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Destino

O destino é o acaso atacado de mania de grandeza.

(Mário Quintana)

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A humanidade é uma piada onde o risada final é de morte. Você vai até a esquina e uma bala perdida te acha o cérebro. Babau. Fim? Destino? O que significa esta palavra que, segundo dizem, conduz a vida dos homens como se não passássemos de marionetes? Se o começo e o fim são determinados, é no meio que vale o nosso livre arbítrio? Antigamente se enfrentava o diabo para se conseguir uma consultazinha no Oráculo de Delphos. Hoje, disca-se para um 0900 qualquer e a R$ 4,95 por minuto, você tem todas as alternativas. O problema é que, no vestibular da vida, você é que tem de marcar um x na alternativa correta. Mas o certo mesmo é não ter pressa, porque o destino fatalmente baterá à sua porta. Nos anos sessenta, onde tudo era sonho, sonhava-se em ser “Sem Destino” ou mais tropicalisticamente falando”Sem lenço e sem documento”.
Exageros à parte, a ciência avançou tanto que alcançou o entendimento de Jesus quando disse que não nos preocupássemos com o futuro pois “cada dia traz sua pena” e que “não cai uma folha de árvore sem a permissão do Criador”. Só jerico para ter a idéia de que peru morre de véspera. Destino é lavra da alma, se colhe o que se plantou, no seio da nossa santa “ingnorância”. Ou como dizia Gonçalves Dias “a vida é combate que aos fracos abate e aos fortes, aos bravos só faz exaltar”. Não que o caminho da glória seja um mar de rosas, muito pelo contrário, para aquele que enfrenta, o destino é caminho; para o que foge, é tortura. Nietzsche falou e disse: “Destino, sigo-te! E mesmo que não o quisesse,/ deveria fazê-lo, ainda que gemendo!” A verdade é que não se pode tapar o sol do sofrimento com a peneira da felicidade, o resto é conversa fiada e a gente não pode se fiar. Mallarmé, no genial poema Um Lance de Dados Não Abolirá o Acaso, tenta equacionar o destino e o pior é que consegue, graças à mais bela e complexa sintaxe de toda a literatura universal. Para nós, que amamos a dúvida, fica uma certeza: a vida, inteira, está no final da dúvida.

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Thadeu W e Roberto Prado

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Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso

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Parte final
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UMA CONSTELAÇÃO

fria de olvido e dessuetude
não tanto
que não enumere
sobre alguma superfície vacante e superior
o choque sucessivo
sideralmente
de um cálculo total em formação
vigiando
duvidando
rolando
brilhando e meditando
antes de se deter
em algum ponto último que o sagre

Todo Pensamento emite um Lance de Dados

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( Mallarmé, tradução de Haroldo de Campos )
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diário de bardo

o verso, livre, se lança
ao mar desconhecido
até onde a vista alcança
ao encontro do perigo
navegante de mim
ruma a outro destino
um dia há de assim
tornar-me clandestino

Antonio Thadeu Wojciechowski

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Desatino Cruel

esse mal jeito de gênio
minha santa paciência
e esse excesso de oxigênio
me fazem o diabo em pessoa
exato qual morto de susto
acha justo crerem isso desatino?
apesar que não fico triste
mera letra a mais no destino

Roberto Prado
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Destino

Não discuto
com o destino
O que pintar
Eu assino

Paulo Leminski

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De O Livro dos Contrários

“sou o destino, muito prazer
você parece um pouco abatido”
“estava assim por você
mesmo sem nunca ter te conhecido”
o destino, que não bateu à porta
fatalmente ficou comovido
o acaso, sem querer, foi embora
tomando rumo desconhecido
o destino pensou: “é minha culpa
eu é que o faço inesperado
preciso deste cara como dupla”
e desviou do seu rumo por acaso

Marcos Prado

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Trecho de Invenção de Orfeu

Também há as naus que não chegam
mesmo sem ter naufragado.
não porque nunca tivessem
quem as guiasse no mar
ou não tivessem velame
ou leme ou âncora ou vento
ou porque se embebedassem
ou rotas se despregassem,
mas simplesmente porque
já estavam podres nos troncos
da árvore de que as tiraram.

Jorge de Lima
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Destinos do Solda

1.
isso é coisa do destino:
o que seria do ébrio
sem o Vicente Celestino?
2.
sou assim genuíno
por obra e graça
do meu destino
3.
alguém já disse e hoje eu ensino:
cada um deve seguir
o seu próprio destino

Solda

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Destino ao nada

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Lá vai a estrela viva em seu caminho,

Mas que bússola segue, qual seu rumo,

Uma ida sem fim até seu túmulo?

Esse pássaro, artífice do ninho,

Já vem pré-programado com tal arte,

Só nós é que esquecemos nossa parte?

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A primavera súbito floresce

E a paisagem se veste à moda antiga

E a passarada canta igual cantiga

Como se todo cio fosse S.O.S.

Da vida por si mesma, em permanente

Repetição dos códigos de sempre.

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Mas se a abelha já vem sonhando mel

Ao encontro da flores, como eu,

Querida, poderia deixar de ser seu,

Se isso já estava escrito no céu?

Só vim para cumprir o meu destino

Ou velho voltei a sonhar como um menino?

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Antonio Thadeu Wojciechowski

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Gemidos da Arte

I

Esta desilusão que me acabrunha
É mais traidora do que o foi Pilatos!…
Por causa disto, eu vivo pelos matos,
Magro, roendo a substância córnea da unha.

Tenho estremecimentos indecisos
E sinto, haurindo o tépido ar sereno,
O mesmo assombro que sentiu Parfeno
Quando arrancou os olhos de Dionisos!

Em giro e em redemoinho em mim caminham
Ríspidas mágoas estranguladoras,
Tais quais, nos fortes fulcros, as tesouras
Brônzeas, também giram e redemoinham.

Os pães – filhos legítimos dos trigos –
Nutrem a geração do Ódio e da Guerra.
Os cachorros anônimos da terra
São talvez os meus únicos amigos!

Ah! Por que desgraçada contingência
À híspida aresta sáxea áspera e abrupta
Da rocha brava, numa ininterrupta
Adesão, não prendi minha existência?!

Por que Jeová, maior do que Laplace,
Não fez cair o túmulo de Plínio
Por sobre todo o meu raciocínio
Para que eu nunca mais raciocinasse?!

Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles
Carinhos, com que guarda meus sapatos,
Por que me deu consciência dos meus atos
Para eu me arrepender de todos eles?!

Quisera antes, mordendo glabros talos,
Nabucodonosor ser do Pau d’Arco,
Beber a acre e estagnada água do charco,
Dormir na manjedoura com os cavalos!

Mas a carne é que é humana! A alma é divina.
Dorme num leito de feridas, goza
O lodo, apalpa a úlcera cancerosa,
Beija a peçonha, e não se contamina!

Ser homem! escapar de ser aborto!
Sair de um ventre inchado que se anoja,
Comprar vestidos pretos numa loja
E andar de luto pelo pai que é morto!

E por trezentos e sessenta dias
Trabalhar e comer! Martírios juntos!
Alimentar-se dos irmãos defuntos,
Chupar os ossos das alimarias!

Barulho de mandíbulas e abdômens!
E vem-me com um desprezo por tudo isto
Uma vontade absurda de ser Cristo
Para sacrificar-me pelos homens!

Soberano desejo! Soberana
Ambição de construir para o homem uma
Região, onde não cuspa língua alguma
O óleo rançoso da saliva humana!

Uma região sem nódoas e sem lixos,
Subtraída à hediondez de ínfimo casco,
Onde a forca feroz coma o carrasco
E o olho do estuprador se encha de bichos!

Outras constelações e outros espaços
Em que, no agudo grau da última crise,
O braço do ladrão se paralise
E a mão da meretriz caia aos pedaços!

II

O sol agora é de um fulgor compacto,
E eu vou andando, cheio de chamusco,
Com a flexibilidade de um molusco,
Úmido, pegajoso e untuoso ao tacto!

Reunam-se em rebelião ardente e acesa
Todas as minhas forças emotivas
E armem ciladas como cobras vivas
Para despedaçar minha tristeza!

O sol de cima espiando a flora moça
Arda, fustigue, queime, corte, morda!…
Deleito a vista na verdura gorda
Que nas hastes delgadas se balouça!

Avisto o vulto das sombrias granjas
Perdidas no alto… Nos terrenos baixos,
Das laranjeiras eu admiro os cachos
E a ampla circunferência das laranjas.

Ladra furiosa a tribo dos podengos.
Olhando para as pútridas charnecas
Grita o exército avulso das marrecas
Na úmida copa dos bambus verdoengos.

Um pássaro alvo artífice da teia
De um ninho, salta, no árdego trabalho,
De árvore em árvore e de galho em galho,
Com a rapidez duma semicolcheia.

Em grandes semicírculos aduncos,
Entrançados, pelo ar, largando pêlos,
Voam à semelhança de cabelos
Os chicotes finíssimos dos juncos.

Os ventos vagabundos batem, bolem
Nas árvores. O ar cheira. A terra cheira…
E a alma dos vegetais rebenta inteira
De todos os corpúsculos do pólen.

A câmara nupcial de cada ovário
Se abre. No chão coleja a lagartixa.
Por toda a parte a seiva bruta esguicha
Num extravasamento involuntário.

Eu, depois de morrer, depois de tanta
Tristeza, quero, em vez do nome – Augusto,
Possuir aí o nome dum arbusto
Qualquer ou de qualquer obscura planta!

III

Pelo acidentadíssimo caminho
Faísca o sol. Nédios, batendo a cauda,
Urram os bois. O céu lembra uma lauda
Do mais incorruptível pergaminho.

Uma atmosfera má de incômoda hulha
Abafa o ambiente. O aziago ar morto à morte
Fede. O ardente calor da areia forte
Racha-me os pés como se fosse agulha.

Não sei que subterrânea e atra voz rouca,
Por saibros e por cem côncavos vales,
Como pela avenida das Mappales,
Me arrasta à casa do finado Toca!

Todas as tardes a esta casa venho.
Aqui, outrora, sem conchego nobre,
Viveu, sentiu e amou este homem pobre
Que carregava canas para o engenho!

Nos outros tempos e nas outras eras,
Quantas flores! Agora, em vez de flores,
Os musgos, como exóticos pintores,
Pintam caretas verdes nas taperas.

Na bruta dispersão de vítreos cacos,
À dura luz do sol resplandecente,
Trôpega e antiga, uma parede doente
Mostra a cara medonha dos buracos.

O cupim negro broca o âmago fino
Do teto. E traça trombas de elefantes
Com as circunvoluções extravagantes
Do seu complicadíssimo intestino.

O lodo obscuro trepa-se nas portas.
Amontoadas em grossos feixes rijos,
As lagartixas, dos esconderijos,
Estão olhando aquelas coisas mortas!

Fico a pensar no Espírito disperso
Que, unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança,
Como um anel enorme de aliança,
Une todas as coisas do Universo!

E assim pensando, com a cabeça em brasas
Ante a fatalidade que me oprime,
Julgo ver este Espírito sublime,
Chamando-me do sol com as suas asas!

Gosto do sol ignívomo e iracundo
Como o réptil gosta quando se molha
E na atra escuridão dos ares, olha
Melancolicamente para o mundo!

Essa alegria imaterializada,
Que por vezes me absorve, é o óbolo obscuro,
É o pedaço já podre de pão duro
Que o miserável recebeu na estrada!

Não são os cinco mil milhões de francos
Que a Alemanha pediu a Jules Favre…
É o dinheiro coberto de azinhavre
Que o escravo ganha, trabalhando aos brancos!

Seja este sol meu último consolo;
E o espírito infeliz que em mim se encarna
Se alegre ao sol, como quem raspa a sarna,
Só, com a misericórdia de um tijolo!…

Tudo enfim a mesma órbita percorre
E as bocas vão beber o mesmo leite…
A lamparina quando falta o azeite
Morre, da mesma forma que o homem morre.

Súbito, arrebentando a horrenda calma,
Grito, e se grito é para que meu grito
Seja a revelação deste Infinito
Que eu trago encarcerado na minh’alma!

Sol brasileiro! queima-me os destroços!
Quero assistir, aqui, sem pai que me ame,
De pé, à luz da consciência infame,
À carbonização dos próprios ossos!

Augusto dos Anjos

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~ por polacodabarreirinha em 03/09/2010.

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