rosada, mas empalece
À tua lágrima fria.

Pedro Kilkerry
(1885 – 1917)

Três lágrimas.

1.

– Chorei a última lágrima. Chorei o terceiro olho da cara.

2.

O nenê chora e a mãe liga o rádio bem alto.
– Qual dos dois cansa primeiro?

3.

– Desde que nasceu ela chorava muito. Dor de barriga, sei lá. O João não podia dormir e lhe deu uma surra. Tinha quatro meses e daí não voltou a chorar. O pai diz que ela entendeu a lição, agora é obediente. Olha essa menina de seis anos, meu Deus. E nunca mais chorou.

Dalton Trevisan.

Poesia Brasileira

Casimiro de Abreu chorava tanto
que não cabia em si de descontente.
Suas lágrimas
escorrem até agora pelas vidraças
pelas calçadas
pelas sarjetas
e só vão deter-se ante o coreto da praça pública,
onde,
sob os mais inconfessáveis disfarces,
Castro Alves ainda discursa!

Mário Quintana

água água


gotas
caem em golpes
a terra sorve
em grandes goles

chuva
que a pele não enxuga
lágrima
a caminho da ruga

água viva
água vulva

Alice Ruiz

O vendedor de alho e cebola

A insipidez da visita
Com alho posso depô-la.
A elegia ao choro hesita
Pouco se eu corto a cebola.

Mallarmé – tradução de Augusto de Campos.

A avenida das lágrimas


Quando a primeira vez a harmonia secreta

De uma lira acordou, gemendo, a terra inteira,
– Dentro do coração do primeiro poeta
Desabrochou a flor da lágrima primeira.

………………………………………..

O aroma dessa flor, que o teu martírio encerra,
Se imortalizará, pelas almas disperso:
– Porque purificou a torpeza da terra
Quem deixou sobre ela uma lágrima e um verso.

Olavo Bilac

primavera, não nos deixe
pássaros choram
lágrimas no olho do peixe

Matsuó Bashô

lágrima parada
enquanto a chuva cai em pé
e corre deitada

(thadeu w)

..

A lágrima

– Faça-me o obséquio de trazer reunidos
Cloreto de sódio, água e albumina…
Ah! Basta isto, porque isto é que origina
A lágrima de todos os vencidos!

-“A farmacologia e a medicina
Com a relatividade dos sentidos
Desconhecem os mil desconhecidos
Segredos dessa secreção divina”

– O farmacêutico me obtemperou. –
Vem-me então à lembrança o pai Yoyô
Na ânsia física da última eficácia…

E logo a lágrima em meus olhos cai.
Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai
Do que todas as drogas da farmácia!

Augusto dos Anjos

A Federico Garcia Lorca

Sobre teu corpo, que há dez anos
se vem transformando em cravos
de rubra cor espanhola,
aqui estou para depositar
vergonha e lágrimas.

Vergonha de há tanto tempo
viveres- se morte é vida –
sob chão onde esporas tinem
e calçam a mais fina grama
e o pensamento mais fino
de amor, de justiça e paz.

Lágrimas de noturno orvalho,
não de mágoa desiludida,
lágrimas que tão-só destilam
desejo e ânsia e certeza
de que o dia amanhecerá.

( Amanhecerá. )

Esse claro dia espanhol,
composto na treva de hoje
sobre teu túmulo há de abrir-se,
mostrando gloriosamente
– ao canto multiplicando
de guitarra, gitano e galo –
que para sempre viverão

os poetas martirizados.

Carlos Drummond de Andrade

LUAR DE LÁGRIMAS

I
Nos estrelados, límpidos caminhos
Dos Céus, que um luar criva de prata e de ouro,
Abrem-se róseos e cheirosos ninhos,
E há muitas messes do bom trigo louro.

Os astros cantam meigas cavatinas,
E na frescura as almas claras gozam
Alvoradas eternal, cristalinas,
E os Dons supremos, divinais esposam.

Lá, a florescência dos Desejos
Tem sempre um novo e original perfume,
Tudo rejuvenesce dentre harpejos
E dentre palmas verdes se resume.

As próprias mocidades e as infâncias
Das coisas tem um esplendor infindo

E as imortalidades e as distancias

Estão sempre florindo e reflorindo.

Tudo aí se consola e transfigura
Num Relicário de viver perfeito,
E em cada uma alma peregrina e pura
Alvora o sentimento mais eleito.

Tudo aí vive e sonha o imaculado
Sonho esquisito e azul das quint’essências,
Tudo é sutil e cândido, estrelado,
Embalsamado de eternais essências.

Lá as Horas são águias, voam, voam
Com grandes asas resplandecedoras…
E harpas augustas finamente soam
As Aleluias glorificadoras.

Forasteiros de todos os matizes
Sentem ali felicidades castas
E os que essas libações gozam felizes
Deixam da terra as vastidões nefastas.

Anjos excelsos e contemplativos,
Soberbos e solenes, soberanos,
Com aspectos grandíloquos, altivos,
Sonham sorrindo, angelicais e ufanos.

Lá não existe a convulsão da Vida
Nem os tremendos, trágicos abrolhos.
Há por tudo a doçura indefinida
Dos azuis melancólicos de uns olhos.

Véus brancos de Visões resplandecentes
Miraculosamente se adelgaçam…
E recordando essas Visões diluentes
Dolências beethovínicas perpassam.

Há magos e arcangélicos poderes
Para que as existências se transformem…
E os mais egrégios e completos seres
Sonos sagrados, impolutos dormem…

E lá que vagam, que plangentes erram,
Lá que devem vagar, decerto, flóreas,
Puras, as Almas que eu perdi, que encerram
O meu Amor nas Urnas ilusórias.

Hosanas de perdão e de bondade
De celestial misericórdia santa
Abençoam toda essa claridade
Que na harmonia das Esferas canta.

Preces ardentes como ardentes sarças
Sobem no meio das divinas messes.
Lembra o vôo das pombas e das garças
A leve ondulação de tantas preces.

E quem penetra nesse ideal Domínio,
Por entre os raios das estrelas belas,
Todo o celeste e singular escrínio,
Todo o escrínio das lágrimas vê nelas.

E absorto, penetrando os Céus tão calmos,
Céus de constelações que maravilham,
Não sabe, acaso, se com os brilhos almos,
São estrelas ou lágrimas que brilham.

Mas ah! das Almas esse azul letargo,
Esse eterno, imortal Isolamento,
Tudo se envolve num luar amargo
De Saudade, de Dor, de Esquecimento!

Tudo se envolve nas neblinas densas
De outras recordações, de outras lembranças,
No doce luar das lágrimas imensas
Das mais inconsoláveis esperanças.

II
Ó mortos meus, ó desabados mortos!
Chego de viajar todos os portos.

Volto de ver inóspitas paragens,
As mais profundas regiões selvagens.

Andei errando por funestas tendas
Onde das almas escutei as lendas.

E tornei a voltar por uma estrada
Erma, na solidão, abandonada.

Caminhos maus, atalhos infinitos
Por onde só ouvi ânsias e gritos.

por toda a parte a rir o incêndio e a peste
Debaixo da Ilusão do Azul celeste.

Era também luar, luar lutuoso
Pelas estradas onde errei saudoso…

Era também luar, o luar das penas,
Brando luar das Ilusões terrenas.

Era um luar de triste morbideza
Amortalhando toda a natureza.

E eu em vão busquei, Mortos queridos,
Por entre os meus tristíssimos gemidos.

Em vão pedi os filtros dos segredos
Da vossa morte, a voz dos arvoredos.

Em vão fui perguntar ao Mar que é cego
A lei do Mar do Sonho onde navego.

Ao Mar que é cego, que não vê quem morre
Nas suas ondas, onde o sol escorre…

Em vão fui perguntar ao Mar antigo
Qual era o vosso desolado abrigo.

Em vão vos procurei cheio de chagas,
Por estradas insólitas e vagas.

Em vão andei mil noites por desertos,
Com passos, espectrais, dúbios, incertos.

Em vão clamei pelo luar a fora,
Pelos ocasos, pelo albor da aurora.

Em vão corri nos areiais terríveis
E por curvas de montes impassíveis.

Só um luar, só um luar de morte
Vagava igual a mim, com a mesma sorte.

Só um luar sempre calado e dútil,
Para a minha aflição, acerbo e inútil.

Um luar de silêncio formidável
Sempre me acompanhando, impenetrável.

Só um luar de mortos e de mortas
Para sempre a fechar-me as vossas portas.

E eu, já purgado dos terrestres
Crimes, Sem achar nunca essas portas sublimes.

Sempre fechado a chave de mistério
O vosso exílio pelo Azul sidéreo.

Só um luar de trêmulos martírios
A iluminar-me com clarões de círios.

Só um luar de desespero horrendo
Ah! sempre me pungindo e me vencendo.

Só um luar de lágrimas sem termos
Sempre me perseguindo pelos ermos.

E eu caminhando cheio de abandono
Sem atingir o vosso claro trono.

Sozinho para longe caminhando
Sem o vosso carinho venerando.

Percorrendo o deserto mais sombrio
E de abandono a tiritar de frio…

Ó Sombras meigas, ó Refúgios ternos
Ah! como penetrei tantos Infernos!

Como eu desci sem vós negras escarpas,
A Almas do meu ser, Ó Almas de harpas!

Como senti todo esse abismo ignaro
Sem nenhuma de vós por meu amparo.

Sem a benção gozar, serena e doce,
Que o vosso Ser aos meus cuidados trouxe.

Sem ter ao pé de mim o astral cruzeiro
Do vosso grande amor alvissareiro.

Por isso, ó sombras, sombras impolutas,
Eu ando a perguntar as formas brutas.

E ao vento e ao mar e aos temporais que ululam
Onde é que esses perfis se crepusculam.

Caminho, a perguntar, em vão, a tudo,
E só vejo um luar soturno e mudo.

Só contemplo um luar de sacrifícios,
De angústias, de tormentas, de cilícios.

E sem ninguém, ninguém que me responda
Tudo a minh’alma nos abismos sonda.

Tudo, sedenta, quer saber, sedenta
Na febre da Ilusão que mais aumenta.

Tudo, mas tudo quer saber, não cessa
De perscrutar e a perscrutar começa.

De novo sobe e desce escadarias
D’estrelas, de mistérios, de harmonias.

Sobe e não cansa, sobe sempre, austera,
Pelas escadarias da Quimera.

Volta, circula, abrindo as asas volta
E os vôos de águia nas Estrelas solta.

Cada vez mais os vôos no alto apruma
Para as etéreas amplidões da Bruma.

E tanta forca na ascensão desprende
Da envergadura, a proporção que ascende…

Tamanho impulso, colossal, tamanho
Ganha na Altura, no Esplendor estranho.

Tanto os esforços em subir concentra,
Em tantas zonas de Prodígios entra.

Nas duas asas tal vigor supremo
Leva, através de todo o Azul extremo,

Que parece cem águias de atras garras
Com asas gigantescas e bizarras.

Cem águias soberanas, poderosas
Levantando as cabeças fabulosas.

E voa, voa, voa, voa imersa
Na grande luz dos Páramos dispersa.

E voa, voa, voa, voa, voa
Nas Esferas sem fim perdida à toa.

Até que exausta da fadiga e sonho
Nessa vertigem, nesse errar medonho.

Até que tonta de abranger Espaços,
Da Luz nos fulgidíssimos abraços.

Depois de voar a tão sutis Encantos,
Vendo que as Ilusões a abandonaram,
Chora o luar das lágrimas, os prantos
Que pelos Astros se cristalizaram!

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~ por polacodabarreirinha em 06/08/2010.

2 Respostas to “”

  1. boas escolhas na poesia. cheguei cá depois de procurar paulo leminski. um beijo de portugal.

  2. Um do Brasil pra vc também. Thadeu

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